Depois de A Desobediente, a biografia de Maria Teresa Horta, Patrícia Reis lança um novo romance, O Lugar da Incerteza. Editado pela Companhia das Letras, chega esta segunda-feira, 19 de janeiro, às livrarias. A jornalista e escritora diz que num "mundo em que as pessoas gostam muito mais de se ouvir do que de ouvir os outros" é preciso dar espaço ao debate de ideias e à discordância. E faz sua uma frase de Urbano Tavares Rodrigues: é urgente ensinar a bondade.Em março do ano passado disseste numa entrevista à Antena 1 que tinhas acabado de escrever um romance, que ainda não tinha título, e que te tinhas “divertido imenso”, ao contrário do que costuma acontecer, porque escrever é difícil. Era este o livro, O Lugar da Incerteza?Era este. Porque me diverti com este? Eu parti para este livro numa posição diferente em relação aos outros livros. Parti para este livro de uma posição ética, de observar o mundo e de me interrogar como é que nós vamos resistir face a esta violência da razão. Todos têm razão, todos têm uma opinião e não há espaço para a dúvida. É como se a incerteza fosse uma fragilidade. E aquilo que eu quis com o livro foi construir propostas de pensamento, porque a literatura é sempre isso, é uma promoção de pensamento, um convite ao pensamento, no sentido de dizer, será que é mesmo preciso esta violência da razão? Será que é mesmo preciso considerar a incerteza, a dúvida, como uma fragilidade, como uma fraqueza? Ou será que a dúvida, a incerteza, é o que nos dá um espaço de maior responsabilidade para olharmos para o mundo? E, nesse sentido, foi mais divertido. Porque tem a ver com aquilo que nós vivemos hoje, num momento contemporâneo. Continua a ter que ver com pessoas, eu também só sei escrever sobre pessoas, não me interessa escrever sobre mais nada. Mas, de alguma forma, eu também saí um bocadinho daquele universo mais sofrido da desfuncionalidade dentro da família. É mais do que isso. Existe uma família, claro, mas existem outros personagens que andam à volta e que são igualmente importantes. E depois, esta coisa incrível, que é um psiquiatra cheio de razão e um padre cheio de dúvidas. É a fé versus a ciência?É um bocadinho mais do que isso. É um padre zangado com Deus, no final da vida, à procura de se perceber, pela primeira vez. E um psiquiatra que nunca deu espaço para lá da sua própria razão. E que neste encontro com o padre, que não tem futuro, porque está no final da vida, vai suavizando a sua posição. Vai sendo menos prepotente, menos convicto das suas razões. E há aqui uma transformação. Não é que ele se transforme totalmente. Dizes que a tua escrita é sempre sobre a construção da identidade a partir de coisas que te acontecem.Ou que observas no mundo, sim. Foi assim sempre. A partir daquilo que lhes aconteceu na vida, das suas circunstâncias, eu sou eu e as minhas circunstâncias. Porque me interessa muito perceber como é que as pessoas resistem àquilo que lhes acontece. O que é que fica? Qual é a cicatriz que se inscreve a partir de um momento, ou de um evento, ou de uma situação que marca, mas que marca significativamente, que é uma cicatriz. Agora, a cicatriz cicatriza ou a cicatriz é uma ferida aberta? E o que é que isso diz sobre nós? Para mim será sempre esta pergunta. É por isso que as pessoas vão à terapia.Uma das epígrafes do livro é do Michael Cunningham, uma frase que enaltece a bondade e a capacidade de devoção em detrimento da inteligência e do engenho...O maior investimento que tu tens na vida é a bondade. O Urbano Tavares Rodrigues foi meu amigo durante muito tempo e tinha uma frase que eu repito à exaustão: é urgente ensinar a bondade. É urgente a gentileza. E nós vivemos num mundo que está completamente do lado oposto. Eu é que tenho razão, eu é que sei. O algoritmo coloca-te naquele carril em que tu só vês aquilo que vai a teu favor. A favor das tuas ideias, das tuas convicções, vai manipulando-te. E a gentileza, a bondade, significa que tu tens que dar espaço. E também estamos num mundo em que as pessoas gostam muito mais de se ouvir do que de ouvir os outros. E eu acho que tu só cresces também na discordância, no debate, na promoção das ideias. Escreves sobre o António, a personagem do psiquiatra, “que o que o derrotava era a ternura”. “Ele, um psiquiatra treinado para todo o espetro emocional, deixava-se derrotar porque não sabia lidar com a ternura”.Porque é um homem com pouca inteligência emocional para ele próprio e não para os outros.Estamos também a chegar a um estado de coisas em que as pessoas desconfiam dos atos de bondade?Porque é fraqueza. Coloca-se a incerteza, a dúvida, a coisa lamechas, a bondade, a gentileza, tudo no mesmo saco da fragilidade. E, portanto, como as pessoas têm de ser fortes, não podem ser permeáveis à lamechice, ao amoroso - amoroso no seu sentido mais lato. E eu cheguei aos 55 anos a achar que é exatamente o contrário, se estiveres disponível, se tiveres capacidade para escutar o outro, se estiveres disponível para mudar de ideias. Nós precisamos muito de promover pensamento e estamos num mundo que não quer, de todo, que as pessoas pensem.A escrita para ti é também uma forma de conseguires pensar sobre o que está a acontecer no mundo?A partir da minha perspetiva ética sobre o mundo, o que eu observo e o que me incomoda. Em O Lugar da Incerteza abordas questões da atualidade, há uma jovem mulher que é barriga de aluguer, há violação, há uma mulher bem-sucedida que se vê maltratada pelos jornais....Essa violência da comunicação social hoje, que é terrível. A violência das redes sociais, a violência dos opinadores, a violência daquele soundbite que fica. E como é que tu podes estar cheio de razão e não conseguires combater este soundbite? É muito contemporâneo. É muito real. E é muito duro. Dizes que os teus livros começam quando surge uma personagem, com “roupa, corpo e tudo”.É sempre assim, para mim. Isto pode parecer um pouco estranho para as pessoas, mas o Agualusa diz que sonha os livros. Portanto, ele sonha os livros, eu vejo personagens inteiras vestidas com características físicas muito específicas. Para mim tornam-se pessoas. Enquanto se escrevem, são pessoas, não são personagens. E têm vontade própria. Eu levei muito tempo para conseguir chegar ao ponto a que cheguei na relação entre o padre e o psiquiatra. E esse também foi um trabalho com a Sofia Fraga [editora da Companhia das Letras] que foi incrível de fazer, porque ela foi puxando por mim. Eu tinha algum receio de ser demasiado. Das questões filosóficas, das questões éticas, das questões da inteligência artificial, que também fazem parte do livro, das questões existenciais, serem demasiado.Mas demasiado porquê?Não sei se demasiado é a palavra. Nem sei identificar exatamente o meu receio, para ser sincera. São dois homens, um no final da sua existência, e outro no princípio dos 60 anos. E há este exercício de teres que te pôr no lugar do outro e deixá-los construir aquela relação. E ser subtil, mas ao mesmo tempo muito significativa, muito séria. Eu diria que o Eduardo é o único amigo que o António teve na vida. E isso, de alguma forma, tinha que passar. Não sei, há sempre este receio de que as nossas personagens sejam pouco verosímeis, talvez. E tu procuras esse caminho e queres assegurar-te que esse caminho é conseguido. É mais isso.Disseste uma vez que a tua “hipersensibilidade” tem-te prejudicado ao longo da vida. No caso da escrita, é uma grande ajuda?É uma ajuda fundamental. E os meus personagens não são autobiográficos, são os meus personagens. A literatura não é o decalque da realidade. A literatura é esta coisa maravilhosa de vivermos na imaginação. Na possibilidade de construir o sentimento do outro. E do que é que isso significa. Isso é muito rico. Mas pode ser um bocadinho esquizofrénico. Porque às tantas, tu tens que viver com um psiquiatra e com um padre e com uma jovem adulta, de 30 anos, que tensiona engravidar porque vai ajudar um casal de amigas, mas entretanto há o ex-namorado... E tu és isto tudo, tens que ser estas pessoas todas, de alguma forma. E isso é um desafio muito grande. Mas também é uma maneira incrível de peneirares as tuas emoções e as tuas ideias. Como é que surgiu a personagem do António, o psiquiatra?A ideia do psiquiatra surgiu há algum tempo, eu ainda estava a fazer a biografia da Maria Teresa Horta. Porque conheço alguns psiquiatras que são figuras absolutamente fascinantes, e porque fiz terapia com um psiquiatra e aprendi muito. E aquele processo sempre me fascinou. O processo do nosso lado é pessoal, é uma construção, é um autoconhecimento, é um reconhecimento de padrões de comportamento, é um desbravar de territórios que às vezes até são bastante desconfortáveis de revisitar. Mas e como é que é o outro lado? Como é que é esta coisa de estares ali uma hora sentada a ouvir aquela pessoa, depois aquela pessoa vai embora e vem outra, com outro mundo, outros problemas, outras ideias? No processo todo em que estava embrulhada na biografia da Maria Teresa, que fez psicanálise durante 17 anos com a Maria José Vidigal, que é uma sumidade da psicanálise neste país, nós falámos muito sobre este processo terapêutico. Portanto, esta ideia do psiquiatra foi crescendo. E o psiquiatra que não é bonzinho. Isso fascina-me muito, o psiquiatra que não é bonzinho. O António é o elemento que liga as personagens e no fim estão todos à mesma mesa e ele está ali a antecipar o futuro de cada uma delas...Porque ele é, de alguma forma, Deus Nosso Senhor, como o ChatGPT. Eu levei muito tempo a chegar ao final, mas muito tempo mesmo. Mas eu acho fascinante esta coisa de, no fim, tu poderes reunir aquelas pessoas todas com as suas coisas boas e as suas coisas más, porque elas têm todas esta ambivalência, temos todos. E essa capacidade do psiquiatra de ter a arrogância de prever o futuro. Porque é uma arrogância. É a arrogância da convicção, da razão. Da sua razão. E para ele é muito importante ter a sua razão. Aliás, o livro começa assim, com a velhota que também acha que tem a sua razão. E que, na verdade, sendo uma personagem secundária, a velhota é a única que tem um registo de paridade com ele, é a única que olha olhos nos olhos. Deixa-te lá de tretas meu amor, tu podes ter todos os estudos do mundo, mas eu já cá andava há muito tempo, e tu não és mais do que eu. É a única. As relações entre todas as personagens vão-se revelando ao longo do livro. Parecem histórias isoladas e depois as conexões vão surgindo. Esse caminho foi difícil de conseguir?Era esse o meu receio, ser verosímil. Ninguém sentir, enquanto leitor, que estranho... sentir que é natural. Porque, se ficarmos aqui as duas mais uma hora, chegamos à conclusão que tu és prima do pai que morreu na guerra, que é amigo do meu avô, que não sei o quê. Porque o mundo é isto. É da condição humana esta coisa redondinha, de estarmos todos ligados de alguma forma. Neste livro há referências a uma personagem de Lídia Jorge, o professor Osvaldo Campos.Eu gosto muito do livro Combateremos a Sombra, e tenho um fascínio por psiquiatras. Liguei à Lídia e disse se eu ‘roubar’ o professor Osvaldo Campos, pode ser, não te incomodas? E ela disse com certeza, que bom, olha que maravilha. É um outro caminho para a personagem, acontece muitas vezes. Eu já roubei personagens da Inês Pedrosa, já roubei personagens da Hélia, todos nós vamos roubando. A Maria Teresa roubou... Não vou fazer spoiler, leiam o livro, é maravilhoso, mas Osvaldo Campos é também um psiquiatra a quem a vida troca as voltas. Enquanto escrevia surgiu-me este tipo que poderia ter dado aulas ao meu António. O Lugar da Incerteza também fala de fé. Fizeste um mestrado em Ciência das Religiões, mas vives de alguma forma a espiritualidade, és religiosa?Eu sou profundamente cristã. E não tenho vergonha nenhuma de o dizer. Hoje em dia quase que parece outra fragilidade. Dá-me igual. Eu sou profundamente cristã. É um legado com o qual todos nós vivemos, uns mais, outros menos. Mas eu até considero uma profunda hipocrisia as pessoas que olham de lado quando eu digo que sou profundamente cristã, porque continuamos a celebrar a Páscoa, os feriados religiosos, o Natal. E continuamos a ter expressões que derivam do cristianismo. E acho que a grande questão deste milénio vai ser o caminho que as religiões vão levar. As religiões como construção e regulação do poder, e aqui podíamos começar a falar de política, porque tudo é político. A literatura também é política. A fé é política. Mas eu preciso de acreditar que qualquer coisa é melhor do que todos nós, qualquer coisa. Esta ideia de que podemos ser melhores. E nesse sentido há uma espiritualidade. .Mudaste de editora. Porque saíste da Dom Quixote?O caminho faz-se caminhando. E o mundo mudou muito. O último livro que eu publiquei na Dom Quixote foi o Da Meia-Noite às Seis (2021), escrevi-o na pandemia. E pensei que era tempo de experimentar outra coisa, de trabalhar com outras pessoas. Perceber o mundo de outra maneira, e tentar perceber se haveria outra forma de trabalhar os livros. Publicaste recentemente o livro A Minha Cabeça é um Lugar Estranho, com desenhos de Tomás Castro Neves...É uma edição caseira, chamemos-lhe assim. É uma coisa diarística, era um exercício para descobrir se nós temos liberdade. Escrever de forma a entender se de facto existe liberdade ou não. E claro que não existe.Porque dizes que a tua cabeça é um lugar estranho?Porque eu preciso de fazer muitas coisas. Muitas vezes as pessoas dizem-me, mas porque é que estás a fazer mais isso? Porque é que não fazes só uma coisa? Eu sou incapaz de fazer só uma coisa, incapaz. Para já interesso-me por muitas coisas, gosto de perceber e gosto de fazer coisas diferentes. Eu gosto de escrever, mas também gosto de fazer crónicas, e também gosto de fazer entrevistas, e também gosto de fazer podcasts, também gosto de fazer livros, gosto de fazer revistas, e gosto de fazer curadoria.E passados 26 anos dá-te o mesmo prazer do início fazer a revista Egoísta? Claro que sim. É um privilégio, por tudo. É um privilégio porque as pessoas são muito generosas, todas elas. Artistas, fotógrafos, escritores, ensaístas, todas as pessoas. O que é que te agrada mais no processo de fazer a revista?É o fazer diferente. É o fazer aquilo que não tinhas feito. E ao fim de 26 anos é um exercício e tanto, porque já fizeste muito, já fizeste muita coisa. Mas é incrível.Nunca conseguirias ser apenas escritora?Eu nunca deixarei de ser escritora, mas tenho que ser todas as outras coisas para poder ser escritora. Eu preciso muito de estar no mundo, e não isolada do mundo, para poder ser escritora. Há quem precise de se isolar, e eu compreendo e tenho o maior respeito. Mas o meu caso é diferente. Eu preciso de estar no mundo para depois poder ser escritora. Mas para escrever a pessoa tem que se isolar. É um trabalho muito solitário. Como é que conjugas essa vida tão ocupada com o processo de estar ali a escrever?Eu sou uma colecionadora mental. Portanto, eu vou escrevendo o livro na minha cabeça. Estou aqui a falar contigo e de repente tive uma ideia para pôr no livro. E foi ótimo, porque este livro novo também vai ter uma jornalista. Eu roubo horas ao dia para poder escrever. Mas eu não escrevo todos os dias. Vou colecionando, e depois há um momento em que, como a panela de pressão está demasiado cheia, já não dá mais e tens mesmo que escrever. Então tenho um ciclo de escrita, escrevo dez dias seguidos, à noite, na cama, três, quatro horas, não mais do que isso, porque é contraproducente para mim, tenho duas hérnias e não há nenhuma cadeira ou mesa que me seja confortável e arranjei este subterfúgio. Como ao fim destas horas já me dói o corpo todo, deixa de ser bom. Portanto, vou conseguindo, e nunca me imponho um prazo. Eu só entrego quando entrego.Além do próximo romance que já estás a escrever, em que projetos estás envolvida?Neste momento tenho um podcast com a Paula Cosme Pinto na Rádio Comercial, tenho o projeto Babell, que é um grande evento cultural na cidade do Porto, de 24 a 30 de junho deste ano. Estou a fazer a curadoria das exposições e um jornal, foi um desafio do Rui Couceiro que é o comissário do evento. Lá está, eu seria muito infeliz se fizesse só uma coisa. .Festival Babell: a cidade do Porto como palco, o livro como passe.João Tordo: “Sou dez vezes o escritor que era quando comecei”