Incentivar o consumo de livros digitais está entre as recomendações que saíram da última edição do evento Book 2.0 organizado pela APEL...Sim, para nós a oferta de livros digitais deve ser vista de forma complementar ao livro físico. O livro digital, acima de tudo, tem vantagens do ponto de vista prático. Permite-nos ler em qualquer sítio, em qualquer circunstância. Viajar com livros é sempre um pouco mais complicado, há mais peso nas bagagens. E é nesta ótica que nós vemos a vantagem do livro digital.Mas que implicações tem a digitalização para o negócio dos editores e livreiros?Os editores vendem tanto livros físicos como ebooks. É verdade que há editores que, por exemplo, desfazem, temporalmente, o lançamento do ebook versus o livro físico. É verdade que há editores que optam por não ter uma aposta vincada em livros digitais. Também é verdade que há autores que optam por não ter as suas obras em formato digital. E isto tem muito a ver com o facto de ser ainda um formato que tem algumas desvantagens, até de um ponto de vista da segurança do conteúdo. E é este ponto que eu queria tocar aqui e relacioná-lo com o Dia Mundial do Livro. Porque o Dia Mundial do Livro é, simultaneamente, o do Direito de Autor. Que é uma coisa que nós temos, cada vez mais, que colocar em cima da mesa. Nós sabemos que há grupos de WhatsApp e outros grupos em redes sociais, grupos informais, que partilham conteúdos livremente – eu vou dizer mesmo a palavra ilegalmente.Que impacto tem a pirataria no mercado do livro?Não tenho dados muito fiabilizados neste momento. Nós temos a perceção de que esta realidade se está a acentuar. No último estudo que a APEL fez, em 2011, com o Iscte, sob coordenação do professor Pedro Dionísio, avaliou-se em cerca de 60 milhões de euros o impacto que a pirataria estaria a induzir na economia do livro. E quando eu falo da economia do livro, falo do autor, dos editores, dos tradutores, dos revisores, dos livreiros, mas também do Estado português que coleta impostos e, nesta situação, deixa de coletar impostos pela partilha ilegal dos conteúdos. Quando eu refiro partilha, eu não estou a escamotear o facto de emprestarmos livros uns aos outros. Uma coisa é nós comprarmos um livro e emprestarmos o livro, isto ajuda a dinamizar e a promover o hábito da leitura e a enraizar o hábito recorrente da leitura. Não me refiro a isto. Emprestar livros vai sempre acontecer e é importante que aconteça. As bibliotecas têm um papel determinante também nesta componente. Agora, partilhar ficheiros digitais com livros inteiros e partilhá-los por dezenas de milhares de pessoas, para além de ilegal, é um crime, mas, acima de tudo, cerceia a capacidade que os autores têm em remunerar o seu trabalho de criação.Na sua perceção, como evoluiu a situação desde 2011? Qual é o cenário atual?Nós estamos a equacionar, enquanto APEL, fazer um novo estudo para nos reposicionarmos face às circunstâncias atuais. É inegável que a tecnologia evoluiu significativamente. É inevitável que a proliferação de redes sociais, o número de pessoas que cada uma das redes sociais movimenta, que há um aumento exponencial. Só para ter uma ideia, se aplicarmos simplesmente uma atualização monetária a estes 60 milhões de euros – estamos a falar de um estudo que aconteceu há 15 anos –, isto equivaleria hoje a 75 milhões de euros. O mercado cresceu, as pessoas estão a ler mais, as pessoas têm, inevitavelmente, mais habilitações académicas, a taxa de analfabetismo em Portugal já é, felizmente, reduzida – o que não significa que não tenhamos problemas de literacia. Nós estimamos, é uma estimativa muito pouco apurada, que andará entre os 75 e os 100 milhões de euros. Mas temos de fazer esta avaliação. Acima de tudo, temos de perceber que há também um trabalho de sensibilização para fazer. Não é só a questão da penalização e da responsabilização por via do estabelecimento de uma tipologia de crime, é mais pela via da sensibilização.O mercado do livro está a crescer, no ano passado chegou quase a 220 milhões de euros, foram vendidas quase 15 milhões de unidades, mais 7% face a 2024, mas continuamos, em termos de vendas per capita, ainda muito abaixo de países como França, Reino Unido, Espanha... Fico feliz que esse conceito esteja a ser interiorizado. A evolução do mercado, nos últimos anos, tem sido inquestionável. Desde 2021 até agora, e já estou a incluir dados de 2026, o mercado tem crescido. Em unidades, o mercado português foi o único país dos que estão a ser avaliados pela GfK que cresceu. O que é verdadeiramente assustador é que países europeus, com níveis de literacia muito mais elevados do que o nosso, com níveis de compra de livro e de leitura de livro muito superiores, estão já a inverter, ou seja, estão a perder unidades. E é pelo efeito do preço que o valor do mercado ainda vai crescendo. Em Portugal, não é isso que tem acontecido, o mercado está a crescer em unidades, e, naturalmente, em função disso, o mercado também cresce em valor.Mas em termos de preços médios, como nos comparamos com outros países?Se olharmos só para o preço, o preço médio no mercado português tem crescido, por exemplo, em 2025 cresceu 0,9%, quando tivemos uma inflação de 2,3%, em 2024 o preço médio terá crescido à volta de 1,1%, 1,2%, quando a inflação também foi de 2,4%, ou seja, admitindo que o custo dos recursos está a subir ao nível da inflação, e isto nem sempre é assim, porque há uns anos atrás a seguir a pandemia e a seguir a guerra da Ucrânia, coisas como o papel, as tintas, subiram muito acima da inflação, a verdade é que o setor tem conseguido acomodar este incremento de custos sem o refletir, de um ponto de vista de preço. Isto, por um lado, também é possível, porque as quantidades estão a subir, a escala está a subir, e é nesta, quanto mais leitores tivermos, quanto mais livros forem comprados, naturalmente mais livros podem ser produzidos, e, portanto, a escala de produção começa a beneficiar de economias de escala. Neste momento, quando nós comparamos o preço médio do nosso país com o preço médio de países europeus, inevitavelmente o nosso preço está influenciado por níveis de produção mais baixos, porque também lemos menos. Mas quando olhamos em termos absolutos para o preço, naturalmente o preço em Portugal é um pouco mais caro que noutros países, precisamente pela falta de escala. Ainda assim, a variação do preço tem sido claramente acomodada pelos editores, sobretudo nesta perspectiva de que também se está a vender mais, lê-se mais, vende-se mais, e depois também temos esta capacidade de amortecer outros efeitos. Se os preços dos livros fossem mais baixos, haveria mais leitores? Não consigo fazer essa relação direta. Eu não acho que o livro seja caro, olhando para toda a cadeia de valor, começando no autor, passando pelo revisor, pelo tradutor, pelo editor, pelos designers gráficos, pela cadeia logística, que envolve transportes e o armazenamento, pelas rendas pagas pelas livrarias, que estão cada vez mais altas, e os salários, que felizmente, estão a subir. Toda esta cadeia de valor do livro leva-nos a que o preço médio do livro em Portugal seja de 14,5 euros. Mas há muitos livros infantis que custam muito menos do que isso. Um menu numa cadeia de fast food custa facilmente nove euros... É verdade que depois temos novidades de autores muito consagrados, ou livros que são robustos do ponto de vista do seu conteúdo, e que se posicionam em torno de uns 20, 21, 22 euros. Mas quando começamos a comparar o valor do livro com o valor de outros produtos que existem no nosso mercado, mesmo correndo o risco de serem coisas que não são diretamente comparáveis, eu tenho de dizer que não acho que isso seja o verdadeiro problema. É mais relevante criar hábitos de leitura?Com certeza. O hábito de leitura tem de aparecer nas famílias. O hábito de leitura tem de passar pelas escolas. Nós andamos nos transportes públicos em Portugal e não vemos tantas pessoas a ler livros como noutros países. Manifestamente, nós temos um gap, temos um déficit de hábito de leitura. Isto depois repercute -se em dificuldades ao nível da literacia.O facto de estarem a vender mais livros do segmento infantil e juvenil é um bom sinal?É claramente um bom sinal. Quer dizer que as famílias estão a promover o hábito da leitura. Os jovens também estão a ler mais, é isso que diz o último estudo dos hábitos de consumo?O que no diz é que o crescimento, quer da compra, quer da leitura, verifica-se de uma forma mais evidente nas gerações mais novas.Isso tem a ver com as redes sociais, mais do que com as escolas?Eu tenho visto exemplos muito bons de professores que fazem um esforço enorme para que o livro faça parte do dia-a-dia. O que eu acho é que o nosso programa, por exemplo, da disciplina de português, deveria estar muito mais robustecido na componente do livro. Na verdade, quantos livros é que eles verdadeiramente leem? A mensagem que nós estamos a passar é que, durante o ano letivo, que são nove meses, os jovens, as crianças, têm que ler três livros. E eu já ouvi o argumento de que, bem, não é bem assim, esses são os obrigatórios. Então convençam-nos lá a ler mais. Convençam as próprias famílias a induzir esse hábito. Eu já ouvi pais a dizerem que se não é obrigatório... Estamos a falar de livros, os livros ampliam o conhecimento, estimulam a criatividade, exercitam as capacidades cognitivas, fortalecem as capacidades emocionais. Mas é preciso continuarmos a meter esta cassete, o diagnóstico ainda não está feito? Um pai ou uma mãe que toma uma decisão de ter filhos, não está ainda convencido que este é um vector fundamental do desenvolvimento do potencial humano? Então estamos a falhar na comunicação.Em relação ao cheque-livro, como estão a decorrer os resgates desta segunda edição?Até 31 de março foram resgatados cerca de 33 mil cheques. Estamos a falar de 207 mil jovens nascidos em 2007 e 2008. E em três meses, janeiro, fevereiro e março, destes 207 mil jovens que têm 30 euros para investir em livros, só 33 mil é que resgataram cheques. E resgatar não é utilizar. Até 31 de março cerca de 21.500 foram utilizados. Ou seja, há um gap de 11.500 cheques, o que bate certo com a primeira edição. Nós chegámos ao final dessa edição, com prolongamento de mais de três meses face à ideia inicial, também com um gap de 12 mil cheques que não foram utilizados.Não é uma questão de valor? Se o cheque fosse de 100 euros a situação seria a mesma? Seria um incentivo maior. Não tenho dúvidas disso. É justa a questão, quem não lê, seja 20, 30, ou 100, não vai utilizar na mesma... Mas o incentivo é maior. E, na verdade, eu também não tenho dúvidas que há muitos jovens que estão a ganhar hábitos de leitura e que, gradualmente, alguns iam lá chegar. Mas é a mensagem acima de tudo. 100 euros permitir-nos-ia, numa perspetiva dos tais 14, 15 euros em média por livro, trabalhar seis, sete, oito livros no ano. E esta é uma mensagem forte. Eu reconheço que há limitações tecnológicas para se conseguir fazer isto, mas tem que se trabalhar nessas limitações. E eu quero também sublinhar que o esforço que a ministra Margarida Balseiro está a fazer neste sentido é muito meritório. Eu não posso negar que foi 50% a mais no valor, neste crescimento de 20 para 30 euros. Mas também é verdade que nós necessitamos de mobilizar um conjunto de entidades na vertente da comunicação. Nesta vertente da comunicação, o que é que é preciso fazer mais?É preciso chegar aos jovens. E o Ministério da Educação tem acesso aos jovens pelas suas plataformas. O Ensino Superior, porque muitos destes jovens que estão nesta faixa etária já transitou ou está a transitar para o Ensino Superior. E neste momento nós temos a Educação e o Ensino Superior dentro do mesmo guarda-chuva político. É preciso chegar a estes jovens, seja pela via das plataformas que existem nas escolas, sejam elas escolas secundárias ou universidades, seja através de outras plataformas, como a do Cartão Jovem. Não estão a ser utilizadas neste momento para comunicar este programa do cheque-livro? Que seja do nosso conhecimento, não. E temos que trabalhar nisto. É de prever que esta segunda edição, cujo prazo termina a 30 de junho, se estenda durante mais meses, como aconteceu na primeira edição? Perante a evolução da adesão, eu acho que era muito importante considerarmos, de facto, uma extensão deste prazo. Mas também é muito importante que trabalhemos na vertente da comunicação e, do lado da APEL, seguramente que o vamos fazer. São editados cerca de 40 livros novos por dia, em 2025 foram 14.977... Esses 15 mil são títulos novos que entraram no mercado português no ano passado pela primeira vez. E que tiveram pelo menos uma unidade vendida, sim. Cerca de oito mil são livros importados. Cerca de sete mil são livros publicados em Portugal, em larguíssima medida em língua portuguesa. Mas há que fazer esta nota, destes 15 mil, oito mil são importados.É a única maneira das editoras sobreviverem, estarem com lançamentos sucessivos?É uma estratégia. É a estratégia principal neste momento, haver uma recorrência grande de publicação, porque a componente de novidade tem um peso significativo no mercado português. Deixe-me só recuar aqui: no mercado português foram vendidos 15 milhões de unidades correspondentes a 150 mil títulos. Destes 150 mil, 15 mil são novos títulos. Sendo que oito mil são um livro importado em língua estrangeira e sete mil publicados em Portugal em língua portuguesa. Quando nós começamos a fazer os rácios destes números todos, é incontornável dizer-lhe que nós temos uma oferta de títulos muito ampla, muito vasta, 150 mil títulos. Depois vamos ver e é uma média de 100 exemplares por título, que nos leva para os 15 milhões de livros.Essa é a média de tiragem também?Eu não lhe sei dizer qual é a média por tiragem, mas para ser minimamente rentável, temos de ter tiragens entre 1500 e três mil exemplares. O que é um best-seller em Portugal?Varia muito. Nós temos best-sellers que vendem 70 mil, 60 mil, 50 mil, não é muito frequente, mas 100 mil, 150 mil, pode acontecer. Mas eu diria que um título que venda acima de cinco mil unidades, para a realidade do mercado português, é um sucesso. Em relação à Lei do Preço Fixo do Livro, a APEL propõe alterações à lei atual?Nós estamos a trabalhar nisso. Eu gostaria muito que durante o ano de 2026 tivéssemos novidades. Sim, entendemos que há alguns aspetos na lei que devem ser melhorados. Quando falamos na lei do preço fixo do livro, nós temos que começar por clarificar o conceito. O conceito é que o preço é fixado pelo editor. E o editor pode fixar o preço ao longo do tempo. Ou seja, eu posso fixar o preço hoje e nada impede que daqui a uns tempos eu mude esse preço, seja para cima ou para baixo. Em relação aos descontos neste momento em Portugal, durante os primeiros 24 meses o desconto máximo sobre os livros é de 10%. Pode ser 0%, pode ser 5%, pode ser aquilo que a relação entre o editor e o livreiro determine, mas não pode ultrapassar os 10%. A partir dos 24 meses a determinação do desconto é completamente livre. E nós deveríamos olhar para aquilo que acontece noutros países, que têm um ecossistema livreiro muito mais robusto do que o nosso, porque também se lê mais. Mas também é verdade que países como a Alemanha, a Itália, a França, a Espanha, que entendem o livro como um bem essencial, pela sua componente educativa e cultural. E esse valor do livro deve ser preservado. E deve ser preservado o mais possível na sua vida útil, e não assumindo que a partir de um determinado momento do ciclo de vida se possam fazer descontos 'infinitos'. Se nós permitirmos que haja descontos ao desbarato, estamos a desvalorizar o produto, quando na verdade o editor pode ajustar o preço do produto.Qual é a proposta da APEL? Fixar um teto para os descontos após os 24 meses?Nós estamos a estudar a melhor forma de o fazer. Não temos ainda uma proposta fechada. Portanto, vai desculpar-me, eu não vou falar numa proposta. Mas nós estamos a trabalhar na definição de qual é que é o melhor momento para se fazer o corte, ou seja, os 24 meses para nós parece-nos excessivo.O que propõem?Para nós, e eu diria que é um ponto consensual, 18 meses, como estava anteriormente na lei, foi sempre essa a posição da APEL, 18 meses é aquele ponto certo. O sucesso ou insucesso de um livro é influenciado por muitos fatores, mas é determinado pela resposta que inevitavelmente os leitores dão de compra ou não compra. 15 milhões de exemplares vendidos com 150 mil títulos dá em média 100 unidades por título. Isto levanta um problema: estes sete mil títulos portugueses colocados no ano passado são 30 por dia útil. 30 livros novos com tiragens que têm de fazer sentido de um ponto de vista económico, têm de ser rentáveis, de mil a três mil exemplares. E para vender quanto depois? Os grandes sucessos vendem milhares de unidades e há reimpressões. Mas há muitos que vendem o que tiverem que vender nos primeiros meses e depois deixam de vender. Vão apresentar esta proposta ao Ministério da Cultura, já estão em diálogo com o Ministério da Cultura?A bola está claramente do lado da APEL, e a APEL está a tentar, o mais possível, consensualizar uma proposta que seja claramente reconhecida como viável por editores, livreiros, autores, independentemente de serem associados da APEL ou não, independentemente de serem grandes grupos ou não, nós temos a noção que a lei do preço fixo do livro, que existe por toda esta Europa - e há cada vez mais países a querer institucionalizá-la -, é algo que tem que ser bem explicado, bem enquadrado, mas que para nós é vital para a sobrevivência do livro e da indústria do livro.E relativamente à dedução no IRS, que entrou em vigor este ano, da despesa com o livro. Acha que vai ter algum impacto? A medida foi desenhada tal como queriam?Nós propusemos em tempos, e isso faz parte das propostas da APEL, que o valor da compra do livro em si, até um determinado valor máximo, possa ser totalmente dedutível em IRS. Na verdade, o que nós temos é a dedução parcial ou numa percentagem do valor do IVA (15%). É uma pequena parte.E para um limite de 250 euros que enquadra outro tipo de despesas...A nossa proposta passaria por isolar o valor para a dedução da compra de livros, no âmbito de medidas públicas para passar a mensagem da importância do livro para a nossa sociedade. A taxa de IVA aplicada ao livro já é de 6%, é um reconhecimento da diferença do livro, mas a APEL não deixa de dizer, como outras congéneres, que deveríamos avaliar a possibilidade do IVA ser zero para o livro. Sei que é complexo, sei que haverá outros setores que dirão 'mas o pão é importante, e o leite também'... De um ponto de vista político, esta medida que nós defendemos de IVA zero sobre o livro é mais difícil de alcançar. Mas, não sendo possível, acho que deveríamos ser capazes de deduzir em IRS o valor integral da compra de um livro e ser uma categoria à parte.E há abertura para isso, por parte do Governo, nos próximos orçamentos do Estado?Até agora não temos nenhum sinal que isso seja possível. Houve este sinal, eu compreendo que as coisas têm de ser gradativas, são passos que estão a ser dados, mas nós deveríamos chegar aqui. Este primeiro sinal pode ter algum impacto nas vendas ou é mais simbólico? É mais simbólico, claramente. Mas nós vivemos de simbolismos também, e eu não quero desvalorizar isso. Mas é, objetivamente, mais simbólico neste momento. Ninguém vai a uma livraria porque sabe que a seguir vai beneficiar de 15% do valor do livro.A Feira do Livro está esgotada em termos de capacidade?Desde 2024 que chegámos aos 350 pavilhões e entendemos que este é o patamar ideal para trabalharmos naquele espaço tão sensível quanto o Parque Eduardo VII. Com estes 350 pavilhões, nós montamos uma feira que, se pudesse estar em linha reta, tinha quase dois quilómetros.Quantos editores e livreiros querem participar e vão ficar de fora? O que eu lhe posso dizer é que relativamente à edição de 2025 houve quatro participantes que saíram por sua própria iniciativa. Ou seja, não se inscreveram, disseram que não queriam estar em 2026. E nós trouxemos cinco novos participantes e saíram seis por diferentes razões. Ou seja, em termos líquidos, em 2026 vamos ter menos cinco participantes do que tivemos em 2025.E houve três recusas, incluindo a DNL Convergência...Não estamos a falar de recusas, estamos a falar da não aceitação das inscrições. Na verdade, houve três que saíram porque a oferta principal não era o livro e custou-nos muito, mas na verdade eram jogos, gaming, acima de tudo.Mas já participaram noutras edições?Já participaram noutras edições, sim.Então houve um apertar dos critérios?Apertámos os critérios este ano quer no que diz respeito à oferta centrada no livro, quer no número de pavilhões aos participantes que, por exemplo, só tinham oferta em livro importado, livro estrangeiro. Esta feira é uma feira da indústria do livro nacional que promove o livro em língua portuguesa. Não escamoteamos que o livro importado tem vindo a crescer, desempenha o seu papel, é muito importante no desenvolvimento da proficiência em língua estrangeira, mas na gestão de 350 pavilhões nós temos, de alguma forma, de gerir a presença do livro importado versus o livro nacional.Porque decidiram fazê-lo nesta edição?Se temos sete mil novos títulos publicados em Portugal, admitindo que um pavilhão bem apresentado, bem composto, bem organizado, pode levar 250 títulos, significa que a cada ano que passa deveríamos ter mais 30 novos pavilhões na feira. Seria insustentável mantermos a feira no Parque Eduardo VII. Temos que gerir estes equilíbrios todos.A feira nunca sairá do Parque Eduardo VII?Por nós, não. Aquele espaço é um espaço da Câmara Municipal de Lisboa. É o sítio ideal, do ponto de vista das acessibilidades. Temos que gerir a estrutura física do Parque, que tem uma inclinação de 6% a 7% e que nos coloca muitos problemas do ponto de vista logístico e também coloca muitos problemas a pessoas com limitações físicas e de mobilidade. Pessoas mais velhas, neste momento, têm dificuldades em ir à feira do livro pela inclinação. Mas por isso nós queremos espaços de repouso, praças para que as pessoas possam sentar-se, estar à sombra, comer, refrescar-se, passar o dia na feira. Essa tem sido a nossa preocupação, gerar aqui equilíbrios.Os grandes grupos editoriais são beneficiados em número de pavilhões?Não é uma crítica sequer justa, porque os grandes grupos, tal como habitualmente se chamam, são compostos por várias chancelas editoriais. Um grupo editorial pode ter nove, dez chancelas. Portanto, quando nós olhamos para a dimensão de um grupo, nós temos que perceber quantas chancelas têm e quantos títulos publicados têm em Portugal. Individualmente, não são as chancelas dos grandes grupos que têm o maior número de pavilhões na feira do livro.A APEL diz que a não aceitação da candidatura da DNL Convergência teve a ver com algumas más práticas, que a empresa nega.Eu prefiro não falar sobre elas publicamente, porque isso foi explicado a quem de direito, nomeadamente ao Pedro Cipriano. Explicámos o que tínhamos a explicar, já dissemos o que tínhamos a dizer, defendendo a posição da APEL e a imagem e marca da APEL, que foi atacada, e eu não posso deixar de defender a APEL.Esta edição da Feira do Livro vai ter mais ou menos editores e livreiros do que em 2025? Estamos a falar de 128 participantes, no ano passado houve 133. Como disse, quatro saíram por decisão própria, houve outros seis que saíram dentro de determinados critérios que a APEL enquanto entidade organizadora aplica e que são públicos, e entraram cinco novos. Portanto, o número de participantes não varia este ano significativamente. Agora, estes 128 participantes arrastam consigo entre 900 a mil chancelas, nós ainda não temos o número fechado. Diversidade editorial não falta numa feira como aquela, que tem entre 900 a mil chancelas representadas, no mínimo 85 mil títulos são ali apresentados, não há falta de diversidade. Essa é outra crítica que eu tenho que rejeitar de uma forma muito, muito liminar. Teremos algumas novidades do ponto de vista da programação, ainda estamos a trabalhar nelas, não quero entrar já no detalhe. E o que pode dizer sobre a evolução das vendas?Nós não temos dados sobre vendas globais da Feira do Livro de Lisboa, porque cada operador tem as suas próprias vendas e, portanto, até de um ponto de vista de confidencialidade de informação, nós não estamos a agregar. Claro que temos uma ordem de grandeza em relação aos livros que se vendem por visitante, porque nós fazemos questionários de satisfação aos visitantes e perguntamos quantos livros compram. Permitem-nos concluir que, na Feira do Livro de 2025, foram vendidos em torno de 700 mil livros. Mas a informação não é direta, é obtida por via indireta.Em relação ao custo de participação na feira para editores e livreiros, tem aumentado?O custo por pavilhão mantém-se desde 2011. Nós não estamos a repercutir o aumento do custo de participação direta na Feira do Livro. Claro que se precisa de uma estrutura de pessoas, e acredito que o valor unitário por hora esteja a ser atualizado em função daquilo que tem sido a atualização dos salários em Portugal. Toda a logística é mais cara, com certeza que sim, porque os transportes estão mais caros. Mas o custo direto de participação na Feira do Livro mantém-se inalterado há muitos anos.Em relação à nova edição da Book 2.0, já pode adiantar algumas das cabeças de cartaz?Vamos esperar mais umas semanas para fechar um pouco mais os nomes. 15 e 16 de setembro no Centro Cultural de Belém, era uma ambição nossa ir para o Centro Cultural de Belém. Não quero desvalorizar todos os sítios por onde passámos, o Museu dos Coches, a Fundação Oriente, a Fundação Champalimaud, fazem parte da nossa história, da nossa comunidade Book 2.0, ajudaram-nos imenso, são espaços fantásticos. Tínhamos a ambição de chegar ao Centro Cultural de Belém pelo arrojo, pela dimensão, vamos ver se somos capazes de levar mil pessoas àquele espaço para falarmos de livros. O Book 2.0 não arrasta consigo a vertente comercial, nem a vertente relacional, que está subjacente à Feira do Livro de Lisboa. O Book 2.0 é um espaço de debate, é um espaço de reflexão, e com o que isto também significa de desafio a nós próprios. Nós levamos ali pessoas que partilham as suas experiências, partilham as suas visões, com as quais nós não concordamos necessariamente e que nos ajudam a pensar a evolução e o futuro do livro e da leitura. Qual é o tema desta quarta edição?No ano passado nós tivemos a Reinvenção das Espécies e este ano vamos ter uma coisa mais a puxar-nos para a nossa realidade. Temos de estar de volta ao essencial, de volta aos livros. E aqui o essencial é também o livro, o livro como um bem essencial, mas também o essencial da nossa vida. Nós temos três grandes dimensões previstas para o Book 2.0 em 2026: a dimensão de aliar a cultura, a educação e a economia. E nós vamos introduzir um outro elemento, e cada vez mais a APEL vai introduzir este novo elemento na relação com o livro e com a leitura, que é a saúde. Ler é também trabalhar as nossas competências cognitivas. Ler é também trabalhar as nossas faculdades mentais. E ler livros físicos, porque o exagero do digital prejudica. Isso foi um dos outputs do Book 2.0 em 2025. É o prejuízo que estes equipamentos provocam em crianças e em crianças de pequena idade. Congratulamo-nos com o movimento que está a acontecer na Europa de limitar a utilização de equipamentos por crianças até 12 anos, 13 anos, E isto foi uma coisa para a qual nós, nos últimos anos, no Book 2.0, já fomos alertando e que agora se está a materializar. Vamos olhar para o futuro da edição relacionada com a Inteligência Artificial, com os novos formatos, é o futuro. E a terceira dimensão é a importância do livro para a defesa das democracias. A importância do livro para a promoção da liberdade de expressão e para a liberdade de publicação, é o grande mote, ainda que depois o claim que nós usamos seja De volta ao essencial, de volta aos livros. .'Arte & Moda'. Um novo olhar sobre a coleção Gulbenkian, que junta obras de arte e alta-costura .Instalações na Culturgest para ver, ler e ouvir conduzidos pela “batuta invisível” de João Penalva