É com o ouro da máscara funerária do Egito (380 - 343 a.C) e o fio dourado do vestido Daijing ou Magnificent Gold (2006) do designer de moda chinês Guo Pei que se inicia a exposição Arte & Moda. Num percurso em “U” uma centena de obras da coleção do Museu Calouste Gulbenkian entram em diálogo visual com 140 peças de vestuário de alta costura de alguns dos mais importantes estilistas mundiais. O ouro das peças de abertura brilha ainda mais com a iluminação ténue e as paredes negras do espaço expositivo. Os olhos param depois na fotografia de casamento de Calouste Sarkis e Nevarte Essayan Gulbenkian, de 1896, pousada sobre uma mesa em carvalho, madeiras exóticas e bronze (1765), atribuída ao mestre Adrien Faizelot-Delorme. Mais imponente, um armário de André-Charles Boulle, de cerca de 1700, em carvalho, madeiras exóticas, tartaruga, bronze, estanho e latão dialoga com duas peças de Hubert de Givenchy: um vestido da coleção outono/inverno de 1990 em cetim, metal dourado, pérolas, malha dourada e madrepérola; e um coordenado de saia e casaco, da mesma coleção, em lã, laminette dourado, metal e pasta de vidro. .A coleção Calouste Gulbenkian integra obras do antigo Egito, arte islâmica, do Renascimento italiano, arte decorativa francesa do século XVIII e grandes mestres da pintura, e agora é possível apreciá-las em diálogo com criações de alta costura dos últimos 150 anos. Em exposição estão peças de vestuário de nomes como Dior, Balenciaga, Yves Saint Laurent, Versace, Jean Paul Gaultier, Vivienne Westwood, Guo Pei ou Alexander McQueen. E também de criadores portugueses, entre eles Alves/Gonçalves, José António Tenente, Maria Gambina, Nuno Gama, Nuno Baltazar ou Storytailers. O projeto teve início há cinco anos pela mão do então diretor do museu, António Filipe Pimentel. “Nasceu da ideia de que o Gulbenkian, estranhamente e ao contrário daquilo que se imagina, era um homem apaixonado por moda. De facto, a moda tinha para ele o mesmo encanto que tinha toda a arte, ou seja, a moda associa o lado estético à confeção e esse saber fazer é fundamental para ele”, diz o historiador de arte, atualmente consultor da Gulbenkian. O colecionador de origem arménia, que residiu em Paris e Londres antes de se instalar em Lisboa, assinou, “por anos algumas das prestigiosas revistas da especialidade”, escreve também Filipe Pimentel num texto no catálogo da exposição, com fotos de Jon Cazenove. . Nestes encontros entre obras de arte e alta costura mostra-se como os motivos e materiais de obras de arte históricas são reinterpretados na moda contemporânea, mas para o curador de Arte & Moda, Eloy Martínez de la Pera Celada, o diálogo não se limita a comparações estéticas, são pretexto para um diálogo intelectual, para “conversas entre épocas, nas quais o estético, o concetual, o emocional e o social se entrelaçam”. “A alta-costura sempre existiu ao longo da história da humanidade. Quando vemos os desenhos nos sarcófagos dos faraós, isso é alta costura. Nefertiti é alta costura. Quando vemos as figuras nos vasos gregos, essas deusas estão vestidas com alta costura. As pinturas e frescos de Florença são alta costura. E quando vemos retratos na National Gallery ou no Museu do Prado, é alta costura. Todas as civilizações tiveram e amaram a moda”, diz o curador.A coleção de Calouste Gulbenkian tem cerca de seis mil peças (mil em exposição permanente), por isso não é de espantar quando Eloy Martínez de la Pera Celada diz ao DN que “a coisa mais difícil foi filtrar as obras de arte do museu, porque fiquei completamente deslumbrado com a beleza das peças que Calouste Gulbenkian conseguiu reunir. A primeira tarefa difícil foi mesmo selecionar, porque não podia incluir toda a coleção. Procurava peças que contassem uma história por si só, sem precisar de um vestido ao lado. Quando vemos Rubens ou Rembrandt, já são obras lindíssimas, com uma história incrível por trás”. . Uma vez escolhidas as obras de arte, juntar as peças de vestuário foi quase natural. “Nos últimos 20 anos tenho feito exposições de moda e já sabia que algumas peças que tinha visto antes seriam combinações perfeitas para este tipo de pinturas. Por isso, na minha mente estava muito claro que queria um vestido de Christian Lacroix a dialogar com um Rembrandt. Sabia que queria Alexander McQueen em diálogo com Gossaert , nesta A Virgem e o Menino. Também sabia que queria Mariano Fortuny com Vittore Carpaccio. No final, tudo se torna claro - acontece algo quase mágico.”Inicialmente foram selecionados 350 vestidos e a outra dificuldade foi reduzi-los para 140. Nenhuma peça lhe foi negada, sublinha o curador. Os vestidos vieram da várias coleções, entre as quais da Givenchy, MUDE - Museu do Design, Museu Nacional do Traje, Museo de Traje de Madrid, Fundação Azzedine Alaïa, Maison Guo Pei, entre outras. “Aliás, alguns empréstimos foram bastante difíceis de trazer para Lisboa. Algumas peças vieram da China e houve até uma peça de Charles Frederick Worth que, nos próximos meses, deveria estar no escuro - “a dormir”, como dizemos no mundo da arte - depois de ter sido exposta no Grand Palais, em Paris. No entanto, o Museo del Traje disse que esta exposição era tão importante que queriam participar”. . Arte & Moda é uma exposição única, sublinha Eloy Martínez de la Pera Celada. Para o curador, quem visitar esta mostra vai ver “a melhor exposição de arte e moda alguma vez feita até agora”, porque permitiu reunir obras da qualidade de Rembrandt, Rubens, Manet ou Degas. E não poupa adjetivos, considerando que esta exposição é “a Liga dos Campões da arte e moda”. . “Nunca, em nenhum museu do mundo, foi possível fazer fotografias para um catálogo com a obra de arte e o vestido ao mesmo tempo. Este é o único catálogo na história das exposições de moda em que todas as imagens foram feitas nas reservas de um museu. Pela primeira vez, grandes obras-primas foram fotografadas juntamente com alta costura .” . O curador também vê esta mostra como uma homenagem ao casal de colecionadores. “Porque adoravam coisas belas - e não eram superficiais. Quando virem o catálogo, vão perceber que viviam rodeados destas peças maravilhosas em casa. Um pouco barroco, às vezes até excessivo, mas queriam tapetes bonitos, candeeiros bonitos, um piano bonito, tapeçarias bonitas. Colecionavam revistas e livros de moda. Não eram colecionadores de fachada; eram pessoas que realmente amavam a moda.” António Filipe Pimentel diz que é uma exposição irrepetível. “Foi um esforço gigante montar esta exposição que não tem tradição na casa nem será repetível, é um processo único”, afirma. E isso também porque beneficiou do facto de o museu estar encerrado para obras, com reabertura prevista para o verão. “A exposição faz a ponte entre o museu fechado e o museu que vai abrir a seguir.” .Diogo Pimentão desenha com o corpo e explora a destruição criativa, diversidade e força .Anna Maria Maiolino no MAAT: Esculturas vivas feitas de pequenos gestos