Os ovos vão na palma da mão de Diogo Pimentão que, em passos lentos, os coloca nas pequenas prateleiras na parede. Foi assim que começou a performance com que o artista português abriu a exposição Força Transitória das Coisas, na sala de Desenho do Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, no dia 26 março. Diogo Pimentão e o bailarino francês Emmanuel Eggermont movimentam-se de forma demorada e concentrada simulando gestos que o artista faz quando trabalha no seu atelier. Ao longo da performance, as peças da exposição são colocadas nos seus lugares finais e há também a criação de uma nova obra. Artista e bailarino circulam sobre uma tela branca no chão, com riscas negras em grafite. O contacto do corpo com o grafite ‘borra’ as linhas criando manchas. No final, esse suporte é levantado para a parede. “Tal como nos ovos, que são 12, há a questão do ortonormado, uma coisa pré-definida, muito certinha, quase como linhas de piscina que a pessoa atravessa e que depois se desconectam, se partem, se transformam”, descreve o artista. . Para Diogo Pimentão, isto é tudo desenho. Ou “desenho expandido”, como diz Leonor Nazaré, a curadora desta mostra que abriu ao público no dia 28 de março e que pode ser visitada até 14 de setembro. “O Diogo trabalha com performance, desenho, escultura, espaço arquitetónico, todas estas coisas estão sempre presentes, porque há aquilo que se chama uma ideia expandida de desenho, ou seja, um desenho que avança para o espaço, que pode ter vários suportes, várias configurações. A partir daí, a performance com o preto e branco do grafite, sobre os suportes e no espaço, torna-se muito facilmente legível”, diz a curadora. .Diogo Pimentão explica como nasceu esta colaboração com o coreógrafo e bailarino francês. “Fui ver uma performance do Emmanuel Eggermont, que tinha um trabalho também muito dentro da precisão, da questão da linha, do movimento circular, do corpo, do peso. E pensei: 'que estranho, é muito o trabalho que eu faço no atelier, é muito trabalho de desenho. É desenho no espaço'. Na primeira peça que nós fizemos eu só levei movimentos de manipular coisas que eu não tinha na mão, que eram os cinco movimentos que eu fazia no ateliê, de dobrar folhas.” .Nesta 'dança', considera o artista, “há uma interação, sair do desenho, entrar no desenho, manipular o desenho, ver onde é que o desenho depois nos leva, e o desenho muitas vezes leva-nos para o chão, nestas formas mais circulares, e depois leva-nos mais para o espaço também”. A performance foi gravada e editada pelo artista criando uma nova peça para a exposição. “O vídeo é uma edição não da integralidade da performance, mas partes da performance que depois se juntam para criar um último momento que deixa uma memória do que aconteceu. O meu trabalho tem muito isso, uma peça termina e o seu resíduo é o próximo material.” Para Diogo Pimentão, é como se fosse “uma folha em branco e um material onde eu posso começar, de uma certa forma, a desenhar, mas neste caso com o vídeo. Pegar novamente nessas linhas, nesse espaço, e nesses corpos que se arrastam - que já não é o meu corpo, embora seja a representação do meu corpo ali - que é uma linha que traz um traço. É uma ponta, como a ponta de um lápis que faz uma marca. Então eu vou desenhar com essas linhas”. . As obras de Diogo Pimentão apresentadas nesta exposição são inéditas e o trabalho começou num escala mais micro, com os 12 ovos. “O ponto de partida, sendo uma exposição para uma instituição, e sabendo que tenho este espaço com este pé direito tão grande, não começou tão monumental como pode estar a aparecer agora aqui. Foi muito no micro. Foi a partir de umas cascas de ovos de pássaros que eu encontrei na natureza há uns anos. E pensei: um pássaro acabou de voar ou de nascer. Mas não, se calhar um predador veio e tirou essa vida. Então surgiu-me essa dicotomia, essa ideia da vida e também do desaparecimento, do trágico.”O artista levaria esse ovo para casa e fez uma peça com ele. Ficou a vontade de retomar esse trabalho que agora concretizou. “Então comecei a fazer ovos em cimento para esta exposição. Ou seja, comecei muito pequeno e fui alargando, alargando o espaço até uma peça que tem cinco metros de comprimento.” . Os ovos são feitos de várias camadas, gesso, madeira e cimento, e com eles o artista explora as questões da fragilidade – porque apesar de ser cimento é uma película muito fina que se parte com facilidade – e da esperança. “É um ovo que se parte, mas quando se espreita lá para dentro há um outro ovo. Muitas vezes o segundo ovo está partido e aberto também e há um terceiro ovo. Portanto, há destruição mas também esperança, que eu acho que acaba por ecoar bastante com os tempos que vivemos e com as imagens infelizes que temos visto na televisão”.Os ovos são todos diferentes e apontam também para a diversidade. “Que está um pouco a perder-se. Não é uma peça política, mas tem muito diretamente essa questão, até mesmo nas placas maiores que eu tenho cá, que fazem esta instalação. Esses desenhos são monocromos vistos de longe, mas quando nos aproximamos, são todos diferentes. Todos têm marca própria, todos têm a sua ranhura, quase como os ovos”, diz o artista apontando para o conjunto de quadros feitos de papel e cobertos de grafite, material que os torna brilhantes ao ponto de parecerem de metal, tal como as barras longas que também se veem nesta exposição. Sugerem peso, mas na verdade são leves como o papel.O papel e o grafite são os materiais de eleição de Diogo Pimentão. O papel já ele conhece muito bem, sabendo até onde pode ir na força que faz sobre ele com o grafite para não o rasgar. O artista explora o tema da força com os ovos de cimento que são delicados, e as peças em papel que se revelam mais resistentes. “Aqui há essa inversão. O papel, que é frágil, traz essa ideia de estrutura e de força, e as peças de cimento são as mais frágeis.” . A atração pelo grafite vem da sua “simplicidade”. “É um material no qual eu saio desta performance todo sujo, cheio dele, impregnado, com uma linha da testa ao queixo, e esse material é fácil de tirar também, mas há um lado mineral, há um lado quase de conexão com o mundo. É um material natural e é misturado com barro. As pessoas não sabem, mas o lápis que temos em casa são uma mistura do próprio grafite com barro, e depois tem mais gordura ou menos gordura, e é daí marcar mais ou menos, mais escuro ou menos escuro.” .Numa outra peça pendurada na parede, Diogo Simão foi mexendo em cimento enquanto ele ainda estava fresco, cobrindo-o depois com grafite. “Nós quando falamos em cimento pensamos em estruturas sólidas. Mas não, o cimento é uma estrutura maleável, eu até gosto de lhe chamar matéria cinzenta, como um cérebro, que também consideramos como sendo maleável. Eu vejo o cimento como líquido, porque é uma ideia que se adapta, o arquiteto faz os moldes e põe neles o cimento que depois se cristaliza nessa ideia.” Temporalidade, tatilidade e movimento do corpo entram em jogo na manipulação deste material. .Anna Maria Maiolino no MAAT: Esculturas vivas feitas de pequenos gestos.Bruno Zhu no CAM. Uma exposição cheia de "momentos insólitos" para acordar o visitante