Obra 'Arcada' (2000) na galeria da Culturgest.
Obra 'Arcada' (2000) na galeria da Culturgest.Foto: Paulo Spranger

Instalações na Culturgest para ver, ler e ouvir conduzidos pela “batuta invisível” de João Penalva

'João Penalva – Personagens e Intérpretes' mostra 12 obras que ocupam as três galerias da Culturgest. Retrospetiva do artista inclui ainda a reposição d’A Coleção Ormsson, no Pavilhão Branco das Galerias Municipais de Lisboa, mostra apresentada naquele mesmo espaço em 1997. As exposições abrem ao público a 18 de abril e nos dias 8 e 9 de junho a Cinemateca apresenta cinco filmes do artista.
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Em meados de 1990, João Penalva, a viver e residir em Londres, começou a fazer peças instalativas de grande escala misturando vários materiais e objetos, como fotografias, vídeos, diapositivos, desenhos, apontamentos, cartas, documentos e outros elementos. O ponto de partida de cada obra é diferente, mas em comum estas peças têm um processo de pesquisa, devidamente documentado, que em muitos casos foi incorporado na própria instalação. O desafio para o espetador é encontrar um sentido para o que está exposto, e para isso precisa de tempo para percorrer a obra nos seus detalhes. Já a pensar nisso, a Culturgest permite a quem comprar bilhete para João Penalva – Personagens e Intérpretes voltar as vezes que quiser à exposição quando ela abrir portas, a 18 de abril, e até ao seu encerramento, no dia 12 de julho.

O DN percorreu a exposição na Culturgest numa visita de imprensa que contou com a presença de João Penalva e do curador, Bruno Marchand. Teve início em Viúva Simone (Entr’acte, 20 anos), de 1996 , pertencente à Coleção de Arte Contemporânea do Estado. Veem-se nas paredes páginas de apontamentos, textos manuscritos, pautas musicais, fotografias, vídeos, chão de dança, barras de ballet, projetores... Há uma história, e tem a ver com o passado de bailarino de João Penalva, que começou a carreira na dança, tendo feito parte da companhia da coreógrafa alemã Pina Bausch – “Eu devo muito à Pina Bausch, porque foi quando eu estava na companhia que eu comecei a pensar que seria mais feliz se fosse um artista visual, porque eu aborreci-me muito na companhia da Pina Bausch, que estava muito no princípio”, diz o artista. Viúva Simone foi criada 20 anos depois de João Penalva ter mudado de rumo para as artes visuais.

João Penalva na barra de ballet da sua instalação 'Viúva Simone (Entr’acte, 20 anos)', de 1996.
João Penalva na barra de ballet da sua instalação 'Viúva Simone (Entr’acte, 20 anos)', de 1996.Foto: Paulo Spranger

O conjunto de objetos dispostos no espaço desperta necessariamente a curiosidade do visitante. Mas a narrativa que cada um vai construir pode não coincidir com a do artista, nem é esse o propósito. “Eu proporciono liberdade aos espetadores, em que é o espetador que faz a narrativa. Não é tão importante que percebam aquilo que eu queria fazer, mas que percebam que há essa possibilidade de eles próprios, de elas próprias, fazerem uma narrativa a partir daquilo que têm à frente”, diz João Penalva ao DN.

Para conseguir criar uma história, a sua história, a visita não pode ser breve. “Pede muito tempo e muita atenção. E, por isso, comprando um bilhete para ver a exposição uma vez, as pessoas podem voltar as vezes que quiserem. É muito, muito simpático da parte do Cultugest ter facilitado isso”, diz o artista.

A investigação envolvida na criação de muitas das instalações exibidas é, para João Penalva, a vertente mais interessante do processo de criação. Por exemplo, a instalação Viúva Simone (Entr’acte, 20 anos) começou com a vontade do artista de interpretar a personagem da Viúva Simone do bailado La Fille Mal Gardée de Frederick Ashton. O processo conduziu-o às questões éticas e legais envolvidas na interpretação e nos direitos de autor de um bailado.

Detalhe de 'Viúva Simone  (Entr’acte, 20 anos)', de 1996.
Detalhe de 'Viúva Simone (Entr’acte, 20 anos)', de 1996. Foto: Paulo Spranger

“Esse trabalho é a parte mais gratificante. Por mais difícil que seja, é onde se encontram as coisas que nós não sabemos que vamos encontrar. E, às vezes, é muito surpreendente, às vezes é muito desapontante, mas tudo isso é um processo. Por isso é que eu faço do processo uma grande parte daquilo que é a experiência do trabalho. A maior parte das vezes percebe-se como é que o trabalho foi construído, porque é parte da estrutura do trabalho.”

Além desta primeira instalação, na Galeria 1 da Culturgest exibem-se LM44/EB61(1995), Petit Verre (2007), Arcada (2000), Light Beam (2007) e Wallenda (2007-2008). Na Galeria 2 estão as obras Stanley (2018), Pavlina e Dr. Erlenmeyer (2010), Men Asleep (2012), On Stage a Fig Tree (2009), O Cabelo do Sr. Ruskin (1997) e Personagem e Intérprete (1998). Na Galeria 3 está a peça Livros de Artista (2007-2009).

“Ver estes trabalhos todos juntos é muito interessante para mim. Eu já tinha visto vários juntos em exposições também grandes, mas esta é a maior exposição com instalações. E isso é muito raro, porque é preciso muito espaço e muito investimento da parte de muitas pessoas. Montar tudo isto não é fácil, demora muito tempo e custa dinheiro. E tem sido um grande prazer ver estes trabalhos todos juntos”, diz João Penalva.

Instalação 'LM44/EB61' (1995).
Instalação 'LM44/EB61' (1995). Foto: Paulo Spranger

O artista revela que foi dada bastante atenção ao itinerário da exposição. “Foi muito importante termos percebido que havia um percurso que tinha que ser elaborado, que tinha que haver algum cuidado nessa elaboração do percurso.” Bruno Marchand explica que a estratégia foi ir “doseando” as obras mais complexas “com peças que exigem menos envolvimento ativo do espetador”. É o caso de Petit Verre (2007), Light Beam (2007) e Men Asleep (2012).

O curador sublinha que a exposição centra-se nas instalações de João Penalva, embora o seu trabalho seja mais abrangente, incluindo pintura, fotografia e filme. “É sobre essa parte da prática do João que nós nos estamos a centrar. Fica, obviamente, muita coisa de fora, e isso é importante que se perceba”.

'Arcada' (2000)
'Arcada' (2000)Paulo Spranger

Bruno Marchand considera que estas instalações do artista configuram “um modelo singular no panorama nacional” e que foram determinantes também para a internacionalização do artista. “O João fez uma carreira internacional, com variadíssimas exposições em museus e em centros de arte europeus, mas também asiáticos, e esta parte da sua obra foi fundamental para o afirmar como uma voz muito singular no panorama internacional. Aquilo que decidimos fazer, e também por proposta do João, foi voltar a ver estas grandes instalações”, diz o curador.

'Wallenda' ((2007-2008)
'Wallenda' ((2007-2008)Foto: Paulo Spranger

Bruno Marchand destaca como estas obras “nos pedem um determinado tipo de atenção, que não tem par, e que passa por uma solicitação constante através de diferentes tipos de estímulos. Na mesma peça nós podemos estar a ler, a ver, a ouvir e necessariamente estamos a construir uma narrativa que é da nossa responsabilidade, a partir dos inputs, da informação, que o João nos vai oferecer”. É tudo intencional: “Há uma espécie de uma batuta pela qual nós vamos sendo conduzidos, uma batuta invisível que o João criou e estabeleceu em cada um destes territórios e sob o passo da qual nós vamos desvendando cada uma das peças. Nada foi deixado ao caso.”

Pavilhão Branco e cinemateca

A par desta exposição, João Penalva terá outra mostra no Pavilhão Branco das Galeria Municipais de Lisboa, entre 18 de abril e 28 de junho. O espaço na Culturgest é vasto, mas, adianta o curador, “achámos que não era suficiente e ainda desafiámos o João a repor no Pavilhão Branco uma obra incrível que foi apresentada pela primeira vez em 1997 e que se chama A Coleção Ormsson. Nesse espaço estão exatamente as mesmas peças mostradas há quase trinta anos, e procurou-se replicar a disposição da altura. O artista reparou que uma das fachadas que antes era envidraçada agora é uma parede. Decidiu desenhar nela a forma das janelas com fio.

'On Stage a Fig Tree' (2009).
'On Stage a Fig Tree' (2009).Foto: Paulo Spranger

A Cinemateca também foi convidada a participar nesta retrospetiva de João Penalva exibindo cinco dos seus filmes. No dia 8 de junho projetará The Roar of Lions (2006, 37 minutos), 336 Pek (1998, 60 minutos), e The White Nightingale (2005, 42 minutos). No dia 9 de junho será possível ver Kitsune (2001, 55 minutos) e A Harangpzó (2005, 58 minutos).

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