Edgar Morin tinha 102 anos na última vez que visitou Lisboa. O auditório do Museu do Oriente encheu para o ouvir, e antes disso, sinal da imensa admiração que gerava em Portugal, o presidente Marcelo Rebelo de Sousa chamou-o a Belém e condecorou-o com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique. Foi em 2023.Agora, quando se soube da morte do filósofo francês, aos 104 anos, o Presidente António José Seguro destacou o “grande pensador” e a “relação especial” com Portugal. “Veio pela primeira vez nos anos 60, a convite de António Alçada Baptista e da revista O Tempo e o Modo, e regressou ao longo de várias décadas. Recebeu distinções académicas em universidades portuguesas, apresentou obras e chamou a Portugal um país extraordinário, tão profundas eram as suas ligações ao mundo da língua portuguesa. Portugal reconhece nele um mestre do pensamento e da liberdade”, sublinhou o Presidente da República numa nota no site oficial.A amizade com Alçada Baptista foi, aliás, recentemente relembrada no livro O Esplendor das Amizades - A Experiência Portuguesa de Edgar Morin, coordenado por Guilherme d’Oliveira Martins, ele próprio um dos amigos portugueses do autor de O Método e outros livros influentes como Os 7 Saberes Necessários à Educação do Futuro. Numa entrevista já em 2026, a propósito exatamente do tal “esplendor das amizades”, Oliveira Martins contou que a relação de António Alçada Baptista com Edgar Morin começa graças a uma recomendação da revista Esprit para uma conferência em Lisboa. E, acrescentou, acaba por ser Alçada Baptista que um dia apresenta Mário Soares a Morin.Voltei a pedir a Oliveira Martins o seu testemunho dessa relação de Morin com Portugal. “Tudo começou com O Tempo e o Modo, na relação de António Alçada com Jean-Marie Domenach, então diretor da revista Esprit. Indo a Paris foi apresentado a Edgar Morin, figura respeitadíssima do pensamento. A conversa foi um coup de foudre. A amizade tornou-se sentida e profunda. Há um fascínio evidente pela personalidade e pelas ideias de Morin. A partir daí o pensador passou a acompanhar o caso português como processo de sementeira de ideias e de diálogo cultural. Reconhecerá mais tarde que a influência de O Tempo e o Modo entre os jovens milicianos em África tornou-se fundamental. As ideias de diálogo, de complexidade, de pluralismo vingaram. Ernesto Melo Antunes ou António Lobo Antunes são bons exemplos de leitores desse tempo. Este é um ponto que não tem sido muito referido e que Edgar Morin considerou sempre muito importante na Revolução portuguesa. Alçada apresentou Edgar Morin a Mário Soares e foi outra amizade que ficará para sempre. Trata-se de um caso muito especial de construção da democracia - a revolução, o compromisso do MFA de implantar instituições civis, o compromisso assumido pelos partidos e pela sociedade, o primado da liberdade. Com Helena Vaz da Silva será referência fundamental na revista Raiz e Utopia. O Esplendor das Amizades foi um título dado por Edgar Morin, que não desejou partir antes de fazer esta homenagem. A influência na sociedade portuguesa de Morin chega assim ainda ao mundo pedagógico com António Oliveira Cruz no Instituto Piaget ou com Teresa Ambrósio presidente do Conselho Nacional de Educação. Jorge Sampaio agraciou-o com a Grã-Cruz da Ordem de Santiago da Espada e Marcelo Rebelo de Sousa com Grã-Cruz do Infante D. Henrique. O atual perfil do aluno à saída da escolaridade obrigatória baseia-se no pensamento de Morin. Como disse repetidamente entre nós, teve em Portugal a demonstração de que uma sementeira de ideias tem resultados positivos”.Morin, que, portanto, conheceu Portugal ainda durante o Estado Novo, não podia deixar de se entusiasmar com a Revolução dos Cravos. E a partir de abril de 1974 vai estar ao lado de Soares, o líder socialista português, na defesa da democracia. Ele que tinha sido comunista, mas afastara-se por causa da questão da liberdade, vai tomar uma posição bem clara sobre o tal “país extraordinário” que tantas vezes referiu.Numa entrevista que lhe fiz durante essa última visita a Portugal, recordou as amizades portuguesas, desde logo Alçada Baptista, e o seu compromisso com o amigo Soares: “Oh, tive aqui tantos amigos! Venho a Portugal desde 1960, participei na revista O Tempo e o Modo, que tinha problemas com a censura, tive caros amigos, que infelizmente já morreram. António Alçada Baptista, Helena Vaz da Silva, Mário Soares, que conheci quando ele estava no exílio em França. E depois, quando houve a Revolução dos Cravos e ele teve dificuldades porque houve uma tentativa comunista de se apoderar do poder, eu fiz um grande artigo para defender Mário Soares em França. Porque muitos em França diziam que os portugueses não precisavam de liberdade, precisavam de pão. E eu disse que se tem de ter pão e tem de se ter liberdade”.A amizade com Mário Soares estendia-se ao filho, João Soares, que em 2022, aquando da invasão russa da Ucrânia, fez a ponte entre o filósofo francês e o DN para publicação de um artigo sobre a guerra estar de regresso à Europa.Nascido em 1921, em Paris, Morin interrompeu os estudos universitários para se juntar à resistência francesa, lutando contra os nazis. De uma família judaica sefardita, os Nahoum, adotou o nome Morin nesse combate durante a Segunda Guerra Mundial. Em Vidal e os Seus, editado em Portugal pelas edições Piaget como tanta da sua obra, Morin relata a vida do pai, um judeu de Salónica que escolheu a França como pátria. Um livro notável.António Pedro Pita, professor catedrático de Filosofia da Universidade de Coimbra, conta-se entre os muitos admiradores portugueses de Morin, mas tem também um episódio passado com o filósofo francês no final dos anos 1980. Em Coimbra. Onde Morin esteve uns dias. “Considero Edgar Morin uma figura excecional pelo itinerário político, social, cultural, mas de matriz filosófica, absolutamente impressionante, quer na sua extensão, quer na sua coerência, desde a participação na resistência antifascista e antinazi dos anos 40 até à atualidade. E depois, de um ponto de vista mais estritamente filosófico, e tal como ainda há poucos dias sublinhava o professor José Gil, Edgar Morin foi um dos muito raros filósofos que foi capaz de unificar, digamos assim, um pensamento próprio. Aquilo que em sentido estrito podemos falar de ser uma filosofia, no sentido em que falamos de uma filosofia dos grandes filósofos, uma filosofia de Kant, uma filosofia de Espinosa. Foi um muito raro exemplo de alguém que se entregou à construção de uma filosofia, e o grande referencial teórico é a sua obra monumental O Método, em vários volumes, e que todos nós conhecemos ligado à ideia da complexidade, da epistemologia complexa”.Ora, aquele a quem António Pedro Pita chama “o filósofo da complexidade”, veio em 1988 a Coimbra, a convite da Associação de Professores de Filosofia. “Éramos todos razoavelmente jovens e razoavelmente inexperientes, mas no programa de atividades havia não só o inevitável encontro anual voltado para um tema essencial, mas procurávamos também, para que a coisa não fosse só a história da filosofia, ter com alguma regularidade a presença de um filósofo que estivesse em plena atividade. Isto é, captar as tendências filosóficas nas condições do seu desenvolvimento. E um dos primeiros que veio à cabeça de toda a gente foi, claro, Edgar Morin, que tinha começado a publicar no final dos anos 70 essa obra que eu já referi, O Método, que estava lançado com essa ideia da complexidade e da epistemologia complexa”, conta. “Tínhamos um modelo para esse encontro, e achámos que Edgar Morin era alguém por quem deveríamos começar. A noção da atividade era muito simples: eram dois dias, um dia em que haveria uma apresentação por parte do filósofo, depois havia uma interpelação por parte de duas ou três figuras que nós pensaríamos que pudessem pegar criticamente nas obras do filósofo, qualquer que ele fosse, depois haveria um momento de debate mais alargado, e no dia seguinte, toda a manhã, o filósofo convidado teria duas, três horas para responder com consistência às interpelações propostas. Beneficiámos de uma colaboração muito ativa da Alliance Française em Coimbra nessa altura, e o contacto com Edgar Morin acabou por se revelar relativamente simples. Aparece-nos uma figura irradiante de simpatia, de disponibilidade, e aqui passou três ou quatro dias, dois dos quais foram de trabalho intenso”, acrescenta António Pedro Pita. E a história continua: “Isto foi há quase 40 anos e nós convidámos três personalidades que não tinham então a notoriedade que depois vieram a adquirir, para serem os interpelantes. Uma dessas personalidades foi o professor Viriato Soromenho-Marques, que era então um jovem filósofo a maturar o seu próprio pensamento, outra foi o professor Boaventura Sousa Santos, e ainda o professor Carlos Fiolhais”.Em França, Morin tinha também amigos portugueses, como Isabelle de Oliveira, presidente do Institut du Monde Lusophone. Foi, aliás, numa apresentação do livro da professora luso-francesa O Devir da Lusofonia, no Porto, em 2019, que Morin voltou à tese do país extraordinário: “Portugal é um país extraordinário, que é atlântico e mediterrâneo ao mesmo tempo, ibérico e com ligação ao resto do planeta, com uma vitalidade e convivialidade e cordialidade extraordinária”.Amiga de Morin e da mulher deste, a socióloga franco-marroquina Sabah Abouessalam, Isabelle de Oliveira esteve com ele no Museu do Oriente quando deu a palestra “O Atlântico - A Nova Carta do Humanismo”. Sobre o amigo que partiu no dia 29 de maio, disse agora: “o seu pensamento recorda-nos que os grandes desafios da humanidade não podem ser resolvidos por visões simplistas. Precisamos de aprender a ligar conhecimentos, culturas e experiências. Precisamos de reconhecer que tudo está interligado. Mas talvez a maior lição de Edgar Morin seja a sua profunda confiança na condição humana. Mesmo diante da incerteza, ele convida-nos a continuar a procurar sentido, solidariedade e fraternidade. A sua voz serena lembra-nos que a verdadeira sabedoria não está em possuir todas as respostas, mas em cultivar perguntas mais profundas.”Vinho da Madeira e queijo de Serpa agradavam muito a Morin, como tantas outras coisas portuguesas, contou numa crónica no DN, publicada no sábado, Manuel José Guerreiro, que foi quem em 2023, juntamente com Isabelle de Oliveira, deu o braço para ajudar o filósofo a subir ao palco do auditório do Museu do Oriente (Morin fez depois questão de falar de pé, mais de meia hora). Organizador da conferência, o presidente da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Torres Vedras convidou Morin para um passeio de barco no Tejo e ouviu o amigo dizer que talvez fosse a última vez no país. “Gostava muito de Portugal”, sublinha Manuel José Guerreiro, que relembrou ainda como “o último dos pensadores universais” foi cativante na conferência que estava ligada ao aniversário da CPLP.Quando se despediu no final da entrevista que lhe fiz, depois de um segundo evento público em Lisboa, Morin disse que ia jantar a uma casa de fados. “O poder da língua e o futuro da humanidade” foi o título dessa sessão na Sala de Atos do Instituto Superior de Agronomia organizada por João Pestana Dias, juntamente com o Institut du Monde Lusophone.Muita da obra de Morin está editada em português, e as edições Piaget destacam-se, de facto, pela quantidade de títulos. Quando se tornou centenário, publicou Lições de um século de vida (novamente a Piaget). Em 2025, foi publicado Lições da História (pela Crítica), um aparentemente pequeno livro de um grande pensador, que deixou um legado.No Le Monde, o título da notícia da morte descrevia Morin como “sociólogo do tempo presente e agitador de ideias”. Esteve certamente atento aos momentos portugueses e agitou as ideias por cá..Morreu o filósofo Edgar Morin