Na sua infinita complexidade, os factos políticos do mundo em que vivemos, para mais perversamente “ilustrados” pela sua quotidiana teatralização televisiva, têm gerado algum cinema que tenta escapar às armadilhas mediáticas do politicamente correto. Na Europa, sem dúvida, mas atravessando fronteiras geográficas e culturais. Exemplo maior será o Megalopolis, de Francis Ford Coppola, que não por acaso se apresenta como uma “fábula”. Disco Boy, primeira longa-metragem de ficção do italiano Giacomo Abbruzzese, a partir de hoje nas salas portuguesas, talvez se possa inscrever na mesma família, ou melhor, na mesma sensibilidade cinéfila.Estamos, de facto, perante uma personagem e uma situação que poderiam esgotar-se num inventário gratuito de “temas” fraturantes, hoje em dia comuns a muitos filmes (livros, peças de teatro, etc.) que se limitam a reproduzir inventários desse género, de modo a garantir uma fútil exaltação mediática. Esta é a odisseia de Aleksei (Franz Rogowski) que, supostamente para assistir a um jogo de futebol, foge do seu país, Bielorrúsia, para, em França, inscrevendo-se na Legião Francesa, tentar obter os papéis que lhe darão uma nova identidade, eventualmente mais segura. Dito de outro modo: Aleksei tem tanto de personagem realista como de figura angelical no interior de uma conjuntura que ameaça destruir a sua magra utopia. Abbruzzese está longe de resistir em absoluto às facilidades narrativas de um simbolismo esquemático que se manifesta, sobretudo, no paralelismo da história de Aleksei com a saga do guerrilheiro Jomo (Morr Ndiaye), combatendo os poderes das multinacionais no seu país, a Nigéria. Seja como for, Disco Boy consegue um cruzamento sugestivo de ambientes, entre o realismo mais cru e o devaneio metafórico, em grande parte garantido por duas componentes especialmente elaboradas: a sensação de assombramento que contamina a luz e as cores da direção fotográfica de Hélène Louvart e o paradoxal artifício da música eletrónica de Vitalic - as suas peculiaridades terão justificado o Urso de Prata de melhor contribuição artística obtido no Festival de Berlim (2023).Revelado entre nós na Festa do Cinema Italiano do passado mês de abril (foi distinguido com o prémio de melhor filme), o trabalho de Abbruzzese é herdeiro de uma genuína tradição social e política que sempre marcou a produção italiana, com especial destaque para as décadas de 1960/70, pontuada por talentosos cineastas “secundários” como Dino Risi, Mario Monicelli ou Luigi Comencini. Atualmente, Nanni Moretti, mesmo quando filma o seu próprio envelhecimento (lembremos O Sol do Futuro, também de 2023), continua a ser a referência nuclear dessa riquíssima herança.