"Capitão, meu capitão”, gritam os alunos, em pé, em cima das mesas da sala de aula, subversivos e confiantes quando o mundo lhes impõe o conformismo e as regras que têm de ser seguidas à risca. É assim que se despedem do professor. Esta cena não traz surpresas a quem viu a versão cinematográfica de 1989 do texto de Tom Schulman intitulado Dead Poets Society, que chegou aos cinemas portugueses como O Clube dos Poetas Mortos. Depois de ter passado por salas nos Estados Unidos e em Paris, estreia esta quinta-feira, 30 de abril, em Lisboa, no palco do Teatro da Trindade, a versão mais próxima do público desta obra imortal – com o título Clube dos Poetas Mortos, sem o artigo –, com Diogo Infante a interpretar o inspirador professor John Keating, que, como lembrou ao DN o ator, “todos gostaríamos de ter tido na nossa vida”, porque nos leva “a sonhar, a aceitarmos a nossa diferença”.Agora com encenação de Hélder Gamboa, a narrativa do Clube dos Poetas Mortos acontece em 1959 no Colégio Welton, nos Estados Unidos, onde um grupo de rapazes descobre a poesia através de um professor que os desafia a ver as coisas a partir de um ângulo diferente, ainda que isso acabe por ter consequências trágicas, porque há uma colisão com as regras instituídas, no colégio e nas famílias dos alunos.“Fui para os bosques porque queria viver com um propósito. Queria viver intensamente e sugar a vida até ao tutano, descartar tudo o que não era vida, para que, ao morrer, não vir a descobrir que não tinha vivido.” Estes versos de Henry David Thoreau, citados pelos rapazes numa gruta nas imediações do colégio, marcam o momento em que dão vida a um clube ao qual pertencera John Keating. Momentos antes, numa aula que os rapazes não esperavam, a personagem interpretada por Diogo Infante, aludindo a um poema de Walt Whitman, profere a frase que completa a ideia do poema de Thoreau: “Carpe diem”, isto é “aproveita o dia”, em latim.“Vocês têm de encontrar a vossa própria voz”, desafia John Keating em determinada altura. Noutro momento, pede aos alunos que, cada um à sua vez, permaneçam uns segundos em pé em cima da mesa do professor. Só quer que vejam as coisas com outra perspetiva.Numa outra aula, onde, através de um manual de poesia é descrito um gráfico que serve o propósito de medir a qualidade de um poema, Keating exige aos alunos que arranquem a página daquele livro. A poesia não é mensurável, sugere o professor, levando os alunos a cultivar o pensamento crítico. Os papéis ficam espalhados pelo chão e os alunos apanham-nos, mas o diretor do colégio, interpretado por Virgílio Castelo, entra na sala nesse exato momento, convencido de que os alunos estão a subverter a aula. Depois, quando vê o professor, conforma-se, mas surge o primeiro aviso de que é perigoso estar a preparar os alunos para serem livres pensadores.“Solto o meu bárbaro aulido sobre os telhados do mundo”, cita mais tarde John Keating, evocando um outro poema de Whitman, encorajando o aluno Todd Anderson – o mais tímido da turma – a soltar um grito. Acaba por criar um poema, de chofre, ali, à frente de todos. Tudo isto perante uma imagem de Walt Whitman, que descrevera como um “velho dentudo”.A austeridade contra o pensamento livre e a dificuldade de mantermos as convicções perante os outros são os temas dominantes, e tudo isto para “fazer com que aqueles jovens trilhassem e fizessem os seus versos para a sua vida”, explica o encenador.Hélder Gamboa revela que o texto ainda o comove, por vários motivos: “Porque queria ter um Keating na minha vida, e mais tarde porque, se calhar, queria ser um Keating, quando dei aulas de teatro.”A encenação trouxe desafios, desde logo porque há vários lugares icónicos associados ao filme, mas estão quase todos presentes numa única sala, dominada por uma imponente biblioteca que é também uma sala de aula. Até a gruta secreta, onde nasce o infame clube, está lá.“Eu não tive nenhuma gruta, mas tinha a praia de Carcavelos”, diz o encenador, estabelecendo uma ligação entre o filme que o marcou e a peça à qual agora dá vida, com paralelismos com a sua vida, porque aqueles momentos, de juventude, eram “prazerosos”, “de verão com os pés na areia, a contar histórias, a cantar”. “Eu vivia de outra forma”, assegura.O grupo de 11 atores, que inclui Diogo Infante e Virgílio Castelo, foi “muito fácil” de encontrar, garante o encenador, depois de um casting.“Foi tão bonito, porque de repente estivemos todos embrenhados neste espetáculo. Quisemos contar esta história da melhor maneira possível. Acho que até agora conseguimos”, diz Hélder Gamboa.Um Óscar que Robin Williams não ganhouNomeado para quatro óscares da academia de cinema norte-americana, O Clube dos Poetas Mortos só ganhou um e não foi o de melhor ator, ainda que Robin Williams, no papel do inspirador professor John Keating, tenha sido nomeado. Tom Schulman, o argumentista que daria vida a filmes como Querida, Eu Encolhi os Miúdos, receberia a única estatueta dourada.Numa conversa com o encenador da peça, Hélder Gamboa, e com o ator Diogo Infante, o DN percebeu que Tom Schulman marcará presença na estreia da peça, em Lisboa, o que cria mais uma camada de nervosismo ao coletivo que dá vida a esta história.Para Diogo Infante, a mensagem do filme “continua a ser necessária num momento em que estamos a viver outras revoluções e outras guerras e em que se advinham retrocessos do ponto de vista das conquistas dos direitos”. Evocando a ideia original do filme que estreou em 1989, Diogo Infante apela a que “as novas gerações possam ouvir estas palavras e perceber que a sua identidade, a sua individualidade não pode, nem deve ser posta em causa por ninguém”.A peça estreia esta quinta-feira, mas, garante Diogo Infante, com 28 mil bilhetes já vendidos para a primeira temporada, até dia 2 de agosto, já só restam lugares com “pouca qualidade”. Neste momento, já estão a ser vendidos bilhetes para setembro, e a peça só estará em exibição até 20 de dezembro, ainda que a expectativa seja de que passará por outros lugares e se mantenha ativa durante dois anos.“A razão pela qual me parece que está a haver uma adesão tão massiva a este espetáculo, ainda sem sequer ter estreado, tem a ver, por um lado, com uma memória afetiva do filme de uma determinada geração, mas também me parece que há uma urgência em experienciarmos coisas físicas ao vivo numa época digital”, descreve o ator..‘Filodemo’, uma comédia de Camões para celebrar o Dia Mundial do Teatro .‘Avó Magnética’, o tributo ao amor e à “ética” que se passa às crianças