Concertos com emojis em vez de aplausos: será este o futuro?

Em direto de suas casas, os músicos continuam a tocar. David Fonseca, Joana Espadinha, Samuel Úria e Cristina Branco contam como tem sido a experiência: a internet leva a música a mais pessoas e permite a interação, mas não é rentável nem tem calor humano.

"Quero ver esses braços no ar!" "Agora é a vossa vez de cantar!" "Todos juntos!" "Boa noite, Lisboa!" "É tão bom estar aqui." Estas são algumas das frases que os músicos não vão poder dizer nos próximos tempos. Com concertos e digressões cancelados devido à pandemia de covid-19, os músicos mudaram-se para a internet: em frente da câmara do computador soltaram-se as vozes, os pianos, as guitarras. Apesar de o livestream não ser propriamente uma novidade e de já muitos músicos terem usado pontualmente a este tipo de ligação com os fãs, nunca tal tinha sido feito assim, em tão larga escala. Chris Martin, Bono, John Legend, Jewell, Miley Cyrus, Christine & the Queens, L Devine, Duplo, Rufus Wainwright, Erykah Badu, Neil Young, Patti Smith, Yo-Yo Ma... é impossível listar todos os músicos que por estes dias nos têm feito companhia online, com vídeos em direto e música, seja só uma canção ou verdadeiros concertos. Também em Portugal, músicos como Pedro Abrunhosa, Paulo Praça, Lika, Fado Bicha, Slimmy, Rita Redshoes com os vizinhos Ricardo Toscano e Bruno Santos e outros têm-se mantido ativos nas redes sociais. O Festival Eu Fico Em Casa, que terminou no domingo, transmitiu 78 atuações - de músicos tão diferentes quanto Boss AC, António Zamnujo e Matias Damásio - e já tem um irmão mais novo, o Play It Safe. Os concertos são tantos que até é difícil para os fãs assistir a tudo.

A imagem é muitas vezes desfocada, o som não é o melhor, mas, do seu telemóvel, o público não parece incomodado. Em vez de aplausos dão-se likes e emojis. Sorrisos e corações povoam o ecrã como quem canta um refrão. A música continua a tocar mas... falta algo aqui, não falta?

"Não é, de todo, a mesma coisa", responde, sem hesitar David Fonseca, um dos músicos que participou no Festival Eu Fico Em Casa. "Um concerto vive da interação com quem o assiste, com a festa de um público que canta em uníssono, tudo isso faz parte da celebração que caracteriza um espetáculo ao vivo. Neste caso, apesar de saber que havia muita gente do outro lado (eram 27 mil a certa altura), o registo é sempre mais caseiro e descontraído, sem grande lugar a interações, mesmo que se respondam a perguntas nos comentários. É uma experiência diferente para quem toca e para quem assiste, mas muito gratificante por sentir que estamos todos juntos de alguma maneira."

A cantora Cristina Branco, que também participou no festival concorda: "É uma sensação nova e desconcertante, para mim pelo menos!". Apesar de tudo, com pontos positivos: "Antes de acontecer pensei que existiria uma certa frieza pelo facto de não sentirmos o calor do público, mas a verdade é que 'ele' esteve lá, na casa de cada um, a participar, a puxar por mim, a emocionar-se com as músicas, com a voz...na verdade, o público não costuma ver-nos assim tão de perto, isso é novo e foi uma descoberta para os dois lados da equação."

"A sensação é estranha", admite o músico Samuel Úria. "Habitualmente falo muito com o público nos meus concertos; assumo que às vezes até falo demais. Estar no sofá a encarar uma máquina, mesmo sabendo que há gente do outro lado, causou-me alguma estranheza. Confesso que não me abstraí completamente, mesmo ao fim de meia hora."

A cantora Joana Espadinha nunca tinha feito um live - "Sempre tive algum pudor com isso, medo do escrutínio e dos haters nas redes sociais" - e acabou por se surpreender: não só conseguiu esquecer-se de que estava em frente de uma câmara como chegou a um público muito mais vasto. "É uma sensação nova, e uma aprendizagem nova também", explica a cantora de Leva-me a Dançar. "Para mim foi absolutamente libertador, e na verdade senti-me bem acompanhada. Com Pir, dos Cassete Pirata, com quem vivo, já estou habituada a criar e a fazer música numa base diária, por isso não foi novidade. Não substitui de todo um concerto ao vivo, mas acho que foi o meu concerto mais visto de sempre, e isso também é reconfortante."

Em tempos difíceis a música aproxima as pessoas

Apesar do desafio que foi e dos tempos difíceis que vivemos, o festival correu bastante bem, todos concordam. Samuel Úria, que assistiu a várias atuações de outros artistas, diz que o balanço é muito positivo, seja como artista seja como espectador e sublinha a proximidade que se estabeleceu entre músicos e públicos, "talvez maior do que aquela que existe diretamente de um palco para a plateia (e vice-versa)".

"As reações foram positivas porque, apesar das medidas de contenção ainda serem recentes, creio que logo se gerou a necessidade de aligeirar toda esta carga, e este negrume", explica o músico de Tondela. "Nisso, a música tem uma eficácia muito particular - ainda mais se entregues com a referida proximidade (remota, mas próxima). Não tenho pretensões que em palco me vejam como uma super-estrela, mas neste evento tenho a certeza que os espectadores me viram como 'um de nós'. Estávamos literalmente juntos."

Cristina Branco, que acabou de lançar o seu último disco, Eva, concorda que a iniciativa "contribuiu para aproximar as pessoas". "O facto de estarmos todos em casa, digamos que fragilizados com o futuro, permitiu que a partilha fosse muito bem recebida", diz. E David Fonseca considera que "a música e a arte sempre estiveram ligadas à parte mais emocional da vida das pessoas". "Não tenho dúvidas que será um aliado gigante no teste duro de paciência e resiliência no que se segue nas nossas vidas", prevê.

"Mais do que nunca precisamos de inspiração, de empatia, e a música tem essa universalidade, faz-nos sentir menos sozinhos, porque as canções, depois de escritas, são de todos os que as ouvirem e com elas se identificarem", diz Joana Espadinha. O festival só veio reforçar a sua convicção "na importância da música e da cultura, como factor de agregação de todos, como consolo, como inspiração. Os artistas deram o seu melhor nas circunstâncias que vivemos, e as pessoas responderam com gratidão a essa disponibilidade".

Afinal, como diz Joana Espadinha: "A música faz bem à alma, e à nossa sanidade mental, que é muito importante preservar neste momento!"

O futuro da música passará por aqui?

"Não faço ideia", admite David Fonseca. "Ainda é cedo para saber como rentabilizar uma atividade que vive primordialmente dos concertos quando não é possível fazê-los... mas a música não irá desaparecer, muito pelo contrário, arranjará outras formas de ultrapassar este momento".

"Será cedo para avaliar, mas isso vulgarizaria o mercado e saturaria também, repare, os músicos precisam trabalhar mas tem que haver dignidade também, todos queremos apresentar o melhor de nós mesmos e não creio que de pantufas o tempo todo, o consigamos fazer!", responde Cristina Branco. "Precisamos interagir, contagiar os outros com o nosso processo criativo. Se incorrermos no risco de acreditar que este é o futuro, então a música e a performance sofrerá um grande abalo. Esta é uma forma de mostrar solidariedade, empatia e também grande preocupação com o futuro da cultura, por isso mesmo, não deve ser o futuro em si. Foi bonito e é maravilhoso poder cantar e ter um público para me ouvir, mas precisamos do público nas salas, a vibrar connosco e a estimular o nosso trabalho."

"Precisamos do público nas salas, a vibrar connosco e a estimular o nosso trabalho."

"É difícil antever os próximos tempos, há muita coisa que não podemos controlar, apenas a nossa responsabilidade na forma como podemos afetar os outros", comenta Joana Espadinha, revelando alguma preocupação em relação aos tempos que aí vêm: "A verdade é que a Internet e consequente democratização da música tem muitas vantagens, mas também tem vindo, há vários anos, a prejudicar os artistas e os músicos em particular. Então acho que é preciso que as pessoas valorizem também o nosso trabalho, e também que os músicos se unam para proteger os seus direitos. Nesse sentido essa rentabilização é um caminho possível que penso ser essencial."

De qualquer forma, diz Joana Espadinha, "um concerto ao vivo é algo único, insubstituível. Curioso como durante estes últimos tempos quisemos filmar e registar os concertos a que assistimos, sofregamente, mas como isso também nos roubou uma parte da experiência, que implica outro tipo de presença. Agora só temos os telefones e os computadores... Vamos sentir falta dessa experiência por uns tempos, mas espero que não demore muito até voltarmos a estar juntos num concerto, e que saibamos dar valor a esse privilégio."

"Sinceramente, espero que o futuro não passe por aqui", concorda Samuel Úria. "Espero que se restabeleçam (e melhorem) condições para nunca mais estarmos confinados a este formato. E, se voltarmos, que seja como um memorial de tempos bizarros, e a celebração duma altura em que nos quisemos aproximar."

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