Foi a ver um programa de televisão, no sábado à noite, onde alguém explicava a iniciativa "Um Picasso por 100 euros", sorteio solidário cuja receita iria financiar a investigação sobre a doença de Alzheimer, que Ari Hodora decidiu comprar uma das 120 mil "rifas". O objetivo do engenheiro parisiense, apaixonado por arte, era ajudar, mas nunca pensou mesmo ganhar. De tal maneira que quando o telefone tocou, na terça-feira, 14 de abril, e a produtora da iniciativa lhe comunicou que ganhara e era agora o feliz proprietário do quadro Cabeça de Mulher, achou que era burla. "Não sou um jogador por natureza. Doei o dinheiro, acima de tudo, pela causa, sem nunca imaginar que pudesse realmente ganhar", contou Hodora, 58 anos, ao Le Parisien, explicando que quando o telefone tocou "estava a fazer outra coisa qualquer, tinha-me esquecido completamente de que o sorteio era naquela noite." Só quando a produtora passou a chamada para vídeo e viu o seu nome em letras garrafais num ecrã nos salões da leiloeira Christie's em Paris é que se convence de que venceu mesmo. "Fiquei extremamente surpreendido e, depois, muito emocionado ao perceber que se tratava de um retrato de Dora Maar pintado por Picasso", contou.Ari Hodora é agora o dono de Cabeça de Mulher, de 1941, uma guache sobre papel com 38,9 cm por 25,4 cm, representando Dora Maar, companheira e musa do pintor. A obra está avaliada em 1,45 milhões de euros. Na posse do próprio Picasso e da sua família durante algum tempo, o quadro passou depois para uma coleção privada. No momento do sorteio, era propriedade da Opera Gallery de Nova Iorque. Em dezembro de 2025 foram colocadas à venda 120 mil "rifas" de cem euros cada, tendo sido adquiridas online por compradores de 52 países. Dos 12 milhões de euros recolhidos, um milhão foi usado para comprar o quadro e os restantes 11 milhões vão para a Fondation Recherche Alzheimer.A questão que se coloca agora é o que vai Hodora fazer com o quadro. Afinal, o mundo inteiro sabe que o engenheiro é agora o dono de Cabeça de Mulher e expô-lo em casa colocaria questões de segurança. "Se não existissem todos os requisitos de seguro e de sistemas de alarme, adoraria expô-la em minha casa", confidenciou Hodora. Uma hipótese que não afasta é ter de vender o quadro, o que implicará uma tributação sobre a mais-valia cujos pormenores ainda desconhece. Emprestar a obra a um museu também é uma outra alternativa possível. Entretanto a Christie’s já terá oferecido os seus préstimos para o ajudar com os trâmites, independentemente da sua decisão. Com o quadro ainda na alfândega, a entrega oficial só deverá acontecer dentro de uma semana, numa cerimónia oficial organizada pela leiloeira, que também disponibilizou os seus cofres para o guardar o tempo que necessário. Hodora, quanto a ele, diz ainda não ter decidido o que fazer: "Ainda tenho tempo para pensar nisso". .Retrato de Dora Maar pintado por Picasso vendido por 32 milhões de euros