Paul Thomas Anderson
Paul Thomas AndersonJILL CONNELLY/EPA

A noite dos três Óscares para Paul Thomas Anderson (com Ted Sarandos na plateia...)

Como se esperava, Batalha Atrás de Batalha e Pecadores dominaram os Óscares, com o primeiro a ser distinguido como melhor filme de 2025. Ted Sarandos, da Netflix, foi alvo do humor de Conan O’Brien.
Publicado a
Atualizado a

Nos últimos dias, o infeliz comentário de Timothée Chalamet sobre a ópera e o bailado (“já não interessam a ninguém”) parecia vocacionado para ser o elefante na sala dos Óscares. Dir-se-ia que muitos temiam, ou apostavam, que os ecos da polémica que se gerou iriam assombrar a 98ª edição dos prémios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Conan O’Brien, pela segunda vez consecutiva a apresentar a cerimónia, teve o bom senso de lidar com o assunto logo de entrada, evitando multiplicar o seu incómodo no palco do Dolby Theatre, em Los Angeles. Disse ele: “Esta noite a segurança é extremamente apertada. Disseram-me que há o receio de ataques das comunidades da ópera e do bailado.” Chalamet riu-se. E ainda bem, porque havia fortes razões para celebrar o essencial — isto é, os filmes.

Conan O'Brien aprenetou a cerimónia
Conan O'Brien aprenetou a cerimóniaCHRIS TORRES/EPA

Digamos que o Óscar mais esperado se consumou: Jessie Buckley foi consagrada como melhor actriz pela sua performance em Hamnet. Além disso, todos esperavam que Batalha Atrás de Batalha, de Paul Thomas Anderson, e Pecadores, de Ryan Coogler, dominassem a noite, afinal reflectindo um ano de produções tão contrastadas quanto invulgarmente brilhantes.

Jessie Buckley e Michael B. Jordan com as estatuetas de Melhor Atriz e Melhor Ator
Jessie Buckley e Michael B. Jordan com as estatuetas de Melhor Atriz e Melhor AtorJILL CONNELLY/EPA

Assim aconteceu, com a realização de Anderson a arrebatar o Óscar de melhor filme do ano e ainda as distinções de mais cinco categorias. O próprio Anderson ganhou em duas delas, realização e argumento adaptado (sem esquecer que, na qualidade de produtor, também partilha o prémio de melhor filme), sendo as restantes duas as de melhor actor secundário, para Sean Penn, ausente na cerimónia, e melhor casting, da responsabilidade de Cassandra Kulukundis.

A entrega do Oscar de casting constituiu um dos momentos mais simbólicos da noite, já que se tratava de uma novidade no palmarés da Academia. A respectiva apresentação esteve a cargo de cinco intérpretes dos filmes nomeados: Paul Mescal (Hamnet), Gwyneth Platrow (Marty Supreme), Chase Infiniti (Batalha Atrás de Batalha), Wagner Moura (O Agente Secreto) e Delroy Lindo (Pecadores). Com sobriedade e rigor, todos defenderam o trabalho de escolha e acompanhamento de actores e actrizes como uma tarefa fulcral na construção de qualquer filme.

Ainda assim, convém não sugerir que o valor de tal trabalho envolve qualquer menosprezo pela relação do cinema (sobretudo o actual cinema de Hollywood) com o progresso tecnológico. Os Óscares para F1 e Avatar: Fogo e Cinzas foram a expressão disso mesmo: a aventura de Brad Pitt no mundo da Fórmula 1 ganhou na categoria de melhor som e a continuação da saga de James Cameron na de efeitos visuais. Em paralelo, importa também sublinhar a performance da nova versão de Frankenstein, de Guillermo del Toro, com vitórias nas categorias de cenografia, guarda-roupa e caracterização.

Com quatro Óscares, Pecadores foi o outro grande protagonista da noite. Era tido por alguns analistas da imprensa cinematográfica dos EUA como um sério candidato ao Óscar de melhor filme, sobretudo após as duas distinções que obtivera nos prémios do Screen Actors Guild — uma para Michel B. Jordan (melhor actor), outra para Francine Maisler (melhor casting). Jordan acabou por ganhar, batendo uma concorrência muito forte que incluia Chalamet em Marty Supreme e Leonardo DiCaprio em Batalha Atrás de Batalha. Pecadores recebeu ainda as estatuetas douradas de argumento original (também do seu realizador), música, do compositor sueco Ludwig Göransson, e fotografia, da responsabilidade de Autumn Durald Arkapaw. Foi uma das proezas da noite: Arkapaw tornou-se a primeira mulher a vencer nesta categoria.

Entretanto, a cerimónia não deixou de contemplar alguns “desvios” políticos. Jimmy Kimmel, que já apresentou os Óscares quatro vezes, terá aplicado o humor mais insólito, e também mais agressivo, quando veio anunciar os Óscares para os documentários (longa e curta-metragem). Começou por lembrar as dificuldades com que alguns realizadores deparam para documentar, precisamente, a realidade dos seus países — o que, além do mais, acabou por “rimar” com o triunfo de Mr. Nobody contra Putin (estreado há poucos dias nas salas portuguesas), retratando os mecanismos de propaganda do Kremlin. Por fim, Kimmel rematou as suas observações com uma alusão indirecta ao seu amigo Stephen Colbert cujo programa na CBS, The Late Show, foi cancelado, tendo o seu fim anunciado para o mês de maio. Arrastando vários ecos simbólicos, disse ele: “Como sabem, há alguns países cujos líderes não suportam a liberdade de expressão. Não tenho permissão para dizer quais — deixemos a questão pela Coreia da Norte e a CBS.”

Ted Sarandos, patrão da Netflix, com a produtora Nicole Avant
Ted Sarandos, patrão da Netflix, com a produtora Nicole AvantRYAN SUN/EPA

Seja como for, a melhor piada da noite terá pertencido a Conan O’Brien, visando Ted Sarandos, patrão da Netflix. Como pando de fundo, recorde-se, tinhamos a tentativa da Netflix adquirir os estúdios da Warner Bros. (o que não se consumou) e as especulações sobre o facto de essa compra poder traduzir-se no encerramento de muitas salas tradicionais, a par do reforço do “streaming” — aliás, muitas personalidades da comunidade de Hollywood manifestaram-se contra tal negócio, temendo pela estabilidade do mercado de exibição. Pois bem, Sarandos, de sorriso aberto, foi cumprimentado por O’Brien com esta frase: “O CEO da Netflix, Ted Sarandos está aqui e isso é uma coisa emocionante: é a primeira vez que ele vem a uma sala de cinema.”

Paul Thomas Anderson
Os Óscares deste tempo de poucos espectadores

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt