No domingo, às quatro da tarde em Los Angeles, no Dolby Theatre, inicia-se a 98.ª edição dos Óscares de Hollywood (com transmissão na RTP1, numa emissão especial a partir das 23h00). Pelo segundo ano consecutivo, Conan O’Brien assume a condição de apresentador. Para a imprensa especializada dos EUA, como sempre envolvida em previsões com os mais variados fundamentos artísticos e industriais, este tem sido um ano de expectativa e perplexidade. Expectativa porque, na maior parte das categorias, o lote de nomeados reflete uma sugestiva pluralidade, quer nas formas de produção, quer nas opções criativas. Perplexidade porque, felizmente para o próprio espetáculo, ninguém tem certezas inabaláveis sobre vencedores “antecipados”. Enfim, talvez com uma exceção: quase ninguém acredita que o Óscar de melhor atriz possa escapar a Jessie Buckley graças à sua prodigiosa interpretação em Hamnet.Como alguém recordava, há dias, num fórum da net (sem qualquer relação com o universo profissional do cinema), os mais de nove mil membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas que votam nos Óscares não funcionam como um comité, não se reúnem à volta de uma mesa para determinar quem serão os seus eleitos... Na categoria de melhor filme, em particular, cada membro da Academia não cita um título, antes exprime as suas preferências através de uma lista ordenada dos dez nomeados - o resultado final nasce de um método de ponderação que, além de valorizar o número de votos para cada filme, tem também em conta as posições que esse mesmo filme ocupa em cada lista individual. . O valor do castingEste ano, os prémios atribuídos pelas várias associações profissionais (guilds), tradicionalmente apontados como sintomáticos das tendências dominantes em cada setor, apresentam-se recheados de contrastes. Duas das associações de maior importância simbólica - produtores (Producers Guild of America) e atores (Screen Actors Guild) - fizeram escolhas divergentes. A primeira consagrou Batalha Atrás de Batalha, de Paul Thomas Anderson (que já tinha sido distinguido, como realizador, pela Directors Guild of America); a segunda elegeu Michael B. Jordan como melhor ator pela sua interpretação em Sinners/Pecadores, de Ryan Coogler, atribuindo ao mesmo filme o prémio de melhor casting. . Curiosamente, a questão do casting adquiriu um valor que não pode ser menosprezado. A Screen Actors Guild atribui um prémio de casting desde 1996, mas será este ano que, pela primeira vez, haverá um Óscar para o melhor casting (num total de 24 categorias premiadas). Além dos dois títulos citados, os nomeados para o novo Óscar são Hamnet, Marty Supreme e O Agente Secreto. No caso de O Agente Secreto, a presença neste lote é tanto mais significativa quanto o seu intérprete principal, Wagner Moura, surge também como o primeiro brasileiro a ser nomeado na categoria de melhor ator - sem esquecer que O Agente Secreto consegue a proeza, não inédita, mas pouco frequente, de integrar os nomeados para melhor filme e melhor filme internacional.A categoria de melhor casting acrescenta uma componente humana, especificamente profissional, ao panorama dos Óscares. Num tempo marcado por muitas discussões técnicas e filosóficas sobre os efeitos da digitalização de algumas personagens de filmes (dominante nas aventuras de super-heróis), a Academia celebra, assim, o trabalho dos diretores de casting, não apenas como um contributo essencial para a escolha dos intérpretes de um filme, mas também como uma tarefa que pode ter um peso decisivo na dramaturgia desse mesmo filme. . Daí o contraste que se renova com a presença (e, sobretudo, a ausência) nas nomeações para melhor filme das grandes produções alicerçadas em sofisticados efeitos especiais. Isto porque convém recordar que, a partir da cerimónia de 2010, o aumento do número de títulos nomeados para melhor filme (até um máximo de dez) surgiu com o propósito declarado de abrir a corrida para o Óscar principal às produções que recebem o rótulo, sempre equívoco, de “mais” comerciais.Como se prova, as nomeações continuam a mostrar-se indiferentes a tal propósito, ainda que na categoria de melhor filme de animação estejam presentes alguns dos títulos mais rentáveis do ano, incluindo Zootopia 2 (embora quase todas as previsões atribuam o favoritismo a Guerreiros do K-Pop, sobre as aventuras musicais de uma girl band). O emblemático Avatar: Fogo e Cinzas, por exemplo, fica-se pela modéstia de duas nomeações (guarda-roupa e efeitos visuais). Entre os dez nomeados para melhor filme, só F1, de Joseph Kosinski, com Brad Pitt, surge como modelo de vanguardismo tecnológico, ainda que o seu espírito narrativo deva mais ao melodrama clássico do que às matrizes atuais da aventura. . Quem vai ao cinema?Tudo isto acontece num contexto em que, na maior parte dos mercados (incluindo o português), a frequência das salas de cinema continua, no mínimo, instável. Esta quarta-feira, a Variety (publicação de referência de Hollywood, a par de The Hollywood Reporter) divulgava um estudo com um dado estatístico pouco otimista: em 2025, apenas metade dos cidadãos dos EUA foi assistir, pelo menos uma vez, a um filme numa sala (53% para sermos rigorosos). No chamado mercado americano (EUA e Canadá) venderam-se 769 milhões de bilhetes de cinema, ou seja, menos de metade do ano recorde de 2002, com 1,6 mil milhões de bilhetes. Pormenor insólito e, em boa verdade, culturalmente inquietante: 7% dos inquiridos nunca viram um filme numa sala de cinema.Que América se reconhece, então, na festa dos Óscares? Em anos recentes, as audiências televisivas da cerimónia têm ficado também muito longe das performances de outros tempos. O certo é que, paradoxalmente ou não, Batalha Atrás de Batalha e Sinners/Pecadores, os dois títulos que quase todos reconhecem como os favoritos para melhor filme, são genuínas e elaboradas parábolas sobre as contradições políticas e a força anímica da identidade made in USA - o primeiro refazendo a noção de thriller como uma ópera quase surreal; o segundo reescrevendo memórias afro-americanas através de inesperadas conjugações dos géneros musicais e de terror. Será também por esse cruzamento de fatores que, através de crises maiores ou menores, os Óscares mantêm o seu apelo universal. .Top 10O Óscar de melhor filme de 2025 será disputado por uma dezena de títulos, quase todos também presentes num número significativo de categorias. Sinners/Pecadores quebrou, desde já, um recorde: o de maior número de nomeações (16) de toda a história de Hollywood. Eis os dez candidatos ao Óscar máximo, com a indicação das outras categorias em que estão nomeados.SINNERS / PECADORES (16): realização (Ryan Coogler), actor (Michael B. Jordan), ator secundário (Delroy Lindo), actriz secundária (Wunmi Mosaku), argumento original, música, canção, som, casting, cenografia, fotografia, caracterização, guarda-roupa, montagem, efeitos visuais.BATALHA ATRÁS DE BATALHA (13): realização (Paul Thomas Anderson), ator (Leonardo DiCaprio), ator secundário (Benicio del Toro e Sean Penn), atriz secundária (Teyana Taylor), argumento adaptado, música, som, casting, cenografia, fotografia, montagem.FRANKENSTEIN (9): ator secundário (Jacon Elordi), argumento adaptado, música, som, cenografia, fotografia, caracterização, guarda-roupa.MARTY SUPREME (9): realização (Josh Safdie), actor (Timothée Chalamet), argumento original, casting, cenografia, fotografia, guarda-roupa, montagem.VALOR SENTIMENTAL (9): realização (Joachim Trier), atriz (Renata Reinsve), ator secundário (Stellan Skarsgård), atriz secundária (Elle Fanning e Inga Ibsdotter Lilleaas), filme internacional, argumento original, montagem.HAMNET (8): realização (Chloé Zhao), atriz (Jessie Buckley), argumento adaptado, música, casting, cenografia, guarda-roupa.BUGONIA (4): atriz (Emma Stone), argumento adaptado, música.F1 (4): som, montagem, efeitos visuais.O AGENTE SECRETO (4): ator (Wagner Moura), filme internacional, casting.TRAIN DREAMS / SONHOS E COMBOIOS (4): argumento adaptado, canção, fotografia. .Os Óscares não desistem da dimensão humana.Os nomeados para os Óscares: 'O Agente Secreto' e Wagner Moura na corrida à estatueta dourada