Será que a eventual aquisição dos estúdios da Warner Bros. pela Netflix significa que o streaming poderá reduzir a pó a herança comercial e cultural de mais de um século de filmes? Pois bem, aí estão os Óscares para confortar as nossas almas cinéfilas. O anúncio das nomeações (ontem, em Los Angeles) abre um tradicional tempo de tréguas. Na sua breve apresentação, a presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, Lynette Howell Taylor, encontrou uma fórmula feliz para resumir o estado das coisas: “Vivemos num tempo de tecnologia sem limites que nos permite alargar as fronteiras da nossa experiência cinematográfica. A nossa crença profunda é que a pulsação do cinema é, e continuará a ser, inequivocamente humana.”As coisas baralham-se se repararmos numa curiosa ironia: os estúdios da Warner e a plataforma Netflix ocupam metade da lista dos dez nomeados para o Óscar de melhor filme. Três têm chancela da Warner: F1, Batalha Atrás de Batalha e Pecadores. Dois da Netflix: Frankenstein e Train Dreams.Publicações como a Variety ou The Hollywood Reporter, a par de diversos sites especializados (com destaque para goldderby.com), têm dedicado os últimos meses a elaboradas previsões que, em boa verdade, estão longe de ser amadoras já que se baseiam no conhecimento interno da comunidade da produção audiovisual made in US”. O mínimo que se pode dizer é que Batalha Atrás de Batalha e Pecadores (este com 16 nomeações, novo recorde) parecem ocupar a linha da frente. . Entretanto, vale a pena lembrar que a dimensão nacional de Hollywood sempre foi, no mínimo, ambivalente — afinal, clássicos como Chaplin, Hitchcock ou Kazan nasceram em terras europeias. Tal pluralidade reforçou-se em anos recentes graças às muitas dezenas de novos membros “estrangeiros” que a Academia convidou. Sem que isso minimize (antes pelo contrário) os méritos do filme brasileiro O Agente Secreto, as suas quatro nomeações são também um sintoma do mesmo fenómeno. Wagner Moura é um dos cinco candidatos ao Óscar de melhor ator e O Agente Secreto consegue a proeza (não inédita, mas rara) de surgir entre os nomeados para melhor filme e melhor filme internacional; a quarta nomeação vai para melhor casting, da responsabilidade de Gabriel Domingues.Criado este ano, o prémio para melhor casting decorre de um pragmatismo que importa não menosprezar. Assim, ao longo deste século têm-se multiplicado as vozes que celebram os avanços tecnológicos do cinema (fascinantes, não é isso que está em causa) como sinal único e universal de “progresso” dos filmes. Reconhecendo a importância do trabalho de casting, é a própria Academia que nos recorda que os atores, quer dizer, a matéria humana não pode deixar de ser um elemento fulcral dos filmes e das suas múltiplas relações com os espetadores.Recorde-se, a propósito, que a decisão de alargar o número de títulos candidatos ao Óscar de melhor filme até um máximo de dez (a partir da cerimónia de 2010) foi tomada para dar lugar aos produtos mais “comerciais” e “tecnológicos”. Dir-se-ia que ninguém tem levado a questão muito a sério: o atual recordista das bilheteiras, Avatar: Figo e Cinzas, não surge na lista dos dez melhores, tendo obtido apenas duas nomeações (guarda-roupa e efeitos visuais).No dia 15 de março, o Dolby Theatre volta a acolher a cerimónia, com Conan O’Brien a retomar a função de apresentador em que se estreou o ano passado. Será um evento televisivo já com algum sabor a despedida, uma vez que a partir de 2029 (pelo menos até 2033) os Óscares serão transmitidos em exclusivo através do YouTube — como diria a presidente da Academia, alargam-se as fronteiras da nossa experiência cinematográfica..Kleber Mendonça Filho: “O Brasil possui uma força poética feita de sentimentos e espiritualidade”.'Marty Supreme'. Com saudades de James Stewart