Quando Luís Tavares comprou uma antiga quinta abandonada nos arredores da Praia da Luz, no Algarve, no início dos anos 2000, ainda não sabia exatamente o que iria construir ali, mas apenas que não queria deixar morrer aquele pedaço de terra escondido entre árvores antigas, laranjeiras e vista para o mar - um espaço que foi objeto de seu desejo durante muito tempo. Hoje, mais de duas décadas depois, o Vila Valverde Design Country Hotel tornou-se um dos refúgios mais discretos e sofisticados da região."Eu nunca quis fazer um hotel grande", resume o proprietário ao DN, no terraço principal da unidade hoteleira. "O meu objetivo sempre foi criar um sítio onde as pessoas pudessem descansar a sério", complementa.. A sensação aparece logo na chegada. O caminho estreito rodeado de vegetação leva a uma propriedade de cinco hectares onde o ruído fica automaticamente do lado de fora do portão. O hotel recebe apenas hóspedes acima dos 12 anos e tem capacidade máxima para 30 pessoas distribuídas por 15 quartos, todos diferentes entre si. Há árvores antigas espalhadas pelo terreno, pequenos caminhos de pedra, hortas, um lago discreto, cheiro de vegetação úmida ao final da tarde e uma calma pouco habitual num Algarve cada vez mais acelerado.O contraste entre a arquitetura original da quinta do século XIX e as linhas contemporâneas da ampliação definem a identidade do espaço. Mármore, vidro, cimento aparente, tons neutros e mobiliário minimalista convivem com paredes antigas, jardins extensos e um antigo tanque agrícola transformado em piscina exterior. "O tanque já existia aqui", conta Luís Tavares. "Em vez de destruir aquilo, decidimos aproveitá-lo e integrá-lo no projeto". .A transformação da propriedade acabou por se tornar uma espécie de obsessão pessoal. O empresário, que durante décadas trabalhou ligado ao turismo algarvio, admite que o hotel nasceu quase como uma reação ao crescimento acelerado da região. "Passei muitos anos ligado ao turismo de massas. Cheguei a trabalhar com centenas de milhares de turistas alemães por ano, mas, a certa altura, comecei a sentir falta de outra coisa", conta Luís, que cresceu na Alemanha. Essa "outra coisa" acabou por ganhar forma num projeto onde o tempo funciona noutra velocidade. No Vila Valverde, único hotel rural de cinco estrelas no Algarve, há uma piscina interior aquecida, sauna, salas silenciosas, um pequeno wellness center e áreas comuns desenhadas para que os hóspedes quase se sintam numa casa privada. Parte importante da identidade visual do Vila Valverde nasceu da colaboração com o arquiteto Mário Martins e da designer Nini Andrade Silva, dois nomes incontornáveis da arquitetura e do design portugueses. Segundo Luís Tavares, a inspiração passou por hotéis europeus clássicos, mas sempre adaptada ao Algarve e à ideia de um country hotel contemporâneo.. O resultado final evita a exuberância ostensiva de parte da hotelaria de luxo algarvia. Aqui, o requinte aparece mais nos detalhes: no mármore italiano, na iluminação natural, no cheiro da vegetação depois da rega ao final da tarde ou na forma como os quartos se abrem para o exterior. Alguns tem terraços privados, enquantos outros olham diretamente para os jardins ou para a baía da Praia da Luz ao longe. "Hoje em dia, o verdadeiro luxo é o espaço e o silêncio", diz o proprietário. "As pessoas vivem cansadas de barulho, de filas, de estímulos", resume. A clientela internacional rapidamente encontrou o caminho do hotel. Os alemães continuam a representar uma fatia importante dos hóspedes, algo que Luís Tavares associa também às suas ligações antigas ao turismo germânico. Mas franceses, britânicos e portugueses começam a descobrir o espaço com cada vez mais frequência. "Curiosamente, durante muitos anos os estrangeiros conheciam melhor o Vila Valverde do que os próprios portugueses", admite o proprietário, que agora quer encontrar também nos portugueses uma clientela que frequente mais o espaço.Apesar da procura crescente, o proprietário garante que não pretende expandir significativamente o projeto. "Se aumentasse muito, perdia-se precisamente aquilo que faz isto funcionar". A ideia, explica, nunca foi criar um resort tradicional, mas sim preservar uma certa sensação de retiro privado..Essa filosofia também chega ao restaurante do hotel, onde a aposta passa por menus mais curtos e produto local. O pão vem da região, os vegetais aparecem frequentemente ligados à produção local e a cozinha portuguesa contemporânea evita excessos de criatividade. "Não quero fazer um restaurante para agradar a toda a gente", diz Luís Tavares. "Não quero pizzas nem hambúrgueres só porque é mais fácil". A poucos minutos de algumas das praias mais concorridas do Algarve, o Vila Valverde contraria grande parte dos espaços da região: não há música alta, animação constante nem grandes multidões junto à piscina. O ritmo é outro. Há hóspedes que passam dias inteiros sem sair da propriedade, alternando entre livros, massagens, pequenos-almoços demorados e caminhadas pelo jardim. "Isso aqui é um sítio de sossego", finaliza Luís Tavares, olhando para o terreno que transformou ao longo de mais de vinte anos.O repórter hospedou-se no hotel a convite do Vila Valverde Design Country..Six Senses Douro Valley: um hotel português entre os 500 melhores do mundo.Entre claustros, vinhos e séculos de história no Convento do Espinheiro