Adotou há uns anos o nome Pico Wines para conseguir chegar ao público estrangeiro, mas percebeu que Cooperativa Vitivinícola da Ilha do Pico tinha de continuar a constar dos rótulos do vinho que produz, não apenas para honrar a história de todos os que a fazem mas também de todos os que têm garantido que a instituição é uma das mais reconhecidas no setor.No Pico, fazer vinho é mais do que uma atividade agrícola: durante muitos anos era a única forma de sobrevivência, e a filoxera praticamente matou uma economia muito assente na produção e exportação de vinhos, corriam os finais do século XIX. Depois de um êxodo de ilhéus e de um período em que foi preciso voltar a pacificar a relação da população com a terra, a Cooperativa do Pico tem-se afirmado como o principal garante de uma paisagem que é reconhecida pela UNESCO como património mundial.As curraletas que protegem cada cepa são as mesmas que tornam a viticultura tão difícil, e é por isso que os vinhos do Pico precisam que seja contada a história para que se entenda de onde vêm e porque os preços são tão diferenciados.“A cooperativa é a base, é a história e acarreta consigo um respeito ao passado e tudo desde a sua origem. Acho que não devemos andar ao sabor do vento. É cooperativa com muito orgulho. Pico Wines foi uma denominação que entrou com uma administração anterior”, começa por dizer ao DN Bernardo Cabral, o enólogo que desde 2017 é responsável pelas referências que ali são produzidas.“Acho que houve um problema associado à forma de fazer muitas das cooperativas, que tomaram dimensões gigantescas e cujo modelo de negócio está assente no pagamento da uva aos sócios”, continua, quando lhe perguntamos por que são tão mal vistas as cooperativas – outrora a grande salvação do setor – e que explique a razão pelo regresso à utilização da denominação pela Cooperativa Vitivinícola do Pico. “O preço é estabelecido com o negócio que eles conseguem fazer. A parte comercial, às vezes com gestões com capacidade mais reduzida, às vezes por excessos de stocks, acabaram por ir reagindo e ao longo de décadas os preços vieram por aí abaixo. O preço da uva começou a baixar imenso. Lembro-me de quando comecei a trabalhar (ainda em escudos), o preço da uva no Alentejo era mais alto do que aquilo que é hoje. Portanto, as grandes cooperativas estragaram um bocadinho esse nome”, lamenta.A título de exemplo, a Cooperativa do Pico paga aos seus sócios, valores que variam entre os 3,5 euros e os 5,5 euros por quilo, consoante as castas – no Alentejo, na campanha do ano passado, o valor máximo tabelado era de 1,80 euros, para referência.Um valor que Bernardo justifica com a dificuldade da viticultura na ilha, mas também com o respeito que os sócios merecem, uma vez que foram eles que ao longo dos anos garantiram que as vinhas não se perderam no abandono geracional.“Eu tenho muito receio de que possa haver algum abandono das vinhas. Se não tens uvas, não tens negócio”, atira em jeito de justificação. “Nós estamos assentes em muitos sócios, mas relativamente poucos hectares – o grosso da fatia, mais de 80%, pertencem a 50 sócios que são excelentes viticultores. Mas são sempre parcelas pequenitas”, salienta. “Manter o património vitícola só se consegue com negócio que liberta margem boa para pagar mais as uvas”, continua o enólogo.É por isso que os vinhos do Pico aparecem, para um consumidor médio, como vinhos relativamente dispendiosos – praticamente todos a custar mais de dois dígitos – o que se prende com dois fatores principais: a dificuldade do território (toda a viticultura e vindima tem de ser feita à mão) e a escassez tanto de terra quanto de rendimento. Território feito maioritariamente de vinhas velhas e divididas em pequenas parcelas, o Pico ganhou novo fôlego quando António Maçanita assentou arraiais na ilha, com uma adega moderna que chamou logo a atenção de estrangeiros e portugueses endinheirados. Ao lado, a Cooperativa continuou a fazer os seus vinhos, com referências tão conhecidas como o Frei Gigante e a inovar com outras como o Gruta das Torres, um 100% Arinto que estagia debaixo de água durante 15 meses.E apesar de a qualidade ficar a dever nada aos seus concorrentes, os vinhos da Cooperativa nem sempre conseguem sair para o mercado com valores tão elevados quanto estes. “Nós temos noção de que somos um bocadinho subestimados pelo facto de sermos uma cooperativa. Não tenho a menor das dúvidas de que podíamos ser mais elevados ao nível das pontuações, por exemplo”, admite Bernardo Cabral. E dos preços. “Os críticos até reconhecem a importância para a história, a resiliência desta Cooperativa que aguentou as vinhas do Pico contra todas as probabilidades e eu acho que isso, ao fim destes anos todos, é reconhecido. A crítica está a perceber a importância que a Cooperativa teve”, continua. .É por isso que Bernardo Cabral olha para a atual fase da Cooperativa com otimismo, que tem apostado também no refrescar de uma imagem que parecia estar já um pouco ultrapassada. Para isso, contou com a ajuda da designer Rita Rivotti – que insistiu na manutenção do nomes Cooperativa, em português. E que tem ajudado a desenhar novas roupagens para cada referência produzida pela instituição. Mudanças que “têm sido muito bem vistas pelos associados. Eu próprio sinto que sou uma pessoa querida na ilha pelo trabalho que fiz pela Cooperativa. Toda a gente está a ganhar mais, estamos a pagar bem o quilo da uva. Definimos o preço sempre puxando o máximo possível para cima, para que todos os sócios se sintam motivados a não abandonar a vinha. A viticultura tem de ser negócio!”, repete.A organização lançou, precisamente com esta ideia de inovar e surpreender, no início deste ano dois vinhos diferentes: o Arcos Vulcânicos de 2021 e um Licoroso Especial de 1998.O primeiro é um 100% Verdelho que nasce na zona dos Arcos, em Santa Luzia. Ali, as vinhas crescem com vista direta para o mar, o que lhes confere salinidade, frescura e tensão.Mas a grande surpresa da Cooperativa, em 2026, foi o lançamento de um vinho licoroso com quase 30 anos. Um vinho que, nascido de Verdelho crescido em vinhas velhas, foi colocado em cascos no final da década de 1990, e nunca mais foi mexido. Até agora, quando a Cooperativa decidiu que era hora de o mostrar ao mundo. Se foi aguardentado ou não, “tenho dúvidas”, diz Bernardo admitindo que há factos que estarão apenas na memória de quem colocou o vinho a envelhecer. O que é certo é que este “hino à história dos Açores”, como lhe chama o enólogo, se apresenta com uma cor topázio, quase caramelo, com imensos aromas a passas, tâmaras, laranja cristalizada e tosta. Depois de 27 anos de estágio em pipas de 650 litros, este vinho deu origem a 470 garrafas que estão no mercado a 750 euros e que já chamaram a atenção de muitos apreciadores.Entre os mercados principais dos vinhos do Pico estão os próprios ilhéus, mas também muitos norte-americanos – até porque a ilha tem uma relação de muitos anos com aquele continente. “Nos EUA, começámos com uma gama de vinhos mais de entrada e agora estão a pedir vinhos de mais alta gama”, continua o responsável de enologia. “Mas cerca de 60% do nosso mercado é nos Açores”, afiança. “Cerca de 20% da produção vai para exportação e 20% para o mercado nacional”. Isto é válido, acrescenta ainda, para as várias referências, licoroso incluído, acredita. .“A questão das tarifas influenciou imenso. Houve uma paragem nas importações e retomaram com força há umas semanas – mas também é verdade que apoiamos bastante esse mercado. O nosso apoio, no caso, é ir lá – trabalhamos com um importador muito bom que nos disse que nós somos a única cooperativa com quem eles trabalham. Somos a única exceção e isso enche-nos de orgulho”, revela.Mas para esta penetração no mercado americano contribuiu também o facto de os vinhos do Pico terem estado a crescer em qualidade e reconhecimento. “Quando eu comecei a trabalhar, na década de 1990, o Relatório Porter dizia que nós devíamos internacionalizar as nossas castas. Mas como ninguém consegue dizer os nossos nomes, que devíamos juntar as nossas com as castas estrangeiras. Mas entretanto, com o tempo, acho que as pessoas se fartaram um bocado disso e começaram a virar-se para o que é mais autêntico e genuíno de cada sítio: os sabores. E por isso vemos cada vez mais as pessoas a venderem nomes mais difíceis. Vendemos Terrantez do Pico, Esgana-Cão…e as pessoas querem isso. O Pico está alinhadíssimo com o que se quer lá fora. Estamos a viver um momento muito difícil – sobretudo pela redução do consumo e o atual contexto global – e, portanto, o maior desafio é conseguirmos sobreviver a loucura geopolítica que estamos a viver. São momentos que nunca imaginei que iriamos viver”.“Temos de ser muito resilientes”, conclui o especialista..Leonor Freitas: "Vamos a todos os mercados nem que se comece por uma palete".A salvação do setor está no vinho do Porto?