Carta aberta de cientistas: "Universidade do Porto não deve dar credibilidade à negação da ciência"

Mais de 50 cientistas escreveram carta aberta ao reitor da Universidade do Porto devido à realização da polémica conferência de negacionistas, que acontece esta sexta-feira e sábado

A polémica conferência, com a presença de várias personalidades conhecidas como negacionistas das alterações climáticas, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto (UP), levou um grupo de cientistas a escrever uma carta aberta de "perplexidade" e de "protesto" contra o evento que acontece esta sexta-feira e sábado.

A conferência, intitulada "Basic Science of Climate Change", é organizada pelo Independent Committee on Geoethics (IGC).

"Sendo uma universidade pública e uma das maiores produtoras de Ciência em Portugal, à Universidade do Porto impõe-se o escrutínio dos eventos que acolhe. Esta instituição, pela responsabilidade que tem em divulgar o conhecimento informado, não deve emprestar o nome e dar credibilidade à negação da Ciência e do Conhecimento, mas antes promover o conhecimento científico sobre as alterações climáticas, seguindo as boas práticas científicas internacionais", lê-se no documento, assinado por mais de 50 investigadores de várias universidades portuguesas.

Com esta carta aberta, os cientistas não pretendem ver o evento cancelado, como explicou ao DN Pedro Matos Soares, que lidera um grupo de investigação na área das alterações climáticas do Instituto Dom Luiz da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e um dos signatários do texto. "Não pedimos nada. Não requeremos o cancelamento da conferência", esclarece. "O que queremos é reforçar a posição do que é científico tem de ter bases científicas e este é um encontro negacionista de motivação política", lamenta.

"A Universidade do Porto está a fazer um mau serviço público porque está a promover a desinformação, a contaminar a opinião publica"

"Como investigadores não podemos deixar de dizer à UP e de chamar a atenção a todas as instituições de ensino em Portugal que tem de haver padrões para os eventos legitimados para serem realizados nas universidades, em particular quando se afirmam 'científicos'", acrescenta.

Investigador há 25 anos, os últimos 15 dedicados às alterações climáticas, Pedro Matos Soares, defende que as discussões científicas devem ser plurais, com a apresentação de várias ideias, desde que tenham fundamento científico. "Acho que a Universidade do Porto está a fazer um mau serviço público porque está a promover a desinformação, a contaminar a opinião publica, com informação que não tem base científica nenhuma", considera. E sublinha: "Não há censura".

"Esta é uma carta aberta de perplexidade e de crítica, de protesto pelo facto da própria Universidade do Porto não fazer um escrutínio do tipo de evento que promove", esclarece o investigador.

"A própria conferência começa por dizer que é Basic Science, a ciência basilar das alterações climáticas, mas neste caso o encontro não tem qualquer cariz científico", assegura Pedro Matos Soares sobre o encontro no qual alguns dos oradores estão associados a um lobby ligado aos "combustíveis fósseis. São negacionistas das alterações climáticas". "O que eles pretendem é contaminar a opinião pública com argumentos sem qualquer fundamento científico".

"Estas ideias cientificamente infundadas - a que se dá o nome de negacionismo -, em vez de esclarecerem e sensibilizarem para as alterações climáticas, não pretendem mais do que criar dúvidas sem qualquer fundamento ou método científico"

A "promoção da desinformação" levou vários cientistas como, David Marçal, da Agência Ciência Viva, João Ferrão, do Instituto de Ciências Sociais, da Universidade de Lisboa, e antigo secretário de Estado do Ordenamento do Território e das Cidades, Luísa Schmitdt, do Instituto de Ciências Sociais, Teresa Lago, ex-deputada , do departamento de Física e Astronomia da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e Carlos Fiolhais, do departamento de Física, da Universidade de Coimbra, a assinarem uma carta aberta ao reitor da Universidade do Porto, António Sousa Pereira.

"Tal como anunciado no site da Universidade do Porto e noticiado na imprensa, decorrerá nos próximos dias 7 e 8 de Setembro na Faculdade de Letras dessa Universidade uma conferência intitulada 'Basic Science of a Changing climate: How Processes in the Sun, Atmosphere and ocean affect weather and climate'. A coberto deste interessante título que sugere um campo científico reconhecido, esta conferência é afinal organizada por um conhecido lobby negacionista das alterações climáticas, o auto-denominado 'Independent Committee on Geoethics', e reunirá no Porto negacionistas de vários países, sendo presidida por Maria Assunção Araújo, professora daquela faculdade. Nas suas próprias palavras para a imprensa Maria Assunção Araújo é explícita: 'Não me interessa ter cá alguém a dizer que a causa das alterações climáticas é o CO2", começa o documento fazendo referência às declarações feitas ao DN da presidente do comité da organização, a geógrafa Maria Assunção Araújo.

"Os signatários da presente carta aberta, cientistas e trabalhadores em Ciência, vêm expressar o seu protesto pelo facto de a Universidade do Porto, a que V.Exa. preside, promover uma conferência que vem favorecer a desinformação, credibilizando ideias políticas que visam travar as ações para se conseguir obter a estabilização climática do planeta durante este século. Estas ideias cientificamente infundadas - a que se dá o nome de negacionismo -, em vez de esclarecerem e sensibilizarem para as alterações climáticas, não pretendem mais do que criar dúvidas sem qualquer fundamento ou método científico", sublinha o grupo de cientistas portugueses, face à realização da polémica conferência.

Pedro Matos Soares salienta a importância de informar bem a temática das alterações climáticas com origem humana", que são "observadas há muitos anos". " Há 150 anos que estamos num processo de aquecimento e que este aquecimento acelerou nos últimos anos. Batemos o recorde de temperatura média global 17 vezes nos últimos 18 anos", explica o investigador, um dos signatários do documento, divulgado esta quinta-feira.

Posição da Universidade do Porto e da Faculdade de Letras

Antes da divulgação desta carta aberta, na terça-feira, a Universidade do Porto, em comunicado enviado à Lusa, nega que as posições assumidas pelos oradores do Independent Committee on Geoethics sejam um reflexo da visão da instituição.

De referir que entre os oradores está Piers Corbyn, irmão do líder trabalhista britânico Jeremy Corbyn, que considera que a contribuição humana no aquecimento global é "mínima" e que o aumento da temperatura se deve a um aumento da atividade solar.

Ao DN, a diretora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Fernanda Ribeiro, fez saber que a instituição "é um espaço plural" e que impedir a realização da conferência seria "censura". A responsável sublinhou que a faculdade "não vai ceder a pressões só porque há uma polémica",

Fernanda Ribeiro diz, no entanto, acreditar que "estão reunidas as condições para o debate científico", uma vez que "houve um call para comunicações". Isso, nota, "dá garantias de que é uma conferência aberta" a quem se quiser inscrever. "Só não haverá debate", diz, "se as pessoas não forem lá participar".

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