Alterações climáticas. Universidade do Porto promove conferência de negacionistas

Um dos oradores defende que subida da temperatura se deve ao aumento da atividade solar, outro nega a subida do nível médio dos oceanos e outro é um cético em relação à "influência antropogénica no clima"

"U. Porto junta especialistas para falar de alterações climáticas", lê-se no site da Universidade do Porto que anuncia a realização da conferência "Basic Science of Climate Change", que vai decorrer na Faculdade de Letras daquela universidade nos dias 7 e 8, no final desta semana.

A conferência é organizada pelo Independent Committee on Geoethics (IGC) com o objetivo expresso de "(des)contruir algumas ideias sobre alterações climáticas", lê-se na apresentação do evento no site da universidade. Mas, a avaliar pelos organizadores e alguns dos oradores, segundo a descrição no próprio site do evento, o objetivo parece ser especificamente desconstruir a ideia de que o aquecimento global é causado pelo homem.

Para a presidente do comité da organização, a geógrafa Maria Assunção Araújo, professora daquela Universidade, a conferência pretende fazer um debate científico sobre a questão, com "pessoas cientificamente muito válidas", e questionar o consenso sobre a influência humana nas alterações climáticas, que considera ser uma "ideia alarmista". Aliás, defende mesmo que "há censura" contra quem não subscreve a explicação científica das alterações climáticas com base na emissão de gases de efeito de estufa e diz que um dos objetivos é ultrapassar essa censura.

"Pensamos que a causa fundamental das alterações climáticas, que não negamos, não é a acumulação de CO2 na atmosfera", afirma Maria Assunção Araújo. "Não pode ser isso porque o CO2 é uma pequeníssima parte dos gases na atmosfera e a maior parte nem é produzido pelos humanos, não há maneira de ter essa influência que se diz", garante.

Questionada pelo DN sobre o facto de apenas terem sido convidados negacionistas do papel antropogénico nas alterações climáticas para participar nesta conferência, que se apresenta como um debate científico, a presidente da organização diz não ter sido ela a fazer os convites. Além disso, acrescenta, "não conheço essas pessoas, não vou convidar quem não conheço". E sublinha: "Não me interessa ter cá alguém a dizer que a causa das alterações climáticas é o CO2, isso não é ciência, é política".

Esta é uma posição comum a muitos dos oradores anunciados. Um dos organizadores e principais oradores, o sueco Nils-Axel Morner, é uma figura controversa que se tem destacado pelas intervenções negacionistas das alterações climáticas. Um crítico do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, Morner também questiona a ideia da subida média do nível dos oceanos.

Outro dos oradores, Piers Corbyn, irmão do líder trabalhista britânico Jeremy Corbyn, considera que a contribuição antropogénica no aquecimento global é "mínima" e que o aumento da temperatura se deve a um aumento da atividade solar. Na apresentação do conferencista, lembra-se mesmo que em 2008 afirmou que o "aquecimento global nunca teve nada a ver com o CO2" e que a temperatura está em queda.

Christopher Monckton, outro nome da lista, é também conselheiro do The Heartland Institute, um think tank norte-americano e conservador que se tem afirmado no combate às evidências científicas que comprovam o aquecimento global.

Na página dedicada aos oradores aparece ainda o geógrafo espanhol Anton Uriarte, "conhecido pela sua posição cética em relação à influência antropogénica no clima".

O Independent Committee on Geoethics (IGC) organizou em 2015 o que designou como uma "contra conferência" à Conferência de Paris das Nações Unidas, que terminou com um consenso global de redução das emissões de gases de efeito de estufa para tentar controlar a subidas das temperaturas.

"Lamentável que a Universidade apoie uma coisa destas"

A decisão da Universidade do Porto em receber a conferência já está a ser muito criticada. Para o bioquímico David Marçal, é "lamentável que a Universidade do Porto apoie uma coisa destas". Autor de vários livros de divulgação científica e esclarecimento sobre pseudociência, Marçal considera que a instituição devia "recuar ou pelo menos divulgar um comunicado a dizer que se demarca da conferência".

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