Vidas. Votos. Energia. Defesa. As faturas da guerra não param de aumentar

A invasão russa da Ucrânia já provocou mais de 2,5 milhões de refugiados. À crise humanitária junta-se a financeira, com a escalada do preço da energia.

Sábado, 5 de março

Quando nem um corredor humanitário é respeitado

Com a escalada da guerra na Ucrânia não foram sequer respeitados os acordos para serem criados corredores humanitários que permitissem a retirada de população de Mariupol e Volnovakha, cidades fustigadas por múltiplos ataques. Russos e ucranianos acusaram-se mutuamente sobre quem teve a responsabilidade pelo não cumprimento do cessar-fogo. "Os russos continuam a bombardear Mariupol e os seus arredores", garantiu o autarca da cidade portuária. A Rússia, por sua vez, disse que o corredor foi boicotado por nacionalistas e forças armadas da Ucrânia, com o objetivo de "reagrupar unidades" usando a população como "escudo humano". Sem tréguas à vista, a Cruz Vermelha descreveu a situação no terreno: "As cenas a que se está a assistir hoje em Mariupol e noutras cidades são dilacerantes."

Domingo, 6 de março

PCP e o custo de ficar em cima do muro

"Paz sim, guerra não." As palavras de ordem foram repetidas inúmeras vezes no domingo, no Campo Pequeno, na comemoração do 101.º aniversário do PCP, como se fosse um mantra, numa altura em que o partido é acusado de dar uma no cravo e outra na ferradura em relação ao conflito na Ucrânia. Isto porque se diz que condena a "intervenção militar russa" e que "urge acabar com uma guerra que nunca devia ter começado", ao mesmo tempo abre sempre um parêntesis para dizer que o conflito serve "a administração norte-americana e o seu complexo militar-industrial para desviar a atenção dos problemas internos". Reafirma que a sua posição é "oposta à das forças políticas que governam a Rússia capitalista e dos seus grupos económicos", mas no Parlamento Europeu vota, ao lado de membros da extrema-direita, contra uma resolução que condenava "com a maior veemência possível, a agressão militar ilegal, não provocada e injustificada" da Rússia contra a Ucrânia. O PCP pode não querer, nem achar justo, mas ficou em cima do muro nesta questão. E isso tem custos, tendo em conta que ninguém duvida de que há um país invasor, poderoso, com armamento nuclear, que bombardeia bairros residenciais e hospitais pediátricos, e outro, mais fraco, que tenta defender-se como pode, procurando preservar a sua integridade territorial. As mensagens contra a NATO e o "imperialismo americano" ainda podem congregar pessoas suficientes para encher o Campo Pequeno, mas o que se tem visto, eleição após eleição, é o PCP a perder votos e não é parecendo indeciso neste conflito, contrariando a evidente onda de solidariedade expressa pelos portugueses para com o povo ucraniano, que os irá recuperar. Muito pelo contrário.

Segunda-feira, 7 de março

Tudo a subir: combustível, luz e gás. E vai piorar...

Depois de um fim de semana em que Portugal assistiu a uma verdadeira corrida aos postos de abastecimento, que deixou vários sem combustível, o país acordou na segunda-feira com a confirmação do que se anunciara: fruto do aumento do preço do petróleo (outra das consequências da guerra na Ucrânia), o custo do litro de gasóleo e gasolina subiu, em média, 14 e 8 cêntimos, respetivamente. Mas as más notícias para os consumidores de energia, que somos todos nós, particulares e empresas, não ficaram por aqui: também neste dia, o preço médio da eletricidade no mercado grossista ibérico disparou 23% (superando pela primeira vez a barreira dos 500 euros por megawatt-hora) e o do gás natural atingiu um novo máximo. O pior é que a subida de preços tenderá a agravar-se, piorando a cada dia de guerra e atingindo toda a cadeia de valor que depende da energia. O custo da invasão russa vai sentir-se na carteira, será pesado e, é inevitável, afetará a recuperação económica que se previa com o ultrapassar da pandemia de covid-19 e a aplicação em força dos fundos do PRR.

Terça-feira, 8 de março

As mulheres e os exemplos de coragem na guerra

O número de refugiados ucranianos não para de crescer (já são mais de 2,5 milhões). Na terça-feira celebrou-se o Dia Internacional da Mulher e importa recordar que são elas, as crianças e os idosos a maioria destes refugiados, cujas histórias de angústia e perda nos chegam diariamente. São os rostos que expõem a crueldade da guerra, "os mais vulneráveis", como sublinha António Vitorino (diretor-geral da Organização Internacional de Migrações), "quer a pressões quer a riscos de exploração, de tráfico e de abuso sexual". Mas, ao mesmo tempo, como disse ao DN Sofia Moreira de Sousa (representante da Comissão Europeia em Portugal), estas mulheres são também "um exemplo de coragem, força e luta pela liberdade", que chega das que têm de fugir para proteger a sua família, das que ficam para pegar em armas e ajudar no esforço de guerra ou das que se voluntariam em tantos países para acolher os refugiados.

Quarta-feira, 9 de março

Ataque a hospital pediátrico em cidade estratégica

"Crime de guerra odioso." Foi assim que Josep Borrell, chefe da diplomacia da União Europeia, se referiu ao ataque russo de quarta-feira a um hospital pediátrico, em Mariupol - cidade costeira no leste da Ucrânia que está no epicentro da guerra pela sua posição estratégica, por possibilitar a reunião de forças russas vindas do território ocupado da Crimeia e das repúblicas separatistas da região de Donbass - e que provocou pelo menos três mortos e 17 feridos. A mesma expressão, "crime de guerra", fora utilizada horas antes pelo presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, que classificou o bombardeamento como um momento definidor nesta guerra, "a prova de que está a acontecer um genocídio de ucranianos". "Hoje é o dia que define tudo. Quem está de que lado. Bombas russas caíram sobre um hospital e uma maternidade em Mariupol (...). Que tipo de país, a Rússia, tem medo de hospitais e maternidades e os destrói?", questionou. A justificação russa para o ataque foi de que o hospital estava há muito tomado por grupos extremistas ucranianos.

Quinta-feira, 10 de março

Turquia emerge com mediador e tenta lucrar

A cidade turca de Antália foi palco da primeira conversa, frente a frente, dos chefes da diplomacia russa e ucraniana (Serguei Lavrov e Dmytro Kuleba) desde o início do conflito a 24 de fevereiro. Não foi conseguido um compromisso para o cessar-fogo, mas ficou a garantia de manter em aberto o diálogo entre as partes e a convicção, expressa pelo ministro turco dos Negócios Estrangeiro, de que será possível organizar uma cimeira entre Vladimir Putin e Volodymyr Zelensky. Membro da NATO, a Turquia, apesar de ter fornecido drones de combate às forças armadas da Ucrânia, não cortou as relação com Moscovo (da Rússia recebem, além do abastecimento de trigo e energia, largos milhares de turistas anualmente), conseguindo assim emergir como potencial mediador no conflito. O presidente turco, Recep Erdogan, não perdeu tempo em tentar beneficiar desse estatuto e numa conversa telefónica com Joe Biden, na quinta-feira, pediu o levantamento das "sanções injustas" sobre o setor da defesa. Do lado norte-americano chegou o elogio ao esforço diplomático turco e a promessa de se trabalhar em conjunto para "fortalecer os laços bilaterais".

Sexta-feira, 11 de março

Declaração de Versalhes reforça papel da defesa

A ação militar da Rússia na Europa fez soar alarmes na União Europeia. Os 27 líderes europeus, reunidos em Versalhes, França, acordaram "aumentar substancialmente" as despesas militares, para que a UE se torne "mais forte e mais capaz no domínio da segurança e defesa" e contribua "positivamente para a segurança global e transatlântica", sem deixar de referir que continuará a ser a NATO "a base da defesa coletiva dos seus membros". As propostas ficaram expressas na Declaração de Versalhes, incluindo a referência ao compromisso de defesa mútua do Tratado da UE, que protege todos os Estados-membros mesmo que não pertençam à NATO (como é o caso da Suécia e da Finlândia). Fora dos planos ficou a possibilidade de acelerar a adesão da Ucrânia à UE, como pedia Zelensky. "As decisões dos políticos devem coincidir com os sentimentos dos seus povos, os povos europeus. A UE deve fazer mais por nós", reagiu o líder ucraniano.

pedro.sequeira@dn.pt

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