Quando chegamos a Madrid, compramos um bilhete de metro por €1,50, um valor semelhante ao que se paga em Roma para um bilhete que é válido no metropolitano e nos autocarros durante quase duas horas. Quando fazemos uma pesquisa pelo bilhete mais comparável em Lisboa – um bilhete simples que serve para Metro e Carris, e que pode ser usado durante o período de 60 minutos – o preço é de €1,90.Um valor pouco diferente daquele que se paga em Paris – entre €2,10 e €2,30, incluindo a possibilidade de utilizar o comboio. O que é muito diferente é o salário médio nacional e o salário médio espanhol ou francês. A título de exemplo, o salário bruto médio anual em França era, em 2024, de €44 968 enquanto em Portugal era de €24 818. Já a vizinha Espanha registou um salário bruto médio anual de €31 698, mostram os dados comparáveis do Eurostat.Importa salientar que os preços que aqui apresentamos podem ter uma ligeira variação, uma vez que as pesquisas online nem sempre refletem todas as alterações feitas pelos serviços, mas o DN tentou compilar os valores mais comparáveis de todas as capitais europeias, para tentar perceber onde se encontra Lisboa na lista dos 27.Em termos absolutos, Copenhaga, Estocolomo e Amesterdão ocupam o pódio das cidades com os transportes mais caros. No entanto, são também elas que têm dos salários médios mais elevados, o que significa que quando fazemos as contas ao peso que têm em relação ao rendimento, estas três capitais estão precisamente entre aquelas em que o preço dos transportes menos pesa. Isto se excluirmos o Luxemburgo, onde a gratuitidade total dos transportes públicos não é imitada por nenhuma das outras capitais europeias. .Se fizermos um índice normalizado de base 100 (uma ferramenta estatística utilizada para comparar a evolução de diferentes variáveis ao longo do tempo) para comparar da forma mais correta possível o peso do bilhete face ao rendimento, encontramos as capitais búlgara, romena e eslovaca (Sofia, Bucareste e Bratislava, respetivamente), no topo da tabela. Ou seja: são as cidades onde o preço dos transportes mais pesa na carteira dos passageiros. Lisboa aparece num pouco honroso 8.º lugar, com os preços dos bilhetes a ter um peso médio-alto em relação ao rendimento.Não será alheio a isto o facto de Portugal ser também um dos países da União Europeia com menor utilização dos transportes públicos em 2024, segundo dados do Eurostat revelados na semana passada. Os países da UE com menor utilização dos transportes públicos em 2024 foram o Chipre, onde 85% da população não os utilizou, seguido da Itália e Portugal (ambos com 68%), França (65%), Eslovénia (62%) e Grécia (61%). No outro extremo, encontravam-se o Luxemburgo, onde apenas 15,7% da população não utilizava transportes públicos em 2024, seguido da Estónia e da Suécia (ambos com 27%).Do lado oposto deste ranking – ou seja, as capitais onde o preço dos bilhetes menos pesa no bolso dos viajantes – estão o Luxemburgo (com um peso de 0, uma vez que são gratuitos), Dublin, na Irlanda e Copenhaga, na Dinamarca.O que nos faz andar de transportes?Ao contrário do que acontece no centro e no norte da Europa, os países do sul – no qual se inclui Portugal – parecem ter uma relação mais complicada com o uso do transporte público. Mas apesar de isto ser muitas vezes explicado por questões culturais, a verdade é que é preciso haver uma combinação de fatores para que os cidadãos troquem o carro particular pelos transportes, afirmam os especialistas. Primeiro, a relação custo-benefício. Ou seja, a redução de gastos com combustível, manutenção do veículo, portagens e, crucialmente, estacionamento deverá ser compensada pelo preço dos transportes. Naturalmente, os passes sociais a preços reduzidos têm sido um fator decisivo – já lá vamos. Depois, a conveniência e o tempo, uma vez que que evitar o stress do trânsito e de encontrar estacionamento, permitindo que o passageiro utilize o tempo de viagem para trabalhar, ler ou descansar, pode ser um atrativo. No mesmo sentido, os transportes não podem demorar [muito] mais tempo do que o carro particular para levar os passageiros do ponto A ao ponto B, sob pena de serem descartados.E, naturalmente, a questão da sustentabilidade ambiental tem sido também um fator decisivo na altura de escolher.Ora, em Lisboa, muitos destes fatores não se verificam: como já demos conta, os preços dos bilhetes únicos são pouco atrativos – portanto, para quem não é utilizador regular, pode mesmo não compensar escolher o metropolitano, comboio ou autocarro, em caso de necessidade; os transportes nem sempre passam a horários regulares e constantes – esperar 15 ou 20 minutos por um autocarro, ou mesmo 6 minutos por um metropolitano é um fator dissuasor – e, no final, costumam demorar mais tempo do que usar o carro particular, sobretudo no caso dos autocarros. Durante os horários noturnos, os tempos de espera são ainda maiores e, além disso, muitas das paragens são pouco abrigadas e confortáveis, o que também pesa no sentimento dos utilizadores que não querem passar mais tempo do que o estritamente necessário em trânsito. Para este tempo desproporcionado que se demora numa viagem em transporte público, contribui ainda uma recorrente falha de fiscalização da utilização das faixas rodoviárias exclusivas para os autocarros, mas também a ausência de percursos reservados apenas a transportes públicos, como existem em cidades dos Países Baixos, por exemplo. No fundo, tornar o uso dos carros particulares mais moroso e menos conveniente acaba por promover a utilização dos transportes públicos. Para isso, é importante ainda garantir que as redes de transportes servem efetivamente a população e as suas necessidades. Por exemplo, não é fácil convencer um morador de Telheiras a ir para o vizinho bairro de Benfica, em Lisboa, utilizando o metropolitano, uma vez que a viagem levará cerca de 30 minutos. Por outro lado, se o fizer de carro, não demorará mais de cinco. Já em Madrid, por exemplo, é possível atravessar a cidade de metro, em vários sentidos, em pouco mais de 20 minutos.. E os passes mensais?Os passes mensais têm sido um fator muito relevante para promover a utilização de transportes públicos, mas não é possível fazer uma comparação justa entre as várias ofertas que existem nas 27 capitais da União Europeia, uma vez que estes divergem muito na sua abrangência. Em Lisboa, o passe social – subsidiado e, portanto, com valores bastante atrativos – foi um importante impulsionador da utilização de transportes, sobretudo a partir de 2019, quando uma nova tabela determinou que a mensalidade se fixava nos €40 para utilização de todos os transportes na área metropolitana da capital, o que abrange as áreas de Sintra, Setúbal e Vila Franca de Xira. Para quem pretende usar apenas os transportes no município de Lisboa, o valor fixa-se em €30 por mês.A acrescer a estes tetos máximos, Lisboa tem ainda vários descontos para os residentes no município, como seja a gratuitidade para jovens até aos 23 anos e para pessoas com mais de 65 anos, bem como a possibilidade de fazer passes familiares, em que um agregado familiar paga um máximo de €80 pelo conjunto de títulos de transporte de que necessita.Ainda assim, o facto de muitas vezes a rede de transporte ser dispersa e pouco regular leva a que muitas pessoas procurem formas alternativas de transportes – não raras vezes, os carros particulares.No mesmo sentido, o facto de Lisboa estar em contraciclo com a Europa na adoção de medidas que retirem carros do centro da cidade não tem ajudado a fazer esta transição. Enquanto capitais como Paris, Bruxelas ou Amesterdão têm imposto fortes medidas restritivas à circulação automóvel, Lisboa continua sem aplicar medidas musculadas, sendo a falta de fiscalização dos infratores um dos casos mais referidos para que a utilização do automóvel continue a ser a regra.Dados do Upper Project – que acompanha a evolução das redes de transportes públicos na UE – mostram também que Lisboa está claramente abaixo da média das capitais da UE na utilização de transportes públicos, com os dados mais recentes a dar conta de que apenas 22% das viagens na cidade são feitas em transporte público, enquanto muitas capitais europeias ultrapassam os 40% ou mesmo os 50%. Segundo o mesmo organismo, a rede metropolitana lisboeta “é limitada” e os percursos dos autocarros são lentos, o que explica estes números. Acresce a isto o facto de o estacionamento ser relativamente barato na cidade, e de a área metropolitana ser difícil de servir, por falta de transportes regulares..Plano de mobilidade de Lisboa não tornou transportes públicos alternativa eficaz ao carro