Num bairro onde cada vez mais coletividades desaparecem pressionadas pela especulação imobiliária, membros da associação Sirigaita, com sede nos Anjos, decidiram transformar um imóvel vazio da Câmara Municipal de Lisboa em símbolo de protesto. Na manhã da última terça-feira, 19 de maio, os participantes da ação penduraram na fachada de um espaço devoluto da Rua dos Lagares, na Mouraria, uma faixa com a frase: "Tanto património vazio, tanta Sirigaita sem casa"."A cidade está a morrer. Todos os anos várias colectividades e associações fecham portas porque são despejadas ou porque não conseguem suportar aumentos abusivos de rendas. Enquanto isso, a Câmara assobia para o lado e mantém espaços vazios", afirmou Catarina Carvalho, membro da Sirigaita, em comunicado enviado à imprensa. Segundo a associação cultural, o espaço comercial em questão pertence à autarquia e encontra-se vazio desde 2019. Ao mesmo tempo, a Sirigaita enfrenta um processo judicial de despejo do imóvel que ocupa na Rua dos Anjos, onde desenvolve atividades culturais, debates, concertos e iniciativas comunitárias desde 2018.No comunicado, a associação acusa a Câmara de ignorar a crise enfrentada por coletividades e espaços culturais em Lisboa, num contexto de aumento das rendas, pressão imobiliária e desaparecimento progressivo de clubes recreativos e associações culturais dos bairros históricos da cidade. Nos últimos anos, diversas entidades tradicionais fecharam portas ou foram obrigadas a abandonar sedes históricas devido ao aumento das rendas e à transformação acelerada do centro da capital.Em reportagem publicada pelo DN em setembro de 2024, diversos dirigentes associativos já alertavam para o impacto da gentrificação sobre a vida coletiva lisboeta. Na ocasião, António Lucas, presidente da Assembleia Geral do Mirantense Futebol Clube, que quase perdeu a sede, resumiu o problema do aumento de rendas no centro de Lisboa: "Historicamente, as coletividades são frequentadas por quem é do bairro: se um dos dois tem de sair, seja a coletividade, como quase foi o nosso caso, seja os frequentadores, a coletividade acaba". A reportagem também mostrava as dificuldades enfrentadas por espaços históricos como a Academia Recreio Artístico (ARA), na Baixa de Lisboa, ameaçada de despejo, e o Grupo Desportivo da Mouraria, que conseguiu reorganizar-se financeiramente para evitar o encerramento das atividades.A própria Sirigaita havia relatado ao DN, na mesma oportunidade, a dificuldade de resistir à pressão imobiliária na zona dos Anjos e do Intendente. “Queremos fugir da lógica do mercado, é uma maneira de nos posicionarmos e resistirmos contra a especulação e a gentrificação nesse bairro”, afirmou um dos associados ao jornal na época. Além da Sirigaita, outros espaços culturais e recreativos das proximidades encerraram atividades ou enfrentaram despejos nos últimos anos, como os casos do Grupo Excursionista e Recreativo Os Amigos do Minho, na Rua do Benformoso, do Sport Club do Intendente e a Casa Independente no Largo do Intendente, e da Crew Hassan, na rua Andrade.Segundo o coletivo, a Câmara Municipal chegou a apresentar o espaço da Rua dos Lagares como possível alternativa para realojamento da associação no final de 2025. A proposta, no entanto, teria sido retirada poucos dias depois, sob a justificação de que o local estaria destinado a uma cantina social. A Sirigaita afirma que, desde então, nunca recebeu uma explicação clara sobre os motivos pelos quais o imóvel continua sem utilização.A coletividade ocupa há oito anos um um espaço na Rua dos Anjos anteriormente utilizado pela Mob - Associação Cultural. Desde então, tornou-se ponto de encontro para coletivos, artistas, grupos de base e movimentos ligados à habitação, cultura e organização comunitária.Segundo a associação, além da programação cultural regular, o espaço promove atividades de dinamização do bairro e fortalecimento comunitário numa zona profundamente transformada pela pressão turística e imobiliária dos últimos anos. O grupo também participa de a criação de diversos coletivos em defesa da habitação e da vida destas associações como o “Habita!”, a “Stop Despejos” e a “Porta a Porta” e promove constantes manifestações contra o aumento das rendas na região.“Há três anos que pedimos um espaço para continuar o nosso trabalho e há três anos que nos atiram areia para os olhos. Bem sabemos que este espaço pode ficar vazio por mais dez anos. Mas não o vamos permitir”, frisou Catarina Carvalho.O DN contactou a Câmara Municipal de Lisboa para obter esclarecimentos sobre o caso, mas não recebeu resposta até ao fecho deste texto.nuno.tibirica@dn.pt.Lisboa. Coletividades abrem nas férias para garantir contas em dia e dar sinais de resistência.Arte performativa como forma de protesto em Lisboa