“Temos um povo bravo.” São quase 11 da noite de 20 de agosto de 2025 quando o homem de cara enfarruscada diz estas palavras à repórter da RTP. É o 13.º dia de fogo na zona centro, e o presidente da Câmara do Fundão, que, apanhado pela tragédia de férias na América do Sul, se meteu num avião para poder lutar ao lado dos seus munícipes, responde assim à pergunta sobre o ânimo que pode faltar: “Vamos buscar força à força que as pessoas nos transmitem, com a sua alma guerreira.”Questionado sobre se se sentem esquecidos ou abandonados — recorde-se que houve grandes críticas à atuação do governo AD, liderado pelo partido a que pertence, o PSD, nos fogos do verão passado —, deflete: “Sentimo-nos unidos na luta. Não entro nisso. O mais importante é lutarmos e continuarmos unidos na luta.”Lutar e unir. É um bom lema para definir a missão que é dada a este homem, Paulo Alexandre Bernardo Fernandes, 53 anos, 24 dos quais na Câmara do Fundão, três mandatos seguidos — o limite legal — como presidente, e que este domingo o primeiro-ministro nomeou líder da Estrutura que vai dirigir a recuperação da zona afetada pela tempestade Kristin. Um homem que em setembro último, em entrevista ao Público assinalando a despedida da autarquia, fala do território como sua matéria-prima, mencionando que, quando lhe perguntam o que mais gostou de fazer na vida, responde “quando fui animador comunitário”. Foi assim, conta ao Público, “em aldeias aqui da zona menos densa, entre o Fundão, Pampilhosa da Serra, Oleiros, zonas com problemas estruturais do ponto de vista do valor social, do valor cultural, do valor económico”, que começou a trabalhar, aos vinte e tal anos, a meio dos anos 1990, saído de um curso de Relações Internacionais no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. O amigo Miguel Rainha, que depois seria, na autarquia, seu assessor para a cultura, fala ao DN dessa época e do Paulo Fernandes que conheceu, fundador da Rede das Aldeias Históricas de Portugal e da Rede das Aldeias de Xisto. “O primeiro projeto que ele faz, na Associação Beira Serra, onde nos encontrámos, é uma revelação daquilo de que é capaz. Havia uma tradição muito forte na zona onde ele foi trabalhar, a do Pinhal, nas pequenas aldeias que vão do Fundão até à Pampilhosa da Serra, que era a tradição do linho, de fiar e tecer linho. E ele faz um projeto para que haja de novo fiação. Começa a ir ao encontro das mulheres que faziam a tecelagem. Mas descobre que elas não se podiam dedicar a isso porque tinham de cuidar dos filhos. Então cria uma creche, com uma junta de freguesia, e arranja uma educadora de infância e uma carrinha de nove lugares que vai pelas aldeias a apanhar os miúdos. E assim as mulheres puderam trabalhar juntas, numa pequena oficina numa aldeia de xisto.” Faz uma pequena pausa enquanto do outro lado do telefone a jornalista acaba de teclar a fábula. “É uma coisa poética, não é? Ir buscar as crianças às aldeias.” É bonito, sim. Como algumas das frases que, na cerimónia da despedida da Câmara do Fundão, os funcionários e colaboradores lhe dedicam. “Onde havia silêncio, semeou oportunidades”; “É o tipo de pessoa que vê num problema um desafio interessante”; “Conhece o nome do pastor, como o do programador”.Pastores e programadores, porque se quis, lembra Miguel Rainha, valorizar “o mundo perdido dos pastores”, conseguiu também fazer do Fundão, como o próprio afirmava numa entrevista em 2023, “o primeiro concelho do país onde todas as crianças a partir dos seis anos têm aulas de programação informática no ensino público” e criar uma “Academia de Código” que “em dois anos permitiu converter cerca de 300 pessoas em situação de desemprego para programadores informáticos, com taxa de empregabilidade de 97%” — uma estratégia premiada pela Comissão Europeia em 2018.“Cada vez mais as questões decidem-se em múltiplas escalas, local, regional, nacional, europeia, mundial, global. Não existem territórios condenados ao insucesso nem pessoas descartáveis. O que muitas vezes temos é territórios sem uma estratégia alinhada com os desígnios e desafios do que é o desenvolvimento no século XXI. O que existe é muita gente desenraizada e com falta de faróis de esperança, onde todos contam e participam”, diz o próprio numa entrevista ao site Capeia Arraiana, em 2019. E cita Torga: “Qualquer lugar é o universo, se lhe tirarmos as paredes.”Diz Miguel Rainha que o facto de Paulo Fernandes ter conhecido a realidade das prisões — os pais dirigiram ambos penitenciárias na região centro, em Castelo Branco e Covilhã —, terá sido muito importante na sua formação, que parece também ter tido um cunho católico bastante forte (frequentou um colégio de freiras e foi escuteiro). Na citada conversa com a Capeia Arraiana, o ex-autarca, que se notabilizou no acolhimento e integração de imigrantes no seu concelho e se gaba de ali ter mais 15% de estrangeiros de setenta nacionalidades, fala, precisamente, da importância de pôr de parte os preconceitos e de como conhecer a realidade prisional o ajudou “na definição da liberdade”: “As oportunidades serão mais para todos quando àqueles que falhem e que fiquem mais vulneráveis lhe estendamos a mão para se reergam e possam ter uma segunda oportunidade. A liberdade é inclusiva, a liberdade é intrínseca ao indivíduo e maravilhosa na definição coletiva da comunidade, povo, aldeia, cidade ou país. A inspiração é sempre maior do que a inveja, a confiança será sempre maior que a desconfiança, a esperança sempre melhor que o medo.”Tendo entrado na Câmara do Fundão em 2002, como independente na lista do PSD, filiar-se-ia depois no partido. “Não é um boy, não é uma pessoa que tenha crescido dentro dos partidos”, assevera Miguel Rainha. “É um coordenador, um líder. Olha para tudo o que está à volta dele. E ninguém à volta dele fica para trás.”A comentadora da RTP Maria Castello-Branco, por motivos familiares ligada ao Fundão, define assim o político que, ao assinar o “manifesto dos não-socialistas por Seguro”, se identificou como “consultor”: “É um tipo de quem toda a gente gosta, que conhece toda a gente. Ao mesmo tempo preocupado com assuntos sociais e com a economia. Não é ideológico partidário mas tem uma ideologia humanista, de preocupação social muito forte.”Isabel Dias da Costa, empresária co-fundadora da Burel Factory, também não regateia elogios. “É um visionário. Dedica-se imenso, trabalha imenso, e é uma pessoa fora do nosso tempo. Desde cedo comecei a ver coisas a acontecer no Fundão que são exemplos únicos. Consegue antecipar os problemas, consegue perceber como desenvolver, nas várias áreas, comunidade. Consegue pensar a 10 ou 20 anos, algo que qualquer estratega tem de ter. Conseguiu preparar o Fundão para o futuro, é um exemplo.” E conclui: “Não podiam escolher melhor pessoa para a tarefa.” .Como nos filmes, mas sem ficção: como funciona o comando nacional da Proteção Civil.Uma a uma. As medidas do Governo para responder à tempestade Kristin.“As pessoas não sabem como reagir a um Aviso Vermelho”