Concentração total, ordem, um a falar de cada vez e muitos ecrãs: assim são as horas de reunião diária na sede da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) nos últimos dias. A sala é semelhante às que se veem nos filmes: ali são tomadas decisões muito importantes, todos os dias, principalmente em situações como a que Portugal vive desde 27 de janeiro, devido à depressão Kristin, que deixou um rasto de destruição e matou oito pessoas. Foi nesta sala que, na noite de 27 para 28 de janeiro, dezenas de pessoas passaram toda a madrugada a monitorizar a chegada da depressão e a tomar decisões.Com o estado de prontidão especial nível quatro, o mais elevado da escala, as reuniões diárias ganham uma nova dimensão. Participam mais pessoas, além daquelas que ali estão todos os dias, presencialmente ou à distância, como o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) e a E-Redes, por exemplo. “A E-Redes não costuma estar nas reuniões quando Portugal está em alerta por incêndios, mas participa nesta situação em que a forte chuva e os ventos afetam as telecomunicações”, explica ao Diário de Notícias Daniela Fraga, adjunta de operações nacional, que guiou a equipa do jornal durante a visita.Na manhã desta segunda-feira, 02 de fevereiro, decorreu mais uma reunião do Centro de Coordenação Operacional Nacional - que é ativado sempre que é necessário monitorizar, avaliar e gerir ocorrências graves, assegurando meios para situações de alerta ou calamidade. Presencialmente estavam mais de 30 pessoas, em representação de várias entidades como o Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) e o Exército Português, sob a liderança de Mário Silvestre, comandante da ANEPC.As informações ali discutidas partem também de outras áreas do edifício, localizado em Carnaxide. Aproximadamente 35 profissionais trabalham diariamente na sede nacional. E não há fins de semana, natais ou outros feriados: o trabalho é 24 horas por dia e os ecrãs nunca são desligados. Se faltar energia, geradores potentes garantem que tudo continua a funcionar.A sala onde decorrem os briefings diários é chamada de “aquário”, por ter paredes de vidro. Ao lado, existem outras duas salas igualmente importantes. Numa delas, mais pequena, situa-se a sala de apoio à decisão, com outro ecrã gigante, onde mais pessoas trabalham na triagem da informação, no apoio à logística e nas comunicações. Durante a reunião, Mário Silvestre desloca-se várias vezes a este local em busca de informações, tal como outras pessoas que estão no briefing..Sem distraçõesA equipa trabalha sob o comando do adjunto de operações — passe a redundância do termo. Nas mesas, há portáteis e telefones. Numa das portas, uma placa vermelha diz “silêncio”. Tal como no “aquário”, a atenção tem de ser total e não há espaço para distrações ou para olhar para algo sem importância no telemóvel, como notificações do Instagram ou do Facebook.No ecrã, consegue visualizar-se em tempo real onde e quantos meios estão no terreno, a previsão do tempo e as fotos e imagens enviadas por quem está no terreno, o chamado teatro de operações. Esta área, também com paredes de vidro e uma porta de cada lado, fica estrategicamente no meio, entre a grande sala de tomada de decisão e a sala onde toda a informação chega.É a chamada Sala de Operações do Comando Nacional da ANEPC. As secretárias estão lado a lado, em formato de meia-lua. À frente e ao lado, mais ecrãs: radares do IPMA em direto, monitorização do volume de água nas albufeiras, informações sobre quem acionar em cada situação, a lista de todas as ocorrências em curso no território e o site do Sistema Europeu de Intercâmbio de Informações Radiológicas Urgentes (ECURIE). Na parede ao lado, estão televisões, cada uma sintonizada num canal.Nesta sala trabalham operadores de telecomunicações e, consoante a situação, contam com reforço de bombeiros. É o que acontece desde a semana passada, com o aviso da depressão Kristin. Os telefones nunca param, sejam chamadas dos comandos sub-regionais ou de pessoas que querem oferecer ajuda. Também funciona o contrário: dali são feitas chamadas para fazer chegar a informação ao terreno e articular as necessidades de cada ocorrência. “É uma sala muito importante, porque recebe tudo o que está a acontecer no terreno e tem também um papel fundamental na articulação entre os diferentes patamares”, explica Daniela Fraga.É desta sala, por exemplo, que é enviada a mensagem SMS com os alertas da proteção civil, o “AvisoPROCIV”. Antes do envio, é necessário analisar vários relatórios e as informações recebidas. Nas três salas, duas palavras são essenciais: comunicação e cooperação. “Trabalhamos sempre em cooperação e com base na comunicação que nos chega e na forma como a transmitimos cá dentro”, explica a adjunta.Uma das entidades principais é o IPMA. “Quer nestas alturas de inverno, com situações climáticas adversas, quer no verão, a informação disponibilizada pelo IPMA é determinante para a tomada de decisões operacionais”, ressalta. A partir destas comunicações são tomadas decisões, por exemplo, sobre quantos e de onde serão enviados meios de reforço e quais as necessidades de cada zona do território.Apesar de, nas três salas principais, existirem muitos ecrãs nas paredes, também não faltam mapas. Caso haja algum problema informático, os mapas servem de apoio. Isso exige que, quando ocorre uma situação grave, o mapa também seja atualizado, destaca o adjunto de operações nacional Bruno Borges. “Apesar de termos geradores, trabalhamos com sistemas informáticos que podem falhar, por isso fazemos também de forma manual, por prevenção”, ressalta. Os “pontos” fixados no mapa estão organizados por ordem de gravidade dos prejuízos, com um “1” em Leiria, onde a devastação foi maior..DesafiosA ANEPC possui cinco adjuntos de operações nacionais, que trabalham no mesmo gabinete. Daniela Fraga é a única mulher e está no posto há um ano e meio. A área de topo é bastante masculina, sendo apenas três mulheres na estrutura de comando, do nível nacional ao sub-regional. Neste grupo de adjuntos, as valências somam-se, já que cada um tem uma experiência profissional diferente. Fraga, por exemplo, tem experiência em incêndios rurais e em formação, por ter trabalhado na Escola Nacional de Bombeiros (ENB). “A aprendizagem entre todos nós é constante, ainda mais em situações críticas”, vinca.Mas cada situação é uma situação. “Seguimos uma linha, faz-se o ciclo de emergência, mas há situações que podem ser melhoradas. No fim, fazemos o relatório, a avaliação geral, e vemos o que podemos fazer de forma diferente numa próxima ocorrência. Estamos em constante avaliação e mutação, porque as situações também mudam”, detalha..No caso da depressão Kristin, por ser um fenómeno climático, não é possível prever a intensidade com exatidão, apenas fazer previsões. “Estivemos na noite de 27 para 28 a acompanhar. Por mais que tenhamos previsões, são fenómenos cuja dimensão e hora exata não conseguimos controlar. Inicialmente estava previsto entrar entre as 3h00 e as 6h00, depois passou para entre as 4h00 e as 7h00, e veio a verificar-se entre as 6h00 e as 9h00”, explica Daniela Fraga. A depressão registou ventos recorde de 209 quilómetros por hora. “E ainda podemos dizer que tivemos o fator sorte: se tivesse acontecido durante o dia, os estragos seriam muito maiores”, acrescenta.Quando o fenómeno ocorre, tudo tem de ser estratégico. “Estamos a falar de ocorrências em que não conseguimos colocar os meios de imediato. Temos de esperar que passe para depois intervir. Em Leiria, por exemplo, houve corpos de bombeiros destruídos pela tempestade. Uma esquadra da Polícia de Segurança Pública (PSP) sofreu danos, tal como instalações da Guarda Nacional Republicana (GNR). Foi preciso aguardar condições de segurança para projetar os meios que já estavam pré-posicionados em locais estratégicos”, explica.E como fica o lado emocional nestas situações? “Acabamos por ficar tão imbuídos nas operações, porque somos treinados para isso, para olhar objetivamente para o fenómeno, que o foco é total”, relata. Alexandre Penha, outro dos cinco adjuntos, considera que a experiência ajuda. “Nós, que trabalhamos neste mundo das emergências, vamos criando isto na nossa vida profissional. Quando entramos nesta lógica, é como se entrássemos numa bolha. Tentamos racionalizar ao máximo, isolar o ruído e ser racionais naquilo que é o despacho de mesa e o teatro de operações”, afirma. Mas quando tudo passa e o turno termina, é diferente. “Temos de gerir bem e estar atentos à saúde mental. Também temos a perceção, enquanto grupo, de que quando um de nós está mais fragilizado, compensamos, trocamos para descansar, porque senão não funciona.”Veja abaixo mais fotos, pelas lentes do fotorjornalista do DN Gerardo Santos: .amanda.lima@dn.pt.Queda de grua sobre cinco prédios na Figueira da Foz obriga a realojamento de seis pessoas.“As pessoas não sabem como reagir a um Aviso Vermelho”