O ensino superior (ES) em Portugal registou “uma expansão assinalável nas últimas décadas, aproximando-se dos padrões europeus e afirmando-se como um fator determinante de valorização no mercado de trabalho”. É neste contexto que o estudo Ensino Superior e emprego jovem em Portugal: tendências, resultados e comparações internacionais, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, apresenta várias conclusões que mostram as mais-valias de prosseguir estudos após a conclusão do ensino secundário. A percentagem de jovens adultos no ensino superior quadruplicou nos últimos 25 anos, passando de 11% no final da década de 1990, para 43%, em 2024, aproximando o país da média da União Europeia (44%). Os dados mostram também que o número de novos diplomados atingiu níveis recorde, em 2024, com mais de 100 mil pessoas a concluírem um curso superior nesse ano.“As licenciaturas continuam a ser a qualificação mais comum (58%), sendo os mestrados a segunda maior parcela (33%). E para os diplomados, as mais-valias são significativas. O estudo revela que, por comparação com os trabalhadores que concluíram apenas o ensino secundário, os licenciados ganham, em média, mais 28% e os mestres mais 40%. Estas vantagens são visíveis logo no início de carreira e ampliam-se com a experiência profissional.Em declarações ao DN, Luís Catela Nunes, coordenador da investigação, destaca a questão salarial, adiantando que “por cada euro investido pelos estudantes no ensino superior, um diplomado recupera, ao longo da vida 14 euros”. “É um retorno financeiro muito mais alto do que no resto da Europa”.As taxas de empregabilidade também variam consoante o grau académico. Quem conclui o mestrado alcança taxas de emprego de 88% no prazo de um a dois anos e de 93% ao fim de cinco anos, em linha com a média da União Europeia. “A curto prazo, os licenciados registam uma taxa de emprego inferior (75%), mas ao fim de 5 anos, a taxa converge para o mesmo patamar”, acrescenta o estudo.Alunos do ensino profissional têm uma taxa de emprego inicial mais altaOs recém-diplomados do ensino secundário profissional têm uma taxa de emprego inicial mais alta do que a dos diplomados dos cursos científico-humanísticos (72% vs 56%). Estes dados, explica Luís Catela Nunes, estão em linha com o resto dos países da União Europeia (UE). “Os cursos profissionais estão desenhados com o objetivo da entrada no mercado de trabalho”, salienta. Para o coordenador do estudo, o grande risco está na não continuidade dos estudos numa fase posterior à entrada no mundo laboral. “Devemos apostar nos cursos profissionais, mas temos de incentivar estes jovens para que voltem a estudar. Caso contrário, continuarão com salários mais baixos ao longo da vida”, alerta. Isto porque, a diferença de salário entre os dois tipos de diplomados do ensino secundário é residual (1%) mas, a longo prazo, o crescimento salarial de ambos fica muito abaixo do observado entre os trabalhadores com ensino superior. E aqui, Portugal encontra-se abaixo dos restantes países da UE. “Na comparação internacional, em muitos outros países os alunos do ensino profissional, sobretudo no Norte da Europa, vão trabalhar, mas voltam a estudar passado alguns anos. Em Portugal, isso é raro e a aprendizagem ao longo da vida é fundamental”, sublinha. Entre os alunos dos cursos científico-humanísticos do ensino secundário, 76% prosseguem para o ensino superior, enquanto entre os estudantes do ensino secundário profissional, essa transição ocorre para apenas 22%. O contexto familiar influencia fortemente a escolha do percurso, com 47% dos estudantes de famílias sem formação superior a optarem pelo ensino profissional, por comparação com apenas 20% dos estudantes que têm pelo menos um dos pais com um diploma de ensino superior.Modelo de financiamento do ensino superior está sob pressãoO estudo alerta para aspetos preocupantes no que toca ao modelo de financiamento do ensino superior e ao investimento das famílias. Apesar de os custos em termos absolutos serem baixos, os custos diretos em percentagem do PIB per capita são elevados, por comparação com a maioria dos países europeus, “o que faz das despesas iniciais um obstáculo significativo à entrada de muitos estudantes no ensino superior”. Os investigadores concluem que o modelo português, que combina financiamento público com propinas, “está sob pressão”.As despesas de funcionamento destas instituições, em termos médios por estudante, estão 35% abaixo da média da UE. Do lado do financiamento, as famílias suportam 30% dessas despesas, face a 13% na UE. Parte desse investimento é recuperado pelos diplomados. “Por cada euro investido, recuperam, ao longo da vida, 14 euros. É um retorno financeiro muito mais alto do que no resto da Europa”, salienta Luís Catela Nunes. Contudo, é necessário “financiamento suficiente para que as bolsas de estudo respondam às restrições de liquidez e aos custos iniciais dos estudantes de baixos rendimentos”.E se a dúvida dos estudantes na altura de tomar decisões tiver por base os cursos com maior retorno financeiro ou a garantia de empregabilidade, faltam dados oficiais. Para os investigadores, deve ser criado um sistema estatístico nacional que integre dados da educação e do mercado de trabalho, permitindo monitorizar percursos, emprego e salários por curso, “com informação transparente e acessível a estudantes e famílias e, em paralelo, a decisores políticos na definição e afetação de recursos públicos”.O estudo Ensino Superior e emprego jovem em Portugal: tendências, resultados e comparações internacionais, aponta os cursos superiores nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM) como os que proporcionam os salários médios mais elevados, destacando-se os cursos de Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), Matemática e Estatística e Engenharia. Os cursos nas áreas da Saúde, Gestão e Administração e Direito também oferecem salários elevados para quem tem mestrado. Já os mestres em áreas como Educação e Serviços Sociais ganham, em média, cerca de metade do salário dos mestres em TIC. .Alunos do interior e com menos recursos continuam a ser os mais penalizados no acesso ao ensino superior