“O Governo não escondeu nenhum parecer. Nunca permiti, nunca dei azo que alguém me possa acusar de falta de transparência. Que não fique aqui a suspeição de que houve um parecer escondido.”Foi em tom exaltado que a ministra com o pelouro da Igualdade, Margarida Balseiro Lopes, ouvida esta terça-feira no parlamento, respondeu às insistentes perguntas dos deputados da esquerda — PS, Livre, PCP e BE — a propósito do parecer da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género sobre os projetos de lei sobre identidade e autodeterminação de género, cujo acesso foi até agora negado a jornalistas e que os próprios parlamentares tinham requerido, sem sucesso. Segundo esta governante, que assumiu o compromisso de enviar o documento para o parlamento, nem se trata de um parecer — será “uma análise técnica”, cujo pedido é “automático quando há um processo legislativo”. E, frisou, “o Governo não tem, por princípio, a obrigação de partilhar com a Assembleia da República a documentação que recebe das entidades que dependem diretamente de si”. Balseiro Lopes, que recusou na audição quer explicitar o conteúdo do parecer quer pronunciar-se sobre as propostas dos projetos de lei em causa — o que lhe valeu um remoque da deputada única do PAN, Inês Sousa Real, que disse ter saudade da coragem da política que enquanto deputada votou várias vezes contra a sua bancada —, frisou igualmente que o parlamento poderia ter solicitado à CIG um parecer sobre os projetos, concluindo: “Quem podia pedir não pediu, e agora acusam o Governo de esconder um parecer.” Estas declarações não impediram no entanto que os deputados continuassem a insistir no tema, com a deputada do PCP, Paula Santos, e exprimir perplexidade: “Se vai agora enviar o parecer, porque não enviou antes?”"Claro que a homossexualidade não é uma patologia"Recorde-se que depois de, a 26 de março, o Público ter noticiado a existência do parecer da CIG e o facto de quer o Governo quer a CIG recusarem disponibilizá-lo, ou sequer comunicar as respetivas conclusões, àquele jornal, alegando como justificação estar em curso no parlamento um processo legislativo, o BE, o Livre e o PS pediram acesso ao mesmo, sem sucesso.O grupo parlamentar do Livre chegou até a requerer, a 2 de abril, acesso ao documento invocando a Lei de Acesso aos Documentos Administrativos (LADA).Isso mesmo tinha já feito o DN a 26 de março junto da CIG, tendo o prazo de 10 dias úteis previsto na LADA para a resposta da entidade requerida chegado ao fim a 10 de abril, sem que a Comissão desse, como era legalmente obrigada, resposta formal ao pedido. Em vez disso, a respetiva assessoria de comunicação remeteu para o Governo, alegando que “a matéria está centralizada no gabinete da ministra da Igualdade” e informando que a assessoria de Imprensa desta iria contactar o DN (o que não sucedeu até esta terça-feira). Malgrado não ter aceitado pronunciar-se sobre os três projetos de lei sobre identidade e autodeterminação de género (do PSD, do Chega e do CDS-PP) aprovados na generalidade a 20 de março, nem sobre se, face à exigência, contida nos diplomas, de parecer médico sobre essa mesma identidade de género, considera a transexualidade uma doença (questão da deputada do PS Isabel Moreira, que ignorou), Margarida Balseiro Lopes foi, em contraste, clara sobre a petição que deu entrada na Assembleia da República solicitando a revogação da criminalização das terapias de conversão: "Nem percebo a que propósito isto vem, claro que [a homossexualidade] não é uma patologia.".Comissão para a Cidadania ignora lei de acesso do cidadão a documentos do Estado.Identidade de Género: PSD quer de volta a lei “inaceitável” de 2011 que Cavaco vetou