Navio continua ao largo de Cabo Verde, mas ministro da Saúde já confirmou que vai seguir caminho para Tenerife.
Navio continua ao largo de Cabo Verde, mas ministro da Saúde já confirmou que vai seguir caminho para Tenerife. FOTO: Elton Monteiro

Hantavírus. “Se fosse em Portugal, Madeira e Açores tinham condições para que o navio atracasse”, defende Filipe Froes

Há dias que o governo central de Espanha negoceia com o das Canárias a possibilidade de o navio cruzeiro com surto de hantavírus atracar nesta comunidade. As Canárias rejeitaram por questões de segurança da população. Mas Madrid conseguiu que o navio atraque em Tenerife em breve. Se fosse em Portugal, o pneumologista que coordenou a comissão de risco da Ordem dos Médicos na pandemia da covid-19, diz que “haveria condições para receber o navio”.
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Ao fim de 48 horas, parece que o governo central de Espanha conseguiu o que era expectável, que o navio cruzeiro MV Hondius, que regista um surto inédito de Hantavírus, atraque nas Canárias, até para que os 14 espanhóis que seguem a bordo possam ser tratados, devendo os restantes passageiros seguir para Madrid para depois serem transportados por avião para os Países Baixos, de onde é originário este navio cruzeiro.

De acordo com o que anunciou esta quarta-feira, dia 6, a ministra da Saúde espanhola, Monica Garcia, o cruzeiro deverá atracar em Tenerife "dentro de três dias", apesar de o presidente executivo das Canárias ter rejeitado a escala no arquipélago e pedido uma "reunião urgente" ao primeiro-ministro Pedro Sánchez. Fernando Clavijo sustentava a sua decisão no facto de considerar não haver "informações suficientes para manter a calma e garantir a segurança da população das Ilhas Canárias", como afirmou à rádio Onda Cero.

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Isto, apesar de o governo de Madrid ter informado que as Canárias, que eram o destino final do navio cruzeiro, depois de sair da Argentina com 149 passageiros de 23 nacionalidades, teriam de receber a embarcação, por “não existir risco para as Canárias” e até pelos protocolos existentes com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e com o Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC), do ponto de vista do interesse da saúde pública.

Ao DN, Filipe Froes, médico intensivista e pneumologista e também ex-coordenador da comissão de risco da Ordem dos Médicos para a pandemia da covid-19, diz não comentar as questões políticas espanholas, mas que, “do ponto de vista técnico, Portugal estaria preparado para que o navio atracasse e para que fossem tomadas todas as medidas de segurança de acordo com os protocolos internacionais”. Sublinhando mesmo: “As regiões autónomas da Madeira e dos Açores teriam condições para que o navio atracasse, nomeadamente através de utilização de equipamento de proteção individual, para que fosse feita a identificação de casos afetados, de quem interveio junto destes doentes, isolamento de casos suspeitos e de contacto direto próximo”.

Como diz, “não se estaria a fazer nada mais nada menos, ou nada de diferente, do que que se fez durante a pandemia da covid-19 e a seguir as regras protocolares de surtos. Por isso é que digo que tanto a Madeira como os Açores estariam habilitados a permitir que o navio atracasse”.

Recorde-se que até agora são conhecidas três mortes devido a infeções respiratórias, provocadas por este hantavírus, da espécie que permite o contágio entre humanos, e mais três casos em tratamento, um doente em Zurique e outros dois na África do Sul. No entanto, há mais cinco casos suspeitos, os restantes passageiros, segundo as autoridades espanholas, “estão assintomáticos”.

O especialista português salienta ainda que no caso desta espécie de hantavírus, “há uma particularidade”. Ou seja, “a transmissão entre pessoas requer contacto próximo e prolongado e isso só ocorre, geralmente, quando há sintomas, quando as pessoas têm febre, prostração ou tosse. É nesta fase inicial da doença, nos primeiros três a cinco dias, que há maior risco de transmissão, antes muito dificilmente são transmissoras”.

Neste caso especifico, Filipe Froes explica que “as pessoas que correm maior risco de adquirir a doença são as que tiveram contacto direto, próximo e prolongado com os casos infetados, os cuidadores, por exemplo, os cônjuges, os parceiros sexuais e até os profissionais de saúde que vão ter de efetuar procedimentos a estes doentes”.

A OMS e as autoridades sanitárias tentam agora traçar o cerco epidemiológico, isolando todos os casos que possam ter estado em contacto com doentes. Por isso mesmo, a OMS está a tentar localizar os mais de 80 passageiros que partilharam o voo com a mulher neerlandesa, de 69 anos, que esteve a bordo do MH Hondis e que fez a viagem da ilha de Santa Helena até Joanesburgo, na África de Sul, antes de falecer.

Por agora, ainda não há certezas em relação à origem do contágio, mas a OMS suspeita que o paciente zero pode ter sido contagiado ainda em terra, na Argentina.

Filipe Froes reconhece que, numa situação destas, “o risco nunca é zero, mas diria que é mínimo, atendendo às características do vírus, que é de baixa transmissibilidade entre humanos, requerendo, como já expliquei, um contacto próximo e prolongado durante a fase de sintomas, sobretudo a fase inicial”, relembrando ainda que “a grande generalidade dos hantavírus não se transmitem por contacto entre humanos. A espécie detetada é a única em que até agora há evidência deste contacto”.

A diretor-geral da Saúde, Rita Sá Machado, também veio afirmar que o surto de hantavírus num navio cruzeiro ao largo de Cabo Verde, que já fez três mortos, é uma “situação circunscrita”, que representa atualmente um baixo risco para Portugal.

Em comunicado, era referido que a DGS “está a acompanhar a situação com a OMS, no âmbito das suas funções e do Regulamento Sanitário Internacional. “A situação atualmente é uma situação circunscrita e por isso mesmo é uma situação que atualmente desempenha um baixo risco para Portugal”, afirmou Rita Sá Machado. “Não existem medidas preventivas para Portugal. Existem sim medidas que estão a ser equacionadas, neste momento, dentro do navio cruzeiro”, declarou.

O navio MV Hondis que se encontrava ao largo de Cabo Verde vai continuar o seu caminho, confirmou também já esta quarta-feira o primeiro-ministro caboverdiano.

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