Acampada de Lisboa
Acampada de LisboaJOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

Habitação: Acampada de Lisboa canta e dança em dia sem polícia

Depois das recentes cargas policiais e destruição de tendas, as últimas noite e madrugada foram marcadas pela tranquilidade e na Praça D. Pedro IV (Rossio).
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Os manifestantes da acampada de Lisboa pela habitação concentrados esta noite no centro da capital cantaram, dançaram e gritaram palavras de ordem contra o Governo, num dia marcado pela ausência total da polícia.

Depois das recentes cargas policiais e destruição de tendas a quarta-feira foi marcada pela tranquilidade e na Praça D. Pedro IV (Rossio). Do lado voltado para o teatro D. Maria, onde estão montadas cerca de 60 tendas, o final da tarde foi sereno, alguns "moradores" sentados à porta a conversar, outros de telemóvel na mão, outros a pintar, alguns de pé.

Mais barulho quando se ligaram os microfones para a habitual assembleia popular, gritos e palmas quando carros que passavam buzinavam. E quando de um lado se apresentavam e votavam propostas e se alertava para a chuva, do outro lado, Paulo, o voluntário de serviço na zona de informações não parava.

"Aceitam doações em numerário?", "Onde é que há mais iniciativas como esta?", "Como posso ajudar?", e ele respondia, anotava num caderno as coordenadas dos futuros voluntários, recebia donativos também. Atrás dele alguns sacos-cama e colchões para tendas, agora que o frio chegou e a chuva está para chegar.

À Lusa explica que todas as ajudas são bem-vindas, que são todas aceites, e garante que chegam de homens e mulheres, jovens e menos jovens. Trazem dinheiro, alimentos, bebidas, objetos como sacos cama, como constatou a Lusa. Ou trazem apenas um nome, um contacto e a vontade de ajudar.

Ao mesmo tempo a assembleia popular aprovou propostas, uma delas a de participar no domingo na manifestação contra a construção de um hotel no quartel da Graça, em Lisboa.

E gritou-se que a luta pela habitação é não apenas dos portugueses mas também de quem vive e trabalha em Portugal, numa crítica a declarações do secretário de Estado Rui Armindo Freitas, que disse que estrangeiros que participem em manifestações e não cumpram a lei podem ficar sem autorização de residência.

Na noite de quarta-feira as "mães da acampada" subiram também ao palco a desafiar os presentes para uma vigília na quinta-feira na praça dos Restauradores, durante uma hora (19:00, mesma hora no Porto), em protesto pela violência policial.

Num dia sem polícias foram poucas as referências às forças de segurança nas intervenções, uma ou outra depois durante o período musical da noite, a cargo primeiro de Gregory Ras, G Ras, um músico de reggae, de origem húngara e um ativista social que vive em Portugal, e depois com Juana Na Rap, Joana Santos, uma rapper portuguesa, do Monte da Caparica, que canta em crioulo, autora do álbum "Sob pressão", já deste ano.

E também MJ Soul Jah, na verdade Luís Semedo Mendes, de Lisboa, filho de pais cabo verdianos, autor do álbum "Sukundi na Undi", que vem do mundo da música de intervenção e da poesia.

E quando no final se passou a música "Grândola vila morena" do outro lado da estátua já muitos estavam nas suas tendas, alguns na conversa com os "vizinhos" da frente.

Os atuais protestos contra a crise na habitação tiveram início no Porto a 10 de outubro e expandiram-se a Lisboa, mas já motivaram também concentrações noutras cidades.

A intervenção da PSP para dispersar as acampadas e retirar as tendas no Rossio, em Lisboa, e na Praça D. João I, no Porto, culminou em cargas policiais e arremesso de objetos, provocando mais de duas dezenas de feridos entre manifestantes e polícias.

Os manifestantes exigem, entre outras coisas, a reversão da nova lei do arrendamento, um travão à aquisição de habitação por parte dos fundos imobiliários e tetos "verdadeiramente acessíveis" à renda.

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