Há 114 anos, Portugal correu atrás do eclipse. E alguém conseguiu filmá-lo
Foi há mais de um século, a 17 de abril de 1912, que Portugal assistiu a um eclipse solar que mobilizou o país e que também ocorreu numa quarta-feira. As páginas do DN contam como foi a preparação para o fenómeno, que tinha sido observado 12 anos antes, em 1900. Dias antes, o jornal já alertava: “não é mau que todos se precavenham com vidros fumados, etc” (...) “Cremos que esta notícia não é de molde a aterrar os nossos leitores que vivam até a essa data. O terror dos eclipses que a instrução das massas felizmente fez desaparecer pouco a pouco, explica-se muito bem quando se não está ao corrente do que são esses grandiosos fenómenos”.
Na noite anterior, o jornal acompanhou a saída de uma multidão da estação do Rossio, em Lisboa. O destino mais procurado era Ovar, onde o eclipse poderia ser melhor observado. “Na estação do Rocio, à hora da partida do nosso comboio para o norte, às 23 h., observava-se movimento notável. Indivíduos de todas as classes misturam-se e confundem-se nas carruagens e nas plataformas; conversam, tratam de suas bagagens, trocam as últimas impressões com amigos e parentes tendo acudido à despedida”, lê-se no jornal de 18 de abril de 1912.
Além de Ovar, Esmoriz e Penafiel estavam entre os pontos escolhidos pelas missões científicas, que procuravam as melhores condições para acompanhar o momento de maior ocultação do Sol. Em Ovar instalaram-se equipas portuguesas e estrangeiras, com astrónomos russos, ingleses e franceses, definidos pelo jornal como “sábios estrangeiros”, a juntarem-se aos investigadores nacionais.
A Universidade de Coimbra enviou uma missão dirigida pelo astrónomo Costa Lobo. Também participaram investigadores ligados à Escola Naval e à recém-criada Faculdade de Ciências de Lisboa, enquanto o Observatório Astronómico de Lisboa acompanhava o fenómeno. Os aparelhos foram distribuídos por várias estações de observação em Ovar: havia telescópios, lunetas, aparelhos fotográficos e instrumentos destinados a estudar o Sol durante os breves minutos em que a Lua passaria diante dele. O evento atraiu uma enorme multidão e comitivas de cientistas nacionais e estrangeiros, que se juntaram na vila para registar o histórico eclipse.
Entre telescópios, aparelhos fotográficos e instrumentos científicos, havia também uma tecnologia ainda relativamente nova: uma câmara cinematográfica preparada para registar o eclipse.
Entre telescópios, aparelhos fotográficos e instrumentos científicos, havia também uma tecnologia ainda relativamente nova: uma câmara cinematográfica preparada para registar o eclipse.
Naquele dia, por volta das 11h30, o fenómeno atingia uma das suas fases mais impressionantes, como descreveu o DN. O Sol apresentava-se reduzido a um “crescente muito agudo”. A luz diminuía, algumas estrelas começavam a aparecer e a temperatura baixava. As aves, perturbadas pela alteração súbita das condições, procuravam os ninhos.
O momento foi notório não só pelo fenómeno em si. Pela primeira vez em Portugal, houve um registo do eclipse em película. Nogueira Ferrão, tenente do Exército e fotógrafo amador, utilizou um aparelho cinematográfico adaptado ao telescópio da Universidade de Coimbra, em colaboração com Costa Lobo, para filmar as diferentes fases do eclipse. O registo viria a ser considerado o primeiro filme científico português.
O eclipse de 17 de abril de 1912 ficava, assim, como um dos grandes acontecimentos astronómicos registados pelo DN no início do século XX. Mais de um século depois, a diferença está no que na época parecia impensável: transmissões em direto de várias partes do mundo, câmaras especiais e telemóveis que permitem guardar pessoalmente a memória do fenómeno.

