Fenómeno ocorre quando existe um alinhamento perfeito entre o Sol, a Lua e a Terra.
Fenómeno ocorre quando existe um alinhamento perfeito entre o Sol, a Lua e a Terra.Foto: NASA/X

Da teoria de Einstein aos efeitos na natureza: a ciência por detrás do eclipse total

Ao DN, Filipe Ferreira da Silva, Professor do Departamento de Física da NOVA FCT, explica por que Portugal esperou mais de um século pelo fenómeno e o que os eclipses ainda podem ensinar à ciência.
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Espetacular, perigoso, marcante e, sobretudo, raro. O eclipse total do Sol que Portugal se prepara para observar na próxima quarta-feira, 12 de agosto, pode ser imaginado de muitas formas, mas é a raridade que dá o tom da expectativa em torno do fenómeno. Afinal, passaram-se mais de cem anos desde a última vez que um eclipse deste tipo foi visível em Portugal continental - e para perceber por que estes encontros são tão pouco frequentes num mesmo ponto do planeta é preciso começar pela sua geometria.

"Um eclipse total implica que nós, do ponto de vista do observador, consigamos que a Lua tape completamente o Sol", explica Filipe Ferreira da Silva, Professor do Departamento de Física da NOVA FCT, em entrevista ao DN. "Para que isso aconteça, a Lua tem de estar perfeitamente alinhada com a Terra e com o Sol", complementa o físico.

Como a órbita da Lua tem uma inclinação de cerca de cinco graus em relação à da Terra, esse alinhamento não acontece todos os meses. E, quando acontece, a sombra projetada pela Lua percorre apenas uma faixa relativamente estreita do planeta. É por isso que Portugal continental teve de esperar desde 1912 para voltar a assistir a um eclipse total. Nesta quarta-feira, recorde-se, apenas uma pequena faixa do nordeste ficará no caminho da sombra capaz de ocultar completamente o Sol.

No restante território, o eclipse será parcial, embora em algumas regiões a ocultação se aproxime muito dos 100% - e é aí que uma diferença que parece mínima ganha enorme importância. Isto porque, para quem estiver fora da faixa de totalidade, mesmo que apenas uma pequena parte do disco solar permaneça descoberta, olhar diretamente para o fenómeno continua a representar um risco.

"Basta haver 1% da superfície do Sol descoberta para haver muita luz a chegar àquele ponto da Terra", alerta Filipe Ferreira da Silva. "Mesmo que seja só 1%, essa intensidade é muita. E nós estamos a olhar diretamente para o Sol", diz, ressaltando que esta é uma precaução que deve existir sempre. Afinal, "não é seguro, em qualquer dia, olharmos para o Sol, não só durante o eclipse".

No entanto, segundo o professor, durante o eclipse o perigo aumenta precisamente pela tendência natural para manter os olhos fixos no fenómeno durante mais tempo. A exposição pode provocar danos nas células dos olhos e, em situações mais graves, comprometer a visão. "Não se está a exagerar. É uma proteção que deve ser feita", reforça.

A recomendação passa, portanto, pela utilização de óculos próprios para eclipses, certificados segundo a norma internacional ISO 12312-2 - os óculos de sol comuns não são suficientes. Quem não tiver acesso à proteção adequada - como é o caso de grande parte da população - pode optar pela observação indireta, através da projeção da imagem do Sol numa superfície. "Há vários mecanismos muito simples que se podem fazer com uma caixa de cartão, por exemplo, que com uma simples pesquisa na internet é possível encontrar", explica.

De acordo com o físico, muito antes de atraírem milhares de pessoas para as faixas de totalidade, os eclipses já serviam como verdadeiros laboratórios naturais para a ciência. Um dos episódios mais conhecidos aconteceu em 1919. Durante um eclipse total observado a partir de Sobral, no estado do Ceará, no Brasil, e da ilha do Príncipe, em São Tomé e Príncipe, uma equipa liderada pelo astrónomo britânico Arthur Eddington conseguiu observar estrelas que apareciam visualmente próximas do Sol.

"Era preciso ter a luz do Sol toda tapada para se conseguir observar a luz emitida por essas estrelas", explica o professor. As medições permitiram verificar que a luz sofria um desvio ao passar nas proximidades do Sol, tornando-se uma das primeiras grandes confirmações observacionais das previsões feitas por Albert Einstein na teoria da relatividade geral.

Mais de um século depois, os eclipses continuam a ter utilidade científica, apesar dos enormes avanços tecnológicos na observação do espaço. A ocultação do disco solar permite estudar regiões que normalmente ficam escondidas pela intensidade da sua luz e compreender melhor a composição e a dinâmica da atmosfera solar. "Conseguimos, inclusive, fazer eclipses artificiais durante várias horas para estudar precisamente essa parte do Sol que não conseguimos observar quando temos a luz direta", explica.

Impacto terrestre

E nem tudo o que haverá para observar nesta quarta-feira estará no céu. Na faixa de totalidade, a interrupção abrupta da radiação solar terá também efeitos no ambiente, com uma queda repentina da luminosidade e uma descida da temperatura. Essas alterações fazem com que o acontecimento desperte também o interesse de outras áreas da ciência. "Há vários cientistas, da botânica, da zoologia e da biologia, a estudar também esses fenómenos associados ao eclipse", conta o professor, referindo que algumas espécies podem reagir à escuridão inesperada como se o período do dia tivesse mudado subitamente.

Por isso, durante aqueles breves segundos de escuridão, não será de estranhar que uma ave se recolha ou que um animal de hábitos noturnos comece a dar sinais de atividade. Afinal, um eclipse total não é apenas um espetáculo visual, mas também uma alteração repentina do ambiente, sentida por tudo aquilo que se encontra sob a sombra da Lua naquele momento.

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