Do lado de fora, as paredes de vidro do restaurante Tantura apresentam marcas de vandalismo, com frases antissemitas grafitadas. Lá dentro, o ambiente da última noite de jantares foi um misto de emoção e tristeza. Durante mais de sete anos, o restaurante do casal israelita Itamar Eliyahu e Elad Budenshtiin esteve sempre cheio. Mas tudo mudou a partir de 7 de outubro de 2023. O restaurante passou a ser um alvo.“A guerra começou e começaram muitos problemas. No dia 8 de outubro tivemos aqui um grafíti. E desde então aconteceu mais algumas vezes, na casa de banho e noutros sítios. E o mais problemático foi nas redes sociais. Colocaram-nos más avaliações mesmo sem nunca terem vindo ao restaurante”, conta ao DN o sócio-proprietário Itamar Eliyahu, durante a noite do último serviço, no sábado. “Depois, as pessoas marcavam mesa, vinham, sentavam-se e iam-se embora. Tivemos algumas noites com 40 a 50 pessoas assim, sentadas e depois a sair. E conseguimos sobreviver durante dois anos e meio”, complementa.O ambiente da última noite de portas abertas foi de comoção. As mesas estavam repletas de clientes, com a agenda cheia após o anúncio, nas redes sociais, do fecho do espaço. Algumas pessoas foram apenas levar flores ou dar um abraço de solidariedade, recebidos com lágrimas pela equipa, formada por imigrantes de várias partes do mundo: Paquistão, Índia, Sri Lanka, Moçambique e América Latina..Segundo Eliyahu, nem mesmo o anúncio do fecho escapou ao ódio. A notícia foi amplamente divulgada em Portugal, em Israel e noutros países, com comentários nas redes sociais a celebrar o encerramento. “Espero que todos os estabelecimentos que representam esta entidade diabólica em todo o mundo sucumbam da mesma forma”, escreveu uma internauta. .“Não sabíamos das alegações sobre um massacre de palestinianos em Tantura”. Para o empresário israelita, tudo é “dececionante” e diz não ter culpa da guerra. “Estou muito desiludido. Compreendo a democracia e a liberdade de expressão. Está tudo bem. Ser contra um governo, tudo bem. Mas não contra restaurantes, chefs ou pessoas”, sublinha ao jornal..“Fomos punidos por algo de que não temos culpa". Restaurante Tantura fecha após ataques antissemitas.Há quem diga que os ataques contra o Tantura se devem ao nome do restaurante, uma aldeia palestiniana que foi alvo de um massacre em 1948. Itamar Eliyahu defende-se, explicando que o nome foi escolhido por ser o local onde ele e o marido se casaram, um momento não só de amor do casal, mas também o início do percurso na cozinha, que mais tarde se transformou num negócio. . “Não sabíamos de um massacre, para nós é uma praia, um lugar lindo, onde nos casámos”, afirma. O chef sublinha que defende a paz em todo o mundo, mas que isso não depende, dele nem das pessoas que trabalham no Tantura. “E eu espero, espero mesmo, sonho que o Médio Oriente viva em paz. Mas não posso fazê-lo sozinho”, destaca.AntissemitismoO fecho do Tantura é mais um sinal do aumento do antissemitismo em Portugal e na Europa. Num artigo de opinião de João Taborda Gama, publicado no DN a 9 de janeiro, o coordenador nacional da Estratégia Europeia para Combater o Antissemitismo e Promover a Vida Judaica relata que Portugal teve mais de 100 casos de antissemitismo recentemente. O Tantura foi um dos identificados. Os relatos foram recolhidos por comunidades judaicas, a partir do pedido da estratégia.Taborda Gama defende que são necessários dados fiáveis e uma definição clara sobre antissemitismo para combater o fenómeno. “Sem dados, sem critérios e sem coragem de enfrentar a realidade, não há clareza. E sem clareza, não há combate eficaz ao antissemitismo”, escreveu.Já Ester Mucznik, escritora e especialista em temas judaicos, não é otimista em relação ao assunto. “Eu já não tenho ilusão. É muito difícil, porque o antissemitismo não é uma coisa do Governo. Os governos podem até, digamos, proibir, fazer várias coisas deste tipo. Mas isso não resolve problema nenhum, porque é muito mais complexo. O antissemitismo tem milénios, o ódio ao judeu é uma coisa muito antiga”, vinca, em entrevista ao DN. Segundo Mucznik, o fecho do Tantura é “uma pena”, não só por ser um “excelente restaurante”, mas pelo motivo do encerramento. “Os judeus, pelo mundo, não devem, de forma nenhuma, ser atacados por algo que não fizeram. Portanto, não tem o menor sentido, ou seja, o único sentido que eu encontro nisto é, de facto, o antissemitismo”, salienta.Com o fecho do Tantura Lisboa, o casal lançou um GoFundme para arrecadar dinheiro e abrir um novo empreendimento numa quinta, na região do Ribatejo, onde vão recomeçar, mais uma vez. “Em Israel ensinam-nos a sermos fortes, a vida lá é dura. Temos de recomeçar várias vezes na vida. É o que vamos fazer. Quero dizer obrigado a todos os nossos trabalhadores e clientes que nos visitaram. Esperamos ver todos no futuro projeto”, finaliza o israelita.. amanda.lima@dn.pt.Antissemitismo em Portugal: documentar para agir.CDS quer “condenação veemente” de “crimes de ódio” de “polos opostos”