Portugal poderá enfrentar uma das mais graves crises de sempre no sistema educativo, com a necessidade de recrutar cerca de 20 mil professores até 2029/2030 e 39 mil até 2034/2035. Ao mesmo tempo, há cada vez menos jovens interessados em seguir a profissão, o que compromete a renovação geracional nas escolas. Rute Perdigão, professora da Escola Superior de Educação Jean Piaget de Almada alerta para uma realidade que pesa neste contexto: mesmo com o aumento recente no número de inscritos em cursos de formação (11% entre 2020/2021 e 2022/2023) os diplomados continuam a ser insuficientes e registam-se taxas de desistência entre 28% e 35%.Para a especialista, apesar das necessidades identificadas, as respostas têm ficado aquém. Os contratos-programa assinados com estabelecimentos de Ensino Superior previam 9677 vagas até ao final da década, relembra, um número que considera insuficiente para responder ao volume de aposentações esperado. Também as medidas mais recentes para reforçar a formação de professores são vistas como tardias e limitadas.A quebra de atratividade da carreira docente é um dos fatores centrais para explicar o problema. Durante anos, salários pouco competitivos, precariedade e dificuldades associadas à deslocação e à habitação afastaram potenciais candidatos. A isto soma-se “a perceção de uma profissão exigente, com elevada carga burocrática e reduzido reconhecimento social”. “Há um longo caminho a percorrer no que à atratividade da profissão docente diz respeito”, salienta Rute Perdigão, apontando que ainda há cursos de formação de professores com vagas por preencher na segunda fase do acesso ao Ensino Superior. No ano letivo de 2023/2024, cerca de um terço das vagas dos mestrados em ensino ficaram sem colocados.O sistema enfrenta também a saída de um número significativo de docentes para a reforma até ao final da década, sem que existam novas gerações em número suficiente para garantir a substituição. Para a especialista, trata-se de um problema estrutural que “resulta de anos de desinvestimento”. “Este problema estrutural e sistémico tem sido alvo de um desinvestimento contínuo, de largos e vastos anos de governos sucessivos”, afirma ao DN.A docente alerta ainda para as consequências visíveis nas escolas, “com alunos a ficarem sem aulas durante períodos prolongados”. Rute Perdigão lamenta não existirem dados detalhados que permitam perceber a real dimensão do fenómeno, nomeadamente quantas turmas ou disciplinas foram afetadas. “Precisamos de ter dados estatísticos concretos, reveladores das dificuldades que as escolas perpassam e ultrapassam diariamente”, defende.A falta de entendimento entre Governo e sindicatos é outro dos fatores que tem condicionado a resposta ao problema. Segundo Rute Perdigão, apesar de existir espaço para o diálogo, nem sempre são alcançados consensos que permitam soluções estruturais, ficando frequentemente por resolver questões essenciais para a valorização da profissão.A qualidade do ensino é também uma preocupação crescente. A entrada de profissionais sem formação pedagógica completa, ao abrigo de regimes excecionais, levanta dúvidas sobre a preparação dos docentes e o impacto nas aprendizagens dos alunos. A docente questiona mesmo se o sistema está a conseguir manter os níveis de exigência que caracterizavam a escola portuguesa.Apesar de um aumento recente no número de inscritos em cursos de formação, os diplomados continuam a ser insuficientes e registam-se taxas de desistência entre 28% e 35%. Mesmo entre os que concluem a formação, muitos acabam por não ingressar ou por abandonar precocemente a carreira. A precariedade, as condições salariais e a falta de perspetivas de progressão continuam a pesar na decisão. “Uma coisa é certa, quem vai para professor, atualmente, só pode ainda ir por ser resiliente e ter vontade de fazer a diferença na vida dos outros e até quem sabe… do mundo”, afirma.Para inverter a tendência, Rute Perdigão defende uma resposta mais ambiciosa e articulada, que passe pela valorização efetiva da carreira docente, pela melhoria das condições de trabalho e por políticas de recrutamento mais flexíveis. Entre as propostas, destaca a necessidade de eliminar barreiras à progressão, reforçar incentivos à fixação de professores e apostar em modelos de organização escolar mais dinâmicos.A especialista alerta ainda que medidas de curto prazo, como a entrada de profissionais sem habilitação adequada, já foram no passado associadas à degradação da qualidade do ensino. Por isso, considera essencial apostar numa estratégia sustentada que garanta não só mais professores, mas também docentes bem preparados.Num momento em que o sistema educativo enfrenta fortes pressões, a mensagem da especialista é clara: sem medidas estruturais que tornem a profissão mais atrativa, será difícil garantir o futuro da escola pública. .Falta de professores: diretores escolares ligam a docentes para aceitarem ir dar aulas .Centenas de professores sem vagas para se profissionalizarem