As duas faces da história: à barbárie do tráfico negreiro francês no século XVIII contrapõe-se hoje o Memorial da Abolição da Escravatura em Nantes, onde um armeiro privado cuja família recorria ao trabalho escravo mostrou arrependimento e exigiu ao Estado francês que quebrasse o tabu do passado colonial.
As duas faces da história: à barbárie do tráfico negreiro francês no século XVIII contrapõe-se hoje o Memorial da Abolição da Escravatura em Nantes, onde um armeiro privado cuja família recorria ao trabalho escravo mostrou arrependimento e exigiu ao Estado francês que quebrasse o tabu do passado colonial.MAC / Gemini AI

Escravatura: Macron quebra tabu e admite reparações

Enquanto a diplomacia se recalibra, a sociedade civil francesa quebra o silêncio com pedidos de desculpa privados, provando que a queda do tabu colonial já ultrapassou as portas dos gabinetes.
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O Presidente francês, Emmanuel Macron, sinalizou este mês uma abertura inédita para discutir o pagamento de reparações históricas pela escravatura transatlântica, numa tentativa de travar o isolamento diplomático de França perante o "Sul Global". Esta mudança de postura surge após a controversa abstenção francesa numa resolução das Nações Unidas e de um encontro decisivo com a liderança do Gana, marcando uma rutura com a política de décadas de Paris, que se limitava a gestos simbólicos e à restituição de bens culturais, conforme foi noticiado pelo semanário Expresso.

A pressão internacional sobre o Eliseu intensificou-se após o dia 25 de março de 2026, quando a Assembleia-Geral da ONU adotou uma resolução histórica que classificava a escravatura como o "crime mais grave contra a Humanidade". A decisão da diplomacia francesa de se abster neste voto provocou uma onda de indignação entre aliados africanos e nos territórios ultramarinos de França, sendo vista como uma falha moral significativa.

Segundo fontes diplomáticas, este episódio obrigou o governo de Macron a uma recalibração estratégica para evitar a perda definitiva de influência no continente africano, reportou o jornal francês Le Monde.

No centro desta reviravolta está a reunião de 8 de abril entre Macron e o presidente do Gana, John Dramani Mahama, em que o líder francês terá admitido, pela primeira vez, um diálogo que ultrapassa a mera devolução de objetos de arte.

O governo do Gana confirmou que Paris se mostra agora disponível para discutir medidas concretas para mitigar desigualdades económicas herdadas do período colonial e combater o racismo estrutural, segundo revelou o portal LSI Africa. Esta abertura é considerada um passo histórico, dado que a França sempre evitou compromissos financeiros diretos relacionados com o passado esclavagista.

Até ao momento, a política oficial francesa focava-se exclusivamente na "restituição", termo utilizado para a devolução de obras de arte e restos humanos, evitando sistematicamente o conceito de "reparação", que implica indemnizações financeiras ou perdão de dívidas.

No entanto, a análise dos bastidores diplomáticos sugere que Macron está a utilizar esta nova linguagem como uma ferramenta de realpolitik para responder às exigências de uma coligação de estados africanos que exige um roteiro financeiro para a dívida histórica, detalhou a análise do Le Monde.

Este movimento político é acompanhado por uma pressão crescente dentro da própria sociedade francesa, exemplificada por gestos de arrependimento vindos do setor privado. No passado dia 18 de abril, em Nantes, um descendente de uma das maiores famílias de armadores da cidade que recorriam ao trabalho escravo pediu desculpas públicas e apelou ao Estado para avançar com medidas de justiça histórica.

Este gesto simbólico foi amplamente divulgado e reforçou a ideia de que o tabu sobre o passado colonial francês está a desmoronar-se em várias frentes simultaneamente, noticiou a Agence France-Presse.

As duas faces da história: à barbárie do tráfico negreiro francês no século XVIII contrapõe-se hoje o Memorial da Abolição da Escravatura em Nantes, onde um armeiro privado cuja família recorria ao trabalho escravo mostrou arrependimento e exigiu ao Estado francês que quebrasse o tabu do passado colonial.
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