CP suprimiu 235 comboios na véspera da greve geral
FOTO: Miguel Pereira/Global Imagens

CP suprimiu 235 comboios na véspera da greve geral

Divergência entre centrais sindicais e mobilização de setores qualificados desafiam a reforma legislativa do Governo.
Publicado a
Atualizado a

A CP suprimiu 235 dos 1061 comboios previstos até às 19h00 desta terça-feira, 2 de junho, no que foi o primeiro impacto da greve geral marcada para esta quarta-feira pela CGTP. Um protesto contra a reforma laboral proposta pelo Governo, que não foi seguido pela outra central sindical, a UGT.

Ou seja, mais de 20% das ligações previstas para a véspera da paralisação não se realizaram. Segundo a CP tratou-se de 29 comboios de longo curso, 80 regionais e 23 urbanos de Lisboa, 97 urbanos do Porto e seis de Coimbra.

A explicação avançada para esta situação foi a circunstância de as equipas terem de finalizar os percursos, ou os turnos, já dentro do período da greve geral.

Outro meio de transporte que foi afetado ainda esta terça-feira foi o Metro de Lisboa pois a empresa anunciou que deixaria de existir circulação após as 23h00.

Ainda no transportes ferroviário, a ligação entre as duas margens do Tejo também estava em risco para esta quarta-feira, pois apesar de a Fertagus garantir estar preparada para manter a operação normal, estará sempre dependente da adesão à greve, tendo mesmo publicado um horário alternativo nas suas plataformas.

A REN, que gere as redes de distribuição de alta e muito alta tensão de eletricidade e do gás, estará a operar com serviços minímos equivalentes, segundo a empresa, a um dia de fim de semana ou feriado.

No espaço aéreo, o cenário é de igual incerteza, com as estimativas operacionais a apontarem para cerca de 500 voos sob forte pressão ou em risco de cancelamento, afetando diretamente a TAP e as operadoras de baixo custo em pleno arranque da época turística, precisamente num momento em que os aeroportos nacionais já operam muito perto do limite da sua capacidade física de processamento de passageiros.

Ao nível da Administração Pública e dos serviços do Estado, os indicadores históricos da Direção-Geral da Administração e do Emprego Público evidenciam que esta greve surge num contexto de forte aceleração da conflitualidade. Os avisos prévios de greve na Função Pública registaram uma subida acentuada de $157\%$ no primeiro trimestre de 2026 face ao período homólogo, impulsionados pela insatisfação de carreiras altamente qualificadas que contestam a estagnação salarial e a falta de progressão profissional. A mobilização da Federação Nacional dos Professores, que estendeu o protesto a investigadores e docentes universitários, ameaça inviabilizar a realização das provas de aferição de Português do 6.º ano, agendadas precisamente para esta quarta-feira. Esta paragem no Ensino Básico coloca as escolas num dilema logístico complexo e arrasta milhares de famílias para um clima de grande incerteza sobre a viabilidade das avaliações.

Na banca pública, o sindicato STEC apelou ao fecho em bloco dos balcões da Caixa Geral de Depósitos, enquanto no setor industrial a atenção se vira para a Autoeuropa, onde a comissão de trabalhadores prevê uma paragem total do complexo fabril de Palmela, o maior polo exportador do setor automóvel do país, paragem que ameaça quebrar as cadeias de fornecimento e distribuição de dezenas de pequenas e médias empresas associadas. Contudo, esta frente unida contra o programa “Trabalho XXI” contrasta com a fratura evidente no topo das centrais sindicais. Em entrevista à RTP, o secretário-geral da UGT, Mário Mourão, demarcou-se formalmente do protesto, classificando a iniciativa da CGTP como extemporânea e prematura pelo facto de decorrer antes de a Assembleia da República debater em pleno o diploma laboral proposto pelo Executivo, evidenciando um fosso estratégico profundo sobre o momento político ideal para a contestação de diplomas no parlamento.

Esta divisão na cúpula sindical contrasta com o perfil dos trabalhadores mobilizados no terreno, onde os dados da DGAEP e os relatos acompanhados pela RTP e pela Lusa revelam uma adesão massiva do chamado colarinho branco.

Na Administração Pública, o setor da Educação e Ciência lidera a conflitualidade de forma avassaladora, com os docentes a representarem, historicamente, cerca de 99% de todas as paralisações registadas nesta área do Estado. Ao estender o protesto a investigadores, doutorados e docentes do Ensino Superior, a contestação contra o programa “Trabalho XXI” deixa de ser um exclusivo do operariado tradicional para se fixar na dita precariedade intelectual, um novo ator político que promete paralisar as avaliações nacionais e redefinir o equilíbrio de forças no parlamento.

CP suprimiu 235 comboios na véspera da greve geral
Portugal é um dos países europeus que menos greves faz
CP suprimiu 235 comboios na véspera da greve geral
Primeiro-ministro acredita que "esmagadora maioria" vai trabalhar na Greve Geral
CP suprimiu 235 comboios na véspera da greve geral
Greve geral. Médicos e enfermeiros esperam que só serviços mínimos funcionem
Diário de Notícias
www.dn.pt