A Polícia Judiciária (PJ) realizou esta terça-feira, 26 de maio, buscas na empresa Águas de Gaia (ADGAIA), no âmbito de uma megaoperação de combate ao crime económico em Vila Nova de Gaia. Empresários e altos quadros da empresa municipal estão entre os 13 detidos nesta operação denominada "Águas Turvas", cuja investigação começou há mais de um ano. Os detidos são "suspeitos da prática de crimes de corrupção ativa, corrupção passiva, abuso de poder e branqueamento, estando em causa um valor global de 8 milhões de euros", indica a PJ em comunicado sobre a operação, na qual foram cumpridos cerca de 30 mandados de busca."A investigação, em curso há cerca de 17 meses, incide sobre um amplo esquema organizado de criminalidade económico-financeira, desenvolvido através da conjugação de esforços entre empresários do setor privado e funcionários da Empresa Municipal Águas de Gaia, com poderes decisórios relevantes no âmbito da contratação pública e sua respetiva execução", lê-se na nota.Fonte judicial adiantou à Lusa que os detidos são sete funcionários da ADGAIA, três dos quais com “cargos de chefia, de direção e de coordenação e com poder decisório”, um ex-funcionário desta empresa municipal que agora é empresário, e mais cinco empresários ligados à construção civil e à venda de materiais.Segundo a mesma fonte, em causa está um presumível “sistema organizado e enraizado de contratação pública, em que os arguidos funcionários controlavam todo o processo do início ao fim”, em benefício dos empresários arguidos, “vendendo-se” a troco de contrapartidas dadas pelos privados, desde financeiras, viagens, almoços ou a realização de obras nas suas casas.De acordo com "factos indiciados", explica a PJ, os intervenientes neste esquema "estabeleceram, ao longo do tempo, um quadro relacional estável, funcionalmente orientado para a manipulação do processo decisório administrativo, no qual a contratação pública foi instrumentalizada como meio de obtenção de vantagens patrimoniais e não patrimoniais ilegítimas, com existência de práticas reiteradas e coordenadas destinadas a condicionar decisões, moldar procedimentos, antecipar resultados e neutralizar mecanismos de controlo, através da utilização de canais informais de comunicação, da exploração de relações funcionais e pessoais e da criação de expectativas de benefício futuro".No âmbito do inquérito titulado pelo DIAP Regional do Porto, estão ainda a ser investigadas "suspeitas da instrumentalização" da empresa municipal Águas de Gaia "para fins privados, traduzindo-se numa apropriação ilegítima de meios públicos, materiais e humanos, em violação dos deveres funcionais que cabia aos funcionários garantir, resultando num claro prejuízo para o erário publico"."Entre os detidos contam-se empresários de vários setores de atividade e altos quadros" da Águas de Gaia, "bem como outros funcionários daquela entidade, que, desde o ano de 2024, foram responsáveis pela celebração e execução de procedimentos de contratação pública com as sociedades suspeitas", segundo a PJ..Apreendidas viaturas de alta cilindrada e dezenas de milhares de euros em dinheiro. Durante a operação da PJ, foram apreendidos, além de elementos probatórios, "viaturas de alta cilindrada, saldos bancários e instrumentos financeiros e três armas de fogo, bem como dezenas de milhares de euros em dinheiro".Os 13 detidos vão agora ser presentes ao Tribunal de Instrução Criminal do Porto para primeiro interrogatório judicial de arguido detido e aplicação das medidas de coação, informou a polícia de investigação criminal. .Luís Filipe Menezes: Oposição PS deve "assumir as suas responsabilidades". Em reação às diligências da PJ nas Águas de Gaia, a autarquia divulgou uma declaração em vídeo nas redes sociais Facebook e Instagram, no qual o presidente, Luís Filipe Menezes (PSD/CDS/IL), ladeado pelos membros do seu executivo, diz estarem "felizes com isto"."Ninguém é culpado antes de ser devidamente investigado e julgado. Contudo, já existem indícios fortíssimos que a Águas de Gaia era um antro de ilegalidades, se não de corrupção, como havia também focos de corrupção noutras empresas municipais (...). Queremos que tudo seja investigado", afirma o autarca, referindo que os factos em causa são anteriores ao seu mandato, pelo que a oposição PS, partido do ex-presidente do município, Eduardo Vítor Rodrigues, deve "assumir as suas responsabilidades"..Buscas "não envolvem políticos municipais de nenhum mandato", diz ex-presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia. Pouco depois, e também na rede social Facebook, Vítor Rodrigues escreveu que as buscas "não envolvem políticos municipais de nenhum mandato" e que "nunca houve reporte de indícios do que se comenta"."Alegadamente, envolvem comportamentos de técnicos que já o eram antes de eu lá chegar e que continuaram a sê-lo depois de eu sair. As eventuais tentações da vida pública só podem ser contidas pela verdade e pela responsabilidade. E, muitas vezes, pagam os políticos pelo que os técnicos e dirigentes fazem", assinala..Em setembro de 2025, o então presidente do Conselho de Administração da Águas de Gaia (ADGAIA), Miguel Lemos Rodrigues, que já se encontrava em suspensão de funções, foi acusado pelo Ministério Público (MP) de corrupção e de outros crimes económicos, por alegada viciação das regras da contratação pública.Além de Miguel Lemos Rodrigues, o MP acusou mais oito arguidos – três empresários e cinco pessoas coletivas – pela alegada prática de crimes de abuso de poder, de participação económica em negócio, de corrupção ativa e passiva e de tráfico de influência.Neste processo, instaurado em 2019, está em causa a atividade de Miguel Lemos Rodrigues, enquanto presidente do Conselho de Administração da ADGAIA e a sua relação com empresas da área da comunicação e imagem, no âmbito da contratação pública.Com Lusa