A notícia saiu no Público a 23 de junho de 2024. É sobre a publicação de um livro sobre o movimento #metoo, de denúncia de assédio sexual, que fora apresentado 10 dias antes na Feira do Livro. Durante essa apresentação, narra o jornal, “uma mulher que ia a passar foi compelida pelo tema e ficou a assistir. No final, estava em lágrimas, profundamente perturbada, nos braços de uma das autoras. Na assistência estavam especialistas em apoio à vítima que a ajudaram — uma vítima de violência sexual, uma transeunte, um momento evocativo da dimensão do problema.”Mais de ano e meio depois, uma das especialistas de apoio à vítima referidas pelo Público, e que pede para não ser identificada (vamos chamar-lhe Ana), recorda-se nitidamente daquela mulher jovem, muito bonita, que no fim da apresentação do livro #MeToo Um Segredo Muito Público viu agarrada a uma das autoras a chorar. “Fui ter com elas e disponibilizei-me a ouvi-la, levei-a dali para fora e tive de a agarrar porque não conseguia estar de pé, estava muito frágil. Disse-me que tinha passado por uma situação daquelas, de assédio, que tinha sido assessora no parlamento, o nome de quem a tinha assediado e que toda a gente sabia no grupo parlamentar.”Mas, prossegue Ana, “não falámos muito de quem a assediara. Ela falou principalmente dela, e de como as pessoas lhe diziam que não desse importância, que os homens são assim. São comportamentos que as pessoas não querem ver, não querem reconhecer.” Suspira. “Disse que se tinha demitido por não aguentar mais.”Também Maria João Faustino, uma das quatro autoras do livro (as outras são Sílvia Roque, Rita Santos e Júlia Garraio), se lembrou de imediato daquele encontro quando esta segunda-feira recebeu por WhatsApp o print de uma publicação do Instagram acusando o candidato presidencial da Iniciativa Liberal (IL), João Cotrim de Figueiredo, de assédio sexual em contexto laboral. Reconheceu na autora, a jurista Inês Bichão, a mulher que naquela tarde de verão se tinha agarrado a ela a chorar. “Nunca esqueci porque foi muito expressiva, muito impactante. Sucede muito mulheres virem ter connosco depois de uma palestra sobre assédio sexual e violência de género porque sentiram aquilo como um gatilho, mas ela impressionou-me muito por estar tão aflita. Agarrou-me nas mãos e disse ‘Eu sei que isto é verdade, porque me aconteceu’”, conta Faustino, que entretanto narrou o episódio num post de Facebook, ao DN. “Ela ia a passar na feira e apanhou a conversa por acaso. Disse-me que lhe tinha acontecido no trabalho, que tinha ficado sem trabalho. Comigo não avançou nomes. Estava a chorar tanto que nem estava muito articulada.”.Ex-assessora da IL diz que denunciou alegado assédio de Cotrim em 2023. Partido garante que não houve queixa interna . “Tinha de dizer a alguém o que se tinha passado”Ao ver a partilha da story que Inês Bichão publicou em privado, e “só para amigos chegados”, no Instagram, relatando ter sido assediada por João Cotrim de Figueiredo, mas que rapidamente se tornou pública, Ana diz ter sentido “uma coisa muito estranha": "Pensei que tinha de dizer a alguém o que se tinha passado, que isto não apareceu do nada.” Relata ainda que na altura encaminhou a jovem "para uma associação de apoio a vítimas de violência de género". Julga porém que "ela acabou por não denunciar externamente.” Ficou no entanto com a ideia de que a jovem tinha feito uma exposição interna relatando o assédio. Em comunicado enviado esta quinta-feira à Agência Lusa, Inês Bichão, que foi exonerada a seu pedido, em outubro de 2023, do cargo de assessora parlamentar, relata isso mesmo: “Os factos em causa foram reportados em sede interna no decurso de 2023.” . O que se sabe dos “factos em causa” é o que consta da story privada de Instagram que acabou no domínio público, e na qual são reproduzidas frases que Cotrim lhe teria alegadamente dirigido (como “Excelente trabalho, só falta abrires as pernas comigo”; “de que tipo de homens gostas?”; “Mais grossa ou mais comprida?”).À época (2023), a chefe de gabinete do Grupo Parlamentar era Mariana Leitão, a atual líder do partido, a quem o DN questionou esta terça-feira sobre se tinha tido conhecimento das ditas alegações de assédio, e por que meio. Não houve qualquer resposta. No mesmo dia, o jornal também questionou o grupo parlamentar do partido sobre se existira alguma denúncia interna relativa às alegações em apreço e, em caso afirmativo, se fora instaurado qualquer inquérito ou averiguação, e com que resultado. A resposta foi: “A Iniciativa Liberal não vai alimentar uma campanha suja que decorre neste momento por via das eleições presidenciais.” O DN insistiu: recusam esclarecer se as alegações de assédio foram denunciadas internamente? “Não temos mais nada a acrescentar”, disse o partido. .Alegação de assédio na IL. Partido não esclarece se existiu denúncia interna. Iniciativa Liberal nega denúncia interna, ex-assessora vai “exercer direitos em sede própria”Esta quinta-feira, no entanto, na sequência da publicitação do comunicado de Inês Bichão, a Iniciativa Liberal exarou um comunicado no qual nega a existência de uma denúncia interna, continuando a tratar o assunto como uma manobra de campanha: "É completamente falso que tenha havido qualquer queixa interna ou reporte, formal ou informal, sobre o candidato Presidencial João Cotrim Figueiredo. A Iniciativa Liberal rejeita visceralmente uma campanha suja que lança acusações muito graves sem qualquer evidência ou prova." Já o candidato presidencial da IL, questionado por jornalistas, em Gondomar, sobre se já falara com Mariana Leitão para saber se existira alguma denúncia interna, negou: “Eu só posso interpretar que não era visado, se não ter-me-iam dito.” Anunciando que na tarde desta quinta-feira iria dar entrada uma queixa por difamação contra a ex-assessora parlamentar, acusou os jornalistas de serem “completamente instrumentalizados para usar este caso para dinamitarem a campanha”, e concluiu: “Não me podem obrigar a falar deste tema durante os próximos dois dias, que são os últimos dias de campanha.” No seu curto comunicado, Inês Bichão, que é atualmente assessora do gabinete do secretário de Estado das Comunidades Portuguesas (facto referido por João Cotrim de Figueiredo mal o caso rebentou) frisa que a sua publicação privada no Instagram foi difundida contra a sua vontade: “No passado dia 12 de janeiro, foi ilicitamente difundido, sem o meu consentimento, conteúdo de natureza privada, originalmente partilhado em contexto restrito e não público. Essa divulgação está a ser instrumentalizada em contexto de campanha eleitoral, contra a minha vontade, no âmbito da qual não tive nem tenho qualquer intervenção.” Lembrando que “a divulgação indevida de conteúdos privados, a exposição não consentida do meu nome e da minha imagem, bem como as ameaças e tentativas de intimidação de que tenho sido alvo, configuram ilícitos juridicamente relevantes”, Inês Bichão diz não pretender “alimentar esta polémica”, mas parece anunciar que vai agir judicialmente: “Não deixarei de exercer os meus direitos em sede própria, na qual a veracidade dos factos será apreciada nos quadros e com as garantias que o Estado de Direito assegura.” Nota: Texto alterado às 17H15 para acrescentar o nome de uma autora - Rita Santos - do livro #MeToo Um Segredo Muito Público. .Ex-assessora da IL diz que denunciou alegado assédio de Cotrim em 2023. Partido garante que não houve queixa interna .Alegação de assédio na IL. Partido não esclarece se existiu denúncia interna.Cotrim nega ter assediado ex-assessora parlamentar da IL. Gouveia e Melo diz que Seguro “nem controlou o PS”