Gisèle Pelicot enfrentou o julgamento, com a descrição de tudo o que lhe aconteceu, de porta aberta e cabeça erguida, para dar força e esperança a outras vítimas.
Gisèle Pelicot enfrentou o julgamento, com a descrição de tudo o que lhe aconteceu, de porta aberta e cabeça erguida, para dar força e esperança a outras vítimas.EPA / Guillaume Horcajuelo

Abusos sexuais: Gisèle Pelicot lança memórias de uma década de horror

O livro de Gisèle Pelicot, lançado em mais de 20 línguas, narra uma década de abusos, transformando o seu trauma num manifesto de esperança e coragem para sobreviventes em todo o mundo.
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O lançamento mundial do livro de memórias de Gisèle Pelicot - a mulher francesa que durante quase uma década foi drogada pelo marido e violada por dezenas de homens - decorreu esta terça-feira, 17 de fevereiro, segundo foi noticiado pela Associated Press. A publicação, feita em 22 línguas diferentes, revela detalhes do horror que viveu e envia uma poderosa mensagem de esperança e apoio às vítimas de abuso sexual.

A obra, intitulada A Hymn to Life, Shame has to Change Sides (em tradução livre, Um Hino à Vida, a Vergonha Tem de Mudar de Lado), surge como um marco na luta contra a violência sexual, consolidando Pelicot como um ícone global de resiliência. Em declarações ao canal nacional francês France 5, na semana passada, Pelicot explicou a motivação por trás do livro: “Queria que a minha história ajudasse os outros.”

O título da obra reflete a postura que a autora assumiu durante o julgamento histórico de 2024, que chocou o mundo. Pelicot tornou-se um símbolo de coragem ao abdicar do seu anonimato para expor os crimes cometidos pelo seu marido, que a drogava para que outros homens pudessem abusar do seu corpo inerte. O caso resultou na prisão do marido, Dominique Pelicot, e de dezenas de outros agressores.

Reconstrução sobre as ruínas

No livro, Pelicot descreve o seu processo de sobrevivência e a jornada de autodescoberta após o trauma. “Hoje estou melhor, e este livro permitiu-me envolver-me numa autorreflexão, fazer um balanço da minha vida”, afirmou na sua primeira série de entrevistas desde o julgamento.

“Tive de tentar reconstruir-me sobre este campo de ruínas. Hoje, sou uma mulher que se mantém de pé”, sublinhou. A francesa enfatizou que a sua mensagem é dirigida a todas as mulheres que atravessam períodos complicados nas suas vidas.

O caso de Gisèle Pelicot provocou um debate profundo sobre a "cultura da violação" em França e no estrangeiro. A sua decisão de falar publicamente, aliada à dignidade e força demonstradas em tribunal, impressionou observadores internacionais e impulsionou movimentos de defesa dos direitos das mulheres. O lançamento simultâneo em 22 idiomas sublinha a relevância universal da sua história e o papel que Pelicot desempenha agora, como uma voz de liderança contra a submissão química e a violência doméstica.

As raízes do horror: uma década de silêncio e a descoberta

O calvário de Gisèle Pelicot estendeu-se por quase dez anos, entre 2011 e 2020. Durante este período, o seu então marido, Dominique Pelicot, administrava-lhe sistematicamente doses elevadas de ansiolíticos e sedativos (como o Temesta) misturados na comida e na bebida. Uma vez inconsciente, Dominique convidava dezenas de desconhecidos — recrutados em fóruns de internet — para a violarem na própria casa do casal, em Mazan.

Gisèle, que sofria de perdas de memória inexplicáveis e fadiga extrema, chegou a acreditar que padecia de Alzheimer ou de um tumor cerebral. A verdade só veio à tona em setembro de 2020, devido a um incidente fortuito: Dominique foi detido por um segurança num supermercado, em Carpentras, enquanto filmava discretamente por baixo das saias de várias clientes.

Ao analisarem o telemóvel e o computador do suspeito, os investigadores descobriram uma pasta intitulada "ABUSOS", contendo cerca de 20.000 imagens e centenas de vídeos que documentavam as violações sistemáticas de Gisèle. Confrontada pela polícia com estas provas, a vítima afirmou inicialmente não se reconhecer nas imagens, tal era o seu estado de sedação.

O desfecho judicial: condenação máxima

O julgamento, que terminou em dezembro de 2024 em Avinhão, resultou na condenação de todos os 51 arguidos. Dominique Pelicot, o arquiteto do esquema, foi condenado à pena máxima de 20 anos de prisão efetiva.

Os restantes 50 homens, com idades compreendidas entre os 26 e os 74 anos, receberam penas que variaram entre os 3 e os 15 anos de prisão, dependendo da gravidade e da reincidência dos seus atos. A recusa de Gisèle em permitir que o julgamento ocorresse à porta fechada foi decisiva para que o mundo conhecesse a extensão da barbárie, forçando uma reflexão global sobre o consentimento e a violência doméstica.

Gisèle Pelicot enfrentou o julgamento, com a descrição de tudo o que lhe aconteceu, de porta aberta e cabeça erguida, para dar força e esperança a outras vítimas.
"Não existe pequena violação". Depois de ser violada por 51 homens, Gisèle Pelicot regressa a tribunal
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