Julgamento dos 36 arguidos detidos na operação de 1995, entre os quais os acusados pelo homicídio de Alcindo Monteiro
Julgamento dos 36 arguidos detidos na operação de 1995, entre os quais os acusados pelo homicídio de Alcindo MonteiroPedro Saraiva

A guerra contra o ódio organizado. As grandes operações da PJ

Desde 1995, a PJ tem conduzido operações de grande escala contra organizações associadas a crimes de ódio, violência racista, associação criminosa e extremismo violento.
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Ao longo de três décadas, as autoridades têm identificado um padrão de continuidade na extrema-direita violenta em Portugal:

- Sobrevivência de núcleos históricos

- Renovação geracional de recrutas

- Uso crescente de redes sociais e propaganda digital

- Passagem do ódio ideológico para estruturas organizadas e, em alguns casos, paramilitares

- Ligações internacionais e circulação de militantes

As autoridades sublinham que, apesar de detenções, condenações e desmantelamentos sucessivos, estas redes demonstram capacidade de adaptação, reconfiguração e persistência no tempo.

Em conferência de imprensa sobre a Operação Irmandade, o diretor nacional da Polícia Judiciária, Luís Neves, sublinhou a importância de intervir antes de ocorrerem crimes com vítimas diretas: “Quem trabalha neste tipo de criminalidade procura sempre que se investigue e se interrompa a atividade no momento em que não há ainda crimes de resultado. É nossa responsabilidade defender a integridade das pessoas. Anteciparmos.”

Luís Neves enquadrou a operação numa linha de continuidade com investigações anteriores contra a extrema-direita violenta, recordando intervenções da PJ em 1995 (caso Alcindo Monteiro), 2007 (megaoperação contra os Hammerskins, então liderados por Mário Machado) e 2016, envolvendo alguns dos mesmos protagonistas.

Sobre o Grupo 1143 agora visado, o diretor nacional da PJ descreveu uma estrutura organizada e duradoura, afirmando tratar-se de “uma associação com fundadores, membros, chefias, apoio logístico, distribuição de funções no financiamento e nas ações, uma estrutura com conjunto alargado de pessoas que dura, com estabilidade no tempo e que se alarga.”

Três décadas de operações

1995 — Caso Alcindo Monteiro e a violência do racismo

O homicídio de Alcindo Monteiro, no Bairro Alto, em Lisboa, em 1995, marcou o primeiro grande exemplo da violência organizada associada a grupos skinheads em Portugal.

Julgamento dos neonazis no Tribunal de Monsanto em 1997
Julgamento dos neonazis no Tribunal de Monsanto em 1997Pedro Saraiva

O Supremo Tribunal de Justiça descreveu a atuação dos agressores como uma ação coletiva racialmente motivada, caracterizada por “exaltação, violência, perseguição e ataque seletivo a indivíduos de raça negra”.

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Alcindo Monteiro morreu há 25 anos. Uma vítima do racismo

Vários arguidos foram condenados, incluindo por homicídio, e o caso revelou a existência de um núcleo organizado de extrema-direita violenta. Entre os envolvidos na noite de agressões esteve Mário Machado, então com 19 anos, que viria a ser condenado por ataques violentos contra outras vítimas negras ocorridos na mesma ocasião.

Anos mais tarde, alguns dos condenados voltariam a surgir em novos inquéritos, evidenciando a persistência de militantes e redes associadas ao mesmo universo ideológico.

2007 — Megaoperação contra os Portugal Hammerskins (PHS)

Em 2007, a PJ lançou a maior operação de sempre contra grupos skinheads em Portugal, visando a organização Portugal Hammerskins.

Bruno Castanheira
Apreensão de diverso material de skinheads cabeças rapadas nacionalistas extrema-direita neonazis Hamerskins, 2007

A investigação levou à detenção de dezenas de suspeitos, incluindo a liderança do grupo, e ao desmantelamento de uma “skinhouse” em Loures, utilizada como quartel-general para reuniões, concertos de música extremista, recrutamento e propaganda neonazi.

A PJ identificou uma estrutura organizada envolvida em agressões violentas, crimes de ódio racial, posse de armas ilegais, roubos, sequestros e ameaças.

Apreensão de diverso material de skinheads cabeças rapadas nacionalistas extrema-direita neonazis Hamerskins, 2007
Apreensão de diverso material de skinheads cabeças rapadas nacionalistas extrema-direita neonazis Hamerskins, 2007Bruno Castanheira

O processo resultou em múltiplas condenações e provocou um recuo temporário da atividade do grupo, embora sem eliminar totalmente a sua influência ou capacidade de reorganização.

2010 — Violência organizada, sequestros e roubos

Entre 2009 e 2012, vários membros ligados ao meio skinhead foram condenados em processos por crimes violentos, incluindo roubos, sequestros, agressões graves e extorsão.

Algumas destas condenações envolveram figuras associadas ao universo dos Portugal Hammerskins e a redes extremistas anteriormente visadas. Os casos revelaram práticas de violência sistemática, intimidação e uso de força para controlo territorial e afirmação de poder dentro de circuitos marginais e criminosos.

2016 — De novo os PHS – ataques políticos, raciais e homofóbicos

Esta investigação da Unidade Nacional de Contraterrorismo (UNCT) da PJ constituiu o segundo maior golpe policial contra a extrema-direita violenta em Portugal, tendo sido acusados 37 suspeitos, indiciados por crimes de discriminação e incitamento ao ódio e à violência, tentativas de homicídio, agressões qualificadas, associação criminosa, ameaças e posse ilegal de armas.

Luis Neves, em 2026 director da Unidade Nacional de Contra Terrorismo da Polícia Judiciária, mostrou o material apreendido no processo de detenção dos 20 Skinheads suspeitos de agressão e tentativa de homicídio.
Luis Neves, em 2026 director da Unidade Nacional de Contra Terrorismo da Polícia Judiciária, mostrou o material apreendido no processo de detenção dos 20 Skinheads suspeitos de agressão e tentativa de homicídio.Pedro Rocha

A investigação revelou a existência de um núcleo duro persistente, integrando cinco arguidos já condenados pelo homicídio de Alcindo Monteiro e outros visados na operação de 2007, bem como novos recrutas — “hangarounds” e “prospects” — submetidos a processos de avaliação interna. Segundo a PJ, alguns crimes funcionavam como rituais de iniciação, praticados para demonstrar lealdade ideológica, capacidade de violência e adesão ao ódio racial.

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Comunistas, negros, gays e muçulmanos foram vítimas de skinheads

Foram identificadas pelo menos 18 vítimas. Entre os casos mais graves esteve o espancamento brutal de um militante comunista, que ficou à beira da morte e sofreu sequelas neurológicas permanentes, tendo sido alvo de insultos e ameaças durante o ataque.

Pedro rocha

A investigação identificou ainda esfaqueamentos, agressões racistas, ataques homofóbicos, tentativas de homicídio e perseguições organizadas, algumas inicialmente tratadas como crimes comuns, mas reclassificadas como crimes de ódio após apuramento da motivação ideológica.

2018 — Hells Angels: crime organizado e violência estruturada

Embora não sendo um grupo ideológico neonazi, o megaprocesso Hells Angels revelou ligações ao universo da extrema-direita e práticas de violência organizada com ramificações nesse meio. A investigação da PJ demonstrou a existência de uma organização criminosa com hierarquia rígida, regras internas, controlo territorial e recurso sistemático à força.

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Hells Angels: autoridades temeram atropelamentos em massa e tiroteios

Este processo teve origem no ataque ocorrido em 2018 no restaurante Mesa do Prior, no Prior Velho, episódio inserido na rivalidade violenta entre o grupo motard Hells Angels e o grupo rival Bandidos, ao qual Mário Machado estava então associado.

André Luís Alves

O tribunal condenou a maioria dos arguidos por associação criminosa, homicídio qualificado na forma tentada, extorsão, roubos, agressões graves, tráfico de droga e posse de armas proibidas. O coletivo de juízes considerou provado que o grupo utilizava a violência como instrumento de domínio e disciplina interna, incluindo ataques planeados contra grupos rivais. Foram condenados 86 dos 87 arguidos.

2024 — Operação contra o Movimento Armilar Lusitano (MAL)

A PJ investigou o Movimento Armilar Lusitano, um grupo de extrema-direita suspeito de atividade paramilitar, planeamento de ações violentas e radicalização armada.

Material apreendido nas buscas aos arguidos do MAL
Material apreendido nas buscas aos arguidos do MALPJ

A investigação envolveu suspeitas de terrorismo, incitamento ao ódio, posse de armas proibidas e explosivos. Foram apreendidas armas de fogo, munições, explosivos, armas produzidas por impressão 3D, equipamento tático e propaganda extremista.

As autoridades indicaram que o grupo se organizava como milícia, com treinos, hierarquia, recrutamento online e intenção de atacar alvos institucionais.

2026— Operação Irmandade (Grupo 1143)

A Operação Irmandade, conduzida pela PJ e titulada pelo DIAP de Lisboa, visou desmantelar o Grupo 1143, suspeito de discriminação e incitamento ao ódio, ameaças agravadas, ofensas qualificadas, posse de armas proibidas e atuação como organização estruturada de inspiração extremista.

Julgamento dos 36 arguidos detidos na operação de 1995, entre os quais os acusados pelo homicídio de Alcindo Monteiro
Uma radiografia ao Grupo 1143 — Origens, protagonistas, ambições e modus operandi, em 10 pontos

Foram detidos 37 suspeitos, realizadas 65 buscas, e apreendidos material de propaganda neonazi, merchandising ideológico, armas, equipamento tático e conteúdos de radicalização online.

Julgamento dos 36 arguidos detidos na operação de 1995, entre os quais os acusados pelo homicídio de Alcindo Monteiro
Armas, escudos antimotim e muito material de propaganda. Vídeo mostra o que foi apreendido ao grupo 1143

A investigação aponta para uma estrutura hierárquica, com distribuição de funções, mobilização pública, propaganda digital, ligações internacionais e capacidade de organizar manifestações com discurso hostil contra imigrantes e muçulmanos.

Julgamento dos 36 arguidos detidos na operação de 1995, entre os quais os acusados pelo homicídio de Alcindo Monteiro
Grupo 1143. Juiz implacável: "A anterior liderança e a atual estão presas; aguardemos a próxima, se existir"
Escudos apreendidos pelas autoridade nesta terça-feira, na Operação Irmandade realizada pela Unidade Nacional de Contaterrorismo da PJ, no âmbito de um inquérito titulado pelo DIAP de Lisboa
Escudos apreendidos pelas autoridade nesta terça-feira, na Operação Irmandade realizada pela Unidade Nacional de Contaterrorismo da PJ, no âmbito de um inquérito titulado pelo DIAP de LisboaPJ

Cinco arguidos ficaram em prisão preventiva, nomeadamente Gil Emanuel Teixeira Batista da Costa, Jorge Manuel Sequeira Lopes Bento, Mário Jorge da Silva Reis Moreira, João Pedro Martins Gomes Carvalho e Bruno Ricardo Dias Rodrigues, indiciados por crimes de ódio e agressões violentas, incluindo ataques a cidadãos indostânicos na A1.

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Grupo 1143. Proclamar “queremos o Islão fora da Europa” é crime de ódio, conclui tribunal
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