A investigação ao Grupo 1143 representa uma das mais extensas indiciações em Portugal por crimes previstos no artigo 240.º do Código Penal, que pune a discriminação, o incitamento ao ódio e à violência. Pela primeira vez, um processo desta dimensão reúne dezenas de arguidos indiciados por crimes de ódio, associados a uma estrutura organizada com atuação pública, digital e territorial.Embora ainda não seja conhecida a interpretação que o Tribunal Central de Instrução Criminal fará da prova indiciária — nem quais serão as medidas de coação aplicadas —, pois ainda estão a ser ouvidos pelo juiz, o enquadramento legal português encontra paralelo na jurisprudência do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (TEDH), que tem vindo a delimitar o limite entre liberdade de expressão e discurso de ódio, sobretudo quando estão em causa apelos à exclusão de grupos, hostilidade coletiva ou normalização da violência.Entre os casos mais próximos em termos de objeto e princípio jurídico contam-se Norwood v. United Kingdom (discurso anti-islão e apelos à exclusão), Féret v. Belgium (propaganda política anti-imigração), Lilliendahl v. Iceland (discurso homofóbico online) e Sanchez v. France (responsabilidade por tolerar comentários de ódio em redes sociais). . Estes acórdãos sustentam que a liberdade de expressão não protege mensagens que promovam hostilidade contra grupos vulneráveis, desde que a intervenção penal seja necessária e proporcional numa sociedade democrática.Este explicador sistematiza a origem, liderança, estrutura, ambições e modus operandi do Grupo 1143, com base em indícios públicos confirmados, factos documentados e fontes judiciais.1. OrigensO Grupo 1143 tem origem em 2001, quando uma fação ultranacionalista e neonazi emergiu no seio da claque Juventude Leonina, associada ao Sporting Clube de Portugal. Esse grupo -que já não existe no clube - conhecida informalmente como a “fação dos carecas”, era composta por indivíduos ligados ao movimento skinhead.A designação “1143” refere-se ao ano do Tratado de Zamora, associado à fundação de Portugal. Desde os primeiros anos, o grupo adotou simbologia associada ao nacionalismo extremista e ao imaginário nazi, incluindo a caveira totenkopf, as runas da Schutzstaffel (SS) e outros elementos simbólicos usados como marcadores identitários.Inicialmente, o grupo era composto maioritariamente por jovens com menos de 30 anos e esteve associado a episódios de agressões físicas motivadas por racismo e xenofobia, bem como a insultos dirigidos a pessoas negras, incluindo jogadores e adeptos do próprio clube.Após um período de menor visibilidade pública, a reativação do grupo deu-se em 2023, impulsionada por Mário Machado, que passou a promover a reorganização do grupo com base nos seus princípios ideológicos originais.2- RefundaçãoApós a refundação, Mário Machado passou a apresentar o Grupo 1143 como uma organização patriótica, apartidária e aclubística, com atuação em todo o território nacional.O grupo adotou como símbolo principal a cruz celta, um símbolo adotado pelo movimento de supremacia branca “Orgulho Branco” e pelo Ku Klux Klan, associando essa simbologia à sua identidade visual e ideológica.. A atividade pública do grupo passou a centrar-se em mensagens de exaltação identitária, oposição à imigração não europeia e contestação ao sistema político, com comunicação dirigida a potenciais apoiantes através de plataformas digitais.3- Organização internaO Grupo 1143 passou a operar com uma estrutura hierárquica formalizada, liderada por Mário Machado, que assumiu o comando.Na investigação “Irmandade” foram identificados como membros da cúpula dirigente, além de Machado, Gil “Pantera” Costa, Paulo Magalhães e Bruno Araújo. O núcleo dirigente era internamente designado como “Os Quatro Mosqueteiros”.Após a reclusão de Mário Machado em maio de 2025, Gil Costa assumiu a liderança operacional, mantendo-se o primeiro envolvido em decisões estratégicas.A organização foi estruturada em núcleos regionais, compostos por núcleos locais, com coordenação centralizada e comunicação através de plataformas digitais.4- Funções atribuídas na cúpulaMário Machado- Administração de canais digitais do grupo (incluindo Telegram)- Emissão de diretrizes internas- Mediação de conflitos entre membros- Organização de manifestações, encontros e vigílias- Representação pública junto da comunicação social- Continuação de funções de liderança mesmo durante período de reclusão. Gil Costa - Administração de canais digitaisGestão de receitas provenientes de merchandisingAssunção da liderança operacional após a reclusão de Mário MachadoDinamização de manifestações e eventos públicosBruno AraújoLigação entre a liderança e os núcleos regionaisCoordenação logística de eventosTransmissão de orientações editoriais para publicações onlinePaulo MagalhãesAdministração de contas digitaisGestão da loja e merchandisingApoio à organização de eventos e manifestaçõesLideranças regionais identificadasForam identificados responsáveis por núcleos locais e regionais, incluindo Porto, Santo Tirso, Odivelas, Guimarães, Maia, Aveiro, Coimbra, Sintra e Cascais, Margem Sul, Setúbal, Alentejo, Faro, Diáspora (Suíça e França).5- Presença digital e recrutamento . Um “Exército em Formação”O grupo utilizou plataformas como X (Twitter), Telegram e outras redes sociais para:- Divulgar conteúdos ideológicos- Anunciar encontros e manifestações- Promover adesões- Coordenar núcleos regionaisMário Machado administrou contas públicas associadas ao grupo e utilizou-as para apelar à adesão de cidadãos portugueses alinhados com posições de extrema-direita.O grupo passou a autodescrever-se como um “exército em formação”, utilizando canais fechados e privados, com acesso condicionado.6- Caráter paramilitar Os núcleos regionais do Grupo 1143 passaram a apresentar-se como tendo “caráter paramilitar”.. O grupo organizou treinos designados como “treino de combate”, incluindo atividades com equipamento de airsoft, e realizou ações de treino encenadas, documentadas em vídeo, nas quais os participantes:- Usavam vestuário negro com identificação do grupo- Ocultavam o rosto com balaclavas- Marchavam em formação- Transportavam estandartes e escudos de estilo antimotimA liderança discutiu internamente a possibilidade de estruturar o grupo como uma milícia, com preparação para eventual intervenção em cenários de agitação social.7- Eventos públicos e ações realizadasO grupo organizou ou participou em manifestações, protestos, encontros e marchas, incluindo eventos em Lisboa, Porto, Guimarães, Albufeira, Palmela, Loures, Espanha (Gijón).As iniciativas incluíram manifestações contra imigração, encontros simbólicos e convívios internos e ações associadas a datas nacionais.Em 25 de abril de 2025 o Grupo realizou uma manifestação não autorizada entre o Martim Moniz e o Largo de São Domingos. Durante confrontos com uma contramanifestação, tendo um contra-manifestante sido agredido por um elemento do 1143 e outros elementos do grupo, incluindo Mário Machado, participado em agressões. Os autos do inquérito instaurado indicam motivação política. Machado foi detido na ocasião.. A 5 de outubro de 2025, após um evento do Grupo 1143 em Palmela, vários membros agrediram dois cidadãos indianos numa área de serviço da A1, com expressões xenófobas e violência reiterada. Os autos do inquérito instaurado apontam para motivação racial e xenófoba.8- Simbologia, comunicação e propagandaO Grupo 1143 utilizou, em redes sociais, vestuário e eventos públicos a cruz celta, estandartes históricos associados ao nacionalismo, slogans como “orgulhosamente sós” e “Os lobos não usam coleira”.Durante alguns eventos foram registados gestos associados à saudação nazi, bem como a exibição de tarjas e cartazes com mensagens políticas.9- Financiamento e logísticaO grupo financiou a sua atividade através da venda de merchandising, incluindo vestuário e acessórios. Foi criado um projeto de loja virtual, com gestão atribuída a membros da estrutura dirigente. As receitas destinaram-se a infraestrutura digital, propaganda, logística de eventos e recrutamento. As autoridades identificaram ainda várias transferências bancárias feitas pelos membros para financiar atividades.10 - Ambições estratégicas e objetivos operacionaisA liderança do grupo manifestou internamente intenção de:- Consolidar o grupo como estrutura organizada nacional- Reforçar a mobilização pública- Expandir núcleos regionais- Desenvolver capacidade de atuação coordenada- Preparar resposta a eventuais episódios de conflito social .Grupo neonazi tinha núcleos por todo o país, na Suíça e em França.O que fez o neonazi Mário Machado e o que é o grupo 1143, sob suspeita de ser uma organização criminosa?