O Presidente da República inicia esta segunda‑feira, 6 de abril, na Sertã, a sua primeira Presidência Aberta, que tem como único objetivo avaliar no terreno o impacto das tempestades. A promessa de António José Seguro, anunciada há pouco menos de um mês (seis dias depois da tomada de posse como chefe de Estado) na página oficial da Presidência da República era a de que, logo a seguir à Páscoa, se deslocaria aos territórios afetados pelas tempestades de janeiro e fevereiro para escutar "as populações", testemunhar "os impactos das intempéries, bem como [perceber] as necessidades de resposta e recuperação das zonas sinistradas". E o Governo vai com o chefe de Estado.O périplo, que se prolonga até sexta‑feira, 10 de abril, abrange quatro distritos – entre Castelo Branco, Santarém, Coimbra e Leiria – e incide sobre alguns dos territórios mais severamente afetados pelas cheias, derrocadas, destruição de infraestruturas e prejuízos agrícolas.A Presidência Aberta – um modelo já utilizado por anteriores chefes de Estado e iniciado por Mário Soares em 1986 focado em temas que impactam a vida política atual – é agora retomado com uma preocupação na vulnerabilidade territorial. Por isso, de acordo com o que revelou fonte da Presidência à Lusa, afinada com a página oficial de Seguro, o objetivo é “ver de perto o que não chega através dos relatórios” e garantir que as populações sentem a presença do Estado num momento de fragilidade. Também será por este motivo que o chefe de Estado será acompanhado por membros do Governo. O DN contactou o gabinete do Presidente, que não adiantou quem seriam os membros do Governo, mas não obteve resposta.As tempestades de janeiro e fevereiro provocaram estragos em várias regiões do país, com particular incidência no Centro e Norte. Cheias rápidas, derrocadas e quedas de árvores condicionaram estradas, destruíram habitações e equipamentos públicos. Em alguns concelhos, os prejuízos acumulados ascendem a milhões de euros, pressionando orçamentos municipais. É neste contexto que Seguro chega aos territórios.O concelho da Sertã, no distrito de Castelo Branco, onde o Presidente começa esta medição do pulso à população, tinha no final de janeiro 15 pessoas desalojadas, como resultado do mau tempo e da consequente destruição de habitações, para além de estradas municipais intransitáveis e energia elétrica cortada. Com esta Presidência Aberta, António José Seguro procura também afirmar um estilo de proximidade e escuta ativa, valorizando o contacto direto com cidadãos e instituições locais, com a expectativa de que, ao longo do mandato, estas deslocações se tornem regulares e contribuam para uma leitura mais fina das desigualdades territoriais e das fragilidades estruturais que fenómenos meteorológicos extremos tendem a expor.Apesar deste ser o início da primeira Presidência Aberta de Seguro – que já tinha sido prometida durante a campanha eleitoral, quando disse que, se fosse eleito, iria começar precisamente pela zona Centro –, António José Seguro, no final de março, longe dos olhares dos jornalistas, deslocou-se a Alcácer do Sal, reuniu-se com a presidente da Câmara, Clarisse Campos, e inteirou-se "do ponto de situação dos trabalhos de recuperação que estão a decorrer, após as cheias que afetaram toda a zona ribeirinha e campos agrícolas no início do passado mês de fevereiro", revelou uma nota publicada a 30 de março na página da Presidência.Nesse dia, Seguro falou "com residentes desalojados, visitou as casas que foram inundadas e as habitações modulares que estão a ser finalizadas para o seu realojamento", levantando um pouco do véu do que acontecerá agora.Cinco dias, quatro distritos, dezenas de encontros e expectativasA Presidência Aberta segue um programa intenso, com deslocações diárias a vários concelhos, começando pelo distrito de Castelo Branco. Só esta segunda-feira, António José Seguro andará pela Sertã, por Oleiros, Proença‑a‑Nova e Vila de Rei, mas o dia termina em Tomar, onde decorrerá a reunião semanal entre o Presidente e o primeiro‑ministro, Luís Montenegro.Para encerrar o dia, estão também previstas reuniões com a Associação Nacional de Municípios Portugueses e a Associação Nacional de Freguesias.Na terça-feira, 7 de abril, a viagem do Presidente passa pelo distirto de Santarém, com visitas estratégicas aos concelhos de Ourém, Ferreira do Zêzere e Mação.Na quarta-feira, 8 de abril, já no distrito de Coimbra, o Presidente passará por Penela, Soure, Montemor‑o‑Velho e Coimbra.A Região Metropolitana de Coimbra (RMC) contabiliza quase 142 milhões de euros em prejuízos apenas em infraestruturas, equipamentos públicos e vias de comunicação, com cinco municípios – Soure, Penacova, Montemor‑o‑Velho, Coimbra e Oliveira do Hospital – a concentrarem dois terços dos danos.A presidente da RMC, Helena Teodósio, em conversa com a Lusa, lembrou que muitos municípios “ficaram com estradas intransitáveis”, algumas ainda cortadas ou com abatimentos de pavimento, deslizamentos de terras e taludes destruídos. Para várias autarquias, sobretudo as de menor dimensão, “não há força financeira para fazer estas intervenções”, alerta.A situação é agravada por atrasos nos pagamentos de apoios relativos a ocorrências anteriores, nomeadamente os incêndios de 2025, o que deixa os municípios “sem previsibilidade” e com encargos assumidos “sem garantia de eventual financiamento”.Helena Teodósio considera, por isso, essencial que o Presidente escute diretamente estas preocupações:“Isto tem de ser dito de forma muito clara. Há municípios que não têm meios técnicos nem financeiros para responder à multiplicidade de ocorrências", avisa, sendo esse um dos pontos em cima da mesa.No Baixo Mondego, agricultores e associações esperam que a visita de Seguro ajude a garantir que as obras de recuperação dos canais de rega e dos diques avançam com rapidez. Há zonas ainda alagadas, valas obstruídas e cerca de 50 hectares invadidos por areia que poderão não ter condições para sementeiras este ano.A incerteza sobre quem financia as reparações – se o Ministério da Agricultura ou as associações – está a atrasar intervenções consideradas urgentes. Será esse outro dos temas com que o Presidente será confrontado.Para os últimos dois dias, António José Seguro escolheu o distrito de Leiria, que implicará passagens, entre quinta e sexta-feira, pela Batalha, Pombal, Pedrógão Grande, Alvaiázere, Leiria e Marinha Grande.A iniciativa vai terminar com uma reunião conjunta entre os presidentes dos municípios visitados, a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro – Centro e a Estrutura de Missão para a Reconstrução da Região Centro.Neste distrito, Seguro é também aguardado com expectativa, onde, na sequência dos estragos causados pelas intempéries, empresários já alertaram para a lentidão das seguradoras – com apenas 40% dos ressarcimentos pagos – e para falhas graves nas comunicações, que continuam a afetar freguesias como Maceira ou Pataias. Também à Lusa, a vincar esta ideia, o presidente da Associação Empresarial da Região de Leiria/Câmara de Comércio e Indústria (NERLEI/CCI), Luís Febra, explicou que "há muitas empresas que ainda não receberam dinheiro dos seguros e essa é a parte mais preocupante", e que, por este motivo, algumas empresas viram o desempenho cair “para 10 ou 15%” devido à falta de fibra ótica.“Na altura [das tempestades], as próprias empresas que orçamentam estavam com tanto trabalho que não o fizeram. Penso que o Presidente da República pode fazer um bocadinho mais de pressão sobre as seguradoras para ajudar a alavancar a liquidez que as empresas necessitam para recuperar os negócios”, avisou, deixando transparecer uma das preocupações que serão apresentadas a António José Seguro..Autarcas criticam ministro por "querer passar culpas" sobre atrasos nos apoios à reconstrução de casas.Ministro admite que processo de apoios para reconstrução de casas não está a correr bem.Presidência de Seguro arranca em terra ardida e com apelo a mais apoios