António José Seguro chegou à Igreja de Alvalade com verdadeiro espírito de candidato presidencial e calcorreou a Avenida da Igreja sem se poupar às esquinas e aos negócios locais. Foram 1h30 de contacto populacional, com tempo para entrar, a cada duas lojas, no pequeno comércio que também já teve, vincando sempre aos jornalistas que queria era falar com as pessoas. De restaurantes a mercearias, passou em farmácias, entrou numa padaria para aí começar, descaradamente, a falar da série Rabo de Peixe, tentando aliciar o eleitorado jovem que, na arruada, não superava as duas dezenas. Demorou-se numa livraria, onde viu, com boa-disposição, uma foto da obra sobre Marques Mendes em escaparate. Não comprou, sorrindo apesar da sugestão provocatória, enquanto a gerente da loja arrumava, à pressa, o perfil do outro candidato para longe das fotografias. Seguro preferiu a obra sobre Maria Barroso, antiga primeira dama. Ouvira, segundos antes, os tais jovens mais entusiastas atrás de si gritarem: “Seguro é fixe.” Apropriada a interligação, portanto, com o incontornável Mário Soares. Foi ganhando fôlego, parou para as pessoas que o observavam, acanhadas, e acabou a dançar, um bailarico que se demorou, ao som de um acordeão e de um trompete que não se cansaram de trautear músicas mais típicas de Santos Populares. “Não lhe vou fazer promessas”, disse quando, emocionado como em muitos abraços que deu, encontrou um sem-abrigo, que afoito lhe declarou amarguras de uma vida difícil e por vezes esquecida dos discursos políticos. A frase de Seguro não é inócua: lembrou que Marcelo Rebelo de Sousa, no primeiro mandato, tinha definido a ajuda para o flagelo dos sem-abrigo como meta prioritária. .Não escaparam as crianças de colo de ocasião, os bebés ainda nos carrinhos confortáveis, Seguro dirigiu-se a todos, não furtou olhares e pediu chapéus para colocar. O largo chapéu que diz ter, da esquerda ao centro, com ligeira passagem pela social-democracia, tinha, podia ver-se, todas estas falanges consigo, acumulando três centenas de apoiantes ao longo de uma avenida que está hoje mais confiante na segunda volta do que se via antes dos debates. Mas este enorme chapéu, que pode piscar o olho ao Livre e a Jorge Pinto para uma possível desistência, não faz cedências. “Quem decide a natureza da minha candidatura sou eu. Foi assim desde o início, será assim até final. Sou eu que decido, não cedo a pressão nenhuma e não negoceio nada”, referindo estar “feliz pelos elogios”, por “quem diz que devo ser eu o próximo Presidente da República”, assinalando uma “onda de esperança” na segunda volta. Se o candidato do Livre esperava uma aproximação, até tendo em vista o que disse na terça-feira, no debate na RTP, afirmando “no que de mim depender, não será por mim que António José Seguro não será presidente da República”, não foi desta que se viu..Mas para quem pegou no cartaz de apoio ao candidato, não há grande dúvida de que o posicionamento representa a maioria de um eleitorado socialista. Os três apoiantes com que o DN conversou referiram “honestidade” ao homem que querem na segunda volta. “Está à esquerda, não nega as suas origens, mas era importante congregar votos à esquerda e para isso as desistências podiam ser importantes. Jorge Pinto e Catarina Martins podiam defender a democracia”, disse-nos Afonso Costa, ex-presidente de junta em Alverca, que agora é simpatizante do PS, mas não mais militante. “O partido demorou a apoiá-lo, ainda existem algumas feridas abertas. O Costismo deixou feridas abertas, fez um bom mandato em recuperar direitos que a Troika nos tirou, mas faltou-lhe ideias depois”. “Devia ter apoiado mais cedo. Não compreendo uma fação do PS que se distancia de Seguro. Não sou militante, sou simpatizante e nas diretas do partido votei em Seguro frente a António Costa. É um democrata, é pessoa honesta. Coloca-se no centro e isso é benéfico. Vai buscar à esquerda, mas aos democratas de direita. Os partidos à esquerda ficam aquém. No princípio estava pessimista pela hostilização do próprio PS a Seguro, não pode ser a abstenção de um Orçamento, que eu compreendi na altura, a justificar essa ação interna e externa. É bom ver que há hipóteses para a segunda volta”, alega Jacinto Ferreira, quase nos 70 anos, lamentando que se diga que “o voto no PS é mais para gente da minha geração”, vincando que “não compreende votos em Cotrim de Figueiredo quando esse candidato defende o que defende na lei laboral.” Reconhece que “há muitos socialistas que votam em Gouveia e Melo” e que é o almirante que escolhe na segunda volta se Seguro não passar. .“Sou socialista desde o início da democracia. Houve um desentendimento anterior, que nunca percebi, afastou-se, daí demorar também o partido a prestar-lhe apoio. A esquerda não influencia também porque cada um tem o seu lugar e os eleitores parecem-me diferentes”, afirma ao DN Carolina Lopes, de 88 anos, concordando que “se não estivesse Seguro apoiaria Gouveia e Melo, por ser mais do centro”. Diz-se tão “desiludida com a campanha de Marques Mendes” que, em caso de segunda volta contra Ventura, terá duas opções: “Ou não voto ou voto em branco.”.Ao longo do dia, António José Seguro contou com presidentes de freguesias em Lisboa, como Ajuda, Alcântara e Benfica (Jorge Marques, Mauro Santos e Ricardo Marques), teve a companhia dos vereadores municipais socialistas, com destaque para Alexandra Leitão, que pertence à Comissão de Honra, mas também vários deputados, como André Pinotes Batista ou Miguel Costa Matos. Também André Moz Caldas, conselheiro de Carneiro e presidente da Assembleia Municipal de Lisboa, percorreu o bairro onde já foi presidente de junta. Ao lado de Seguro esteve ainda Miguel Prata Roque, que se sabe ser crítico de alguma orientação política no PS, mas absolutamente convicto de que Seguro é a escolha correta. “É tranquilo, é autêntico, as pessoas estão fartas de gritaria, há quem perceba que para Presidente de República precisamos de alguém que agregue e que não nos envergonhe. O candidato natural seria um ex-primeiro-ministro, mas António Costa não está em condições de ser candidato, portanto parece evidente o apreço a Seguro”, diz Miguel Prata Roque, referindo que “as maiorias do PS sempre se fizeram apesar do crescimento do resto da esquerda”, vincando que o PS “não tem de destruir a esquerda e que as desistências podem ser prejudiciais para Seguro na segunda volta”. Como tal, fica, ao contrário de muitos outros socialistas, um certo ataque ao voto útil, discordando do presidente do PS, Carlos César, que, na altura da declaração de intenções em torno de Seguro, disse que o apoio ficaria por ali. “Fez uma declaração infeliz, muito infeliz. O apoio do PS não parou no momento em que uma Comissão Nacional disse que apoiava António José Seguro. Porque o PS está na rua”, analisa, considerando o candidato “agregador”, dando o exemplo de que outros, “que dividem, terão muita dificuldade em pedir votos para a segunda volta.” “As pessoas esperavam uma política diferente, mas Gouveia e Melo fez uma política rasteira semelhante a muitos outros. Foi uma desilusão”, critica, lamentando a “apropriação de símbolos como Sá Carneiro” no caso da direita..Antes da arruada, o dia começou num encontro com especialistas em ambiente e clima, organizado por Duarte Cordeiro, ex-ministro do Ambiente, de Costa. “Aos poucos, Seguro tem conseguido envolver em grande medida o universo de simpatizantes, de apoiantes do PS na última década. É a pessoa certa para equilibrar o sistema político nacional”, disse, reconhecendo que “havia expectativas de alguns socialistas, talvez, no início, que Gouveia e Melo pudesse cumprir esse papel.” Cordeiro disse não ver “guerra à esquerda”, mas lamenta a “dispersão” porque Seguro “se preocupa com muitas das coisas que a esquerda se preocupa.” Quem está alarmado com a ecologia, bandeira do Livre, nomeadamente, subentende-se, pode ver no PS uma resposta. A presença de cientistas no aconselhamento a políticos é determinante para Seguro. “Queremos mais debate sobre factos, menos sobre perceções. Dou-lhes valor distintivo porque os cientistas têm factos e afastam-se de negacionistas e de extremistas”, declarou após a reunião em Benfica com investigadores, engenheiros e professores universitários que dizem que, até aqui, nunca tinham sido chamados a apresentar soluções e críticas numa campanha presidencial..No fim da arruada, as palavras do candidato foram contidas, defendendo que exista “método, orçamentos e estratégias analisadas na Saúde”. Aqueceu a crítica, bem junto a um vendedor de castanhas ao qual acorreu, em direção ao Governo, pedindo, referindo que “as pessoas do Interior se sentem abandonadas e que têm medo de ficar doentes”, enquanto diz que o Presidente da República deve procurar “consenso para soluções duradouras.” “A primeira prioridade é que o Governo perceba que se tem de aliciar bons técnicos e profissionais de Saúde para o Serviço Nacional de Saúde”, precisou..Duarte Cordeiro: "Aos poucos, Seguro tem conseguido envolver os apoiantes e simpatizantes do PS".António José Seguro mune-se de especialistas no ambiente para combater "negacionistas"