Uma das perguntas que Passos Coelho ouviu, no final da sua palestra “Reformar para Crescer”, com que rematou, na tarde de sábado, uma sucessão de intervenções públicas que agitaram o Governo e o PSD, foi se irá candidatar-se a primeiro-ministro ou “permitir que André Ventura seja o próximo”. No palco do auditório da Fundação Oriente, em Lisboa, que recebeu a conferência Mais Ideias, a assinalar o quinto aniversário do Instituto Mais Liberdade, tendo pela frente centenas de pessoas, incluindo dois antigos líderes da Iniciativa Liberal (Cotrim de Figueiredo e Guimarães Pinto), entre militantes de diversos partidos, incluindo o Chega, o homem que governou Portugal na austeridade da troika, entre 2011 e 2015, procurou afastar tal cenário.Mesmo sem se ver como “um inútil para a política”, quis “descansar toda a gente”, dizendo ser pouco provável voltar a desempenhar os cargos que teve no passado. No limite, até indesejável. “Se tudo correr bem, por que razão irão buscar-me ao baú da História?”, gracejou, acrescentando “não sei se um dia voltarei a ser preciso” e “nem sequer vou perder tempo a especular sobre isso”. E asseverou não estar a preparar uma candidatura e nem sequer saber quando haverá eleições “lá no meu partido”.Se as declarações visavam responder ao apelo de Luís Montenegro para “não alimentar enredos”, que Passos Coelho repetiria, mais tarde, aos jornalistas, não se pode dizer que tal missão tenha sido cumprida. E ainda menos se pode afirmar que o homem que deixou de ser primeiro-ministro há mais de uma década, e não se recandidatou à presidência do PSD há oito anos, abrindo caminho à liderança de Rui Rio, seja alheio ao impacto das suas críticas à nomeação de Luís Neves para o Ministério da Administração Interna ou do conselho ao seu antigo líder parlamentar para reforçar a legitimidade eleitoral se a oposição chumbar as alterações ao Código do Trabalho.“Infelizmente, muita gente ficou aborrecida com o que já disse e também há gente entusiasmada. Quem está no espaço público sujeita-se a estas coisas”, disse, no início da palestra, quem ao longo dos 40 minutos seguintes evitou “reincidir na chamada de atenção” ao que significa, enquanto “precedente grave” e contrário à separação de poderes, a passagem do diretor nacional da Polícia Judiciária para o Conselho de Ministros. Mas assinalou que desconhece o que este Governo pensa sobre os problemas de financiamento da Segurança Social, onde “andamos há uns anos a contar uma história da carochinha que um dia acaba mal”, denunciou a “mentira orçamental” de um aumento contínuo na despesa corrente no Serviço Nacional de Saúde que não se explica pelo aumento da procura e inflação, indiciando que uma parte “vai para o bolso de alguém”, e revelou-se impressionado por se “começar a conversa da reforma do Estado com a criação do Ministério da Reforma do Estado”..Montenegrismo a duas vozes.Garantindo estar focado em “responder aos anseios, necessidade e expectativas das pessoas e das empresas”, o primeiro-ministro disse na sexta-feira que se recusava a alimentar “um enredo, por mais pitoresco que seja”. Declarações encaradas por fontes sociais-democratas ouvidas pelo DN, consoante o grau de proximidade em relação ao montenegrismo, como “ponto de ordem” ou “sinal de desespero”.Numa altura em que terminou um ciclo quase ininterrupto de eleições de âmbito nacional, e o Governo da AD quer fazer esquecer as circunstâncias da demissão da antiga ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral, ao mesmo tempo que prepara o embate da convergência entre os principais partidos da oposição para rejeitar as mudanças pretendidas na legislação laboral, a semana ficou marcada pelas entrevistas do líder parlamentar social-democrata, Hugo Soares, expressando o que Passos Coelho resolveu eufemismar enquanto “aborrecimento”.No programa “Importa-se de Repetir”, da SIC Notícias, Hugo Soares acusou Passos Coelho de “taticismo político” e considerou que está “manifestamente enganado” na ideia de que a AD deverá ir a votos se não encontrar forma de aprovar legislação considerada essencial para a governação de Portugal. De seguida, na “Hora da Verdade”, em entrevista à Renascença e ao Público, o dirigente do PSD mais próximo do primeiro-ministro qualificou de “tiro ao lado” as críticas de Passos Coelho à escolha de Luís Neves.Coube ao ministro da Presidência, Leitão Amaro, pôr água na fervura laranja. Na quinta-feira, na conferência de imprensa após o Conselho de Ministros, garantiu que as críticas do antigo primeiro-ministro não foram discutidas pelos membros do Governo, e realçou a “grande consideração e estima pessoal e política” que tem por Passos Coelho.Também essas declarações foram interpretadas como indício de dissonância no núcleo duro do montenegrismo, que sente dificuldades em lidar com quem serve de porta-voz a descontentamentos no PSD. Por coincidência, ou talvez não, as eleições internas deste sábado deram a vitória ao vereador e ex-deputado Carlos Eduardo Reis na distrital de Braga - única em que não houve lista única -, impedindo a reeleição do eurodeputado Paulo Cunha, apoiado por Hugo Soares, e na concelhia de Espinho foi reeleito o deputado Ricardo Bastos Sousa, que acusou Luís Montenegro de “ajuste de contas pessoal” ao impor outro candidato nas autárquicas de 2025.No entanto, a maior sombra para Montenegro será a ideia de que Passos Coelho possa ser o federador do espaço político à direita do PS. Até porque foi após ter abandonado a liderança social-democrata que foram criados a Iniciativa Liberal e o Chega, capazes de atrair mais de um milhão de potenciais eleitores do PSD - além de apelarem aos mais liberais e mais conservadores de entre os que puseram o CDS de Paulo Portas à beira dos 10%, aos abstencionistas crónicos, aos mais jovens e (no caso do Chega) a descontentes com o PS e o PCP.“Passos já percebeu que Ventura não cresce mais e pode ser esvaziado por si”, defende um antigo deputado do PSD. Já outro dirigente ressalva que falta um sinal evidente de que, depois de se excluir da corrida a Belém, queira passar das palavras aos atos, embora não falte quem o veja como o “avalista” da abertura ao Chega que permitiu a Marco Almeida integrar dois vereadores desse partido no executivo da Câmara de Sintra, abrindo caminho ao acordo no mesmo sentido que Nuno Piteira Lopes fez agora na Câmara de Cascais..A relação de Luís Montenegro com os antecessores.Cavaco Silva (1985-1995)Quando o cavaquismo terminou, Montenegro tinha 22 anos, o que impediu o percurso em comum que este teve com outros líderes do PSD. Mas o homem que mais vezes superou os 50% de votos em eleições de âmbito nacional, conduzindo o partido a duas maiorias absolutas antes de ser Presidente da República, foi o “avalista” do futuro primeiro-ministro ao surgir de surpresa em Almada, na noite de 25 de novembro de 2023, na sessão de encerramento de um Congresso agendado antes de a Operação Influencer permitir o regresso ao poder dos sociais-democratas. Fernando Nogueira (1995-1996)O ministro da Defesa de Cavaco Silva quis manter a hegemonia do PSD, mas a clara derrota nas legislativas de 1995, contra António Guterres, fez com que se dedicasse à vida profissional. Presidiu ao Millennium BCP Angola e à Fundação Millennium BCP, deixando a política para trás quando Luís Montenegro dava os primeiros passos na vida autárquica em Espinho.Santana Lopes (2004-2005)Montenegro deu apoio público ao efémero primeiro-ministro nas eleições diretas em que Rui Rio sucedeu a Passos Coelho. Santana acabaria por sair do PSD, para fundar o Aliança, mas foi como independente que se reaproximou, nos mandatos de Montenegro. Ao ponto de ser reeleito na Câmara da Figueira da Foz com o apoio da AD. Marques Mendes (2005-2007)A proximidade em relação ao conselheiro de Estado contribuiu para que Montenegro tivesse uma das suas maiores derrotas políticas, com o quinto lugar de Marques Mendes na primeira volta das presidenciais a gerar enorme embaraço para o PSD. E para o primeiro-ministro, que se mobilizou (e aos seus ministros) numa campanha infrutífera.Luís Filipe Menezes (2007-2008)Na lógica de “o inimigo do meu inimigo, meu amigo é”, Menezes nunca hostilizou o adversário de Rio. E com ele acordou a candidatura com que voltou a ser presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia, após 12 anos de governação socialista.Manuela Ferreira Leite (2008-2010)De adversária política, quando a antiga ministra das Finanças de Cavaco Silva retardou a subida de Passos Coelho à liderança, passou a apoiante do Governo de Luís Montenegro.Passos Coelho (2010-2018)Líder parlamentar do PSD quando Passos Coelho era primeiro-ministro, Montenegro teve a árdua missão de defender medidas de austeridade dos anos da troika. Ficou como o rosto mais visível do “passismo” depois de este se afastar, logo no início da Geringonça, tendo-o a seu lado na edição de 2022 da Festa do Pontal. Mas a relação começou a esfriar, pois, além de muitos sociais-democratas desejarem o seu regresso, Passos Coelho é uma figura emblemática também para o Chega e a Iniciativa Liberal.Rui Rio (2018-2022)Dificilmente podia ser pior a relação de Montenegro com o antecessor, a quem tentou, sem sucesso, afastar da liderança do PSD. Em janeiro de 2019, numa reunião extraordinária do Conselho Nacional, em que o ex-presidente da Câmara do Porto fez aprovar uma moção de confiança, e nas eleições diretas de janeiro de 2020. Reeleito em novembro de 2021, contra Paulo Rangel, Rio saiu devido à maioria absoluta obtida por António Costa, sem nunca ser derrotado por Montenegro. Apesar de participar em algumas ações de campanha da AD, foi mandatário nacional de Gouveia e Melo nas últimas eleições presidenciais..PSD-Braga dá vitória a Carlos Eduardo Reis contra lista próxima de Hugo Soares.PSD-Espinho reelege deputado que acusou Luís Montenegro de "fazer um ajuste de contas"