Minutos depois de ter sido empossado ministro da Administração Interna, num Palácio de Belém em final de ciclo presidencial e com obras a decorrer, Luís Neves fintou o protocolo e regressou à Sala dos Embaixadores, esvaziada de convidados, para responder às perguntas dos jornalistas. E, acima de tudo, para abordar o proverbial elefante na sala, decorrente da sua passagem direta da direção nacional da Polícia Judiciária (PJ) para o Conselho de Ministros, após essa força ter investigado a Spinumviva, empresa familiar criada pelo primeiro-ministro que provocou a dissolução da Assembleia da República dando origem ao Governo de que passou a fazer parte nesta segunda-feira. “O diretor nacional não investiga ninguém”, respondeu Luís Neves, quando lhe perguntaram se a investigação da PJ ao primeiro-ministro lhe tinha levantado alguma reserva no momento de aceitar o convite de Montenegro. “O papel do diretor nacional é organizar e prover meios. Felizmente, ao longo de 80 anos da instituição, o seu modelo permite que a informação esteja estanquizada. Por isso, sinto-me muito tranquilo”, disse o novo governante, admitindo que “a questão possa ser colocada”. Também abordadas pelo novo ministro, a quem o Chega prometeu “escrutínio político implacável”, tendo em conta as declarações públicas que fez quando era o responsável máximo pela PJ, afastando uma relação direta entre aumento da imigração e de criminalidade, foram as propostas dos partidos para as áreas da sua tutela. E não terão ficado dúvidas quanto ao que se espera.Garantindo ter ouvido “atentamente” tudo o que foi dito no fim-de-semana, após ser anunciado que assumiria a pasta, o novo ministro disse de si próprio que é “humilde para dizer que todas as propostas que forem positivas serão abraçadas e tidas em conta”. Quanto às restantes, fez uma separação: “As propostas que não estejam nesse patamar serão discutidas. As propostas que violem a minha consciência, e tudo aquilo que tem norteado a minha vida, serão afastadas.” Mesmo sem ter esclarecido que propostas teria em mente, e sobre que temas, ficou a garantia de que terá “tempo e capacidade para escutar todas as pessoas”, para no final tomar as decisões..“Naturalmente que continuarei a trabalhar no sentido de dotar as mulheres, os homens e as instituições com os melhores meios possíveis.”Luís Neves, ministro da Administração Interna.Sobre as suas declarações, enquanto diretor nacional da PJ, em que criticou os baixos salários noutras forças de segurança, Luís Neves enveredou pelo tipo de realismo que dispensa exigir o impossível. “Naturalmente que continuarei a trabalhar no sentido de dotar as mulheres, os homens e as instituições com os melhores meios possíveis”, disse, sem se comprometer com promessas sem cobertura na presente dotação orçamental.Ainda assim, ao defender que “trabalhar na Administração Interna é trabalhar na prevenção, na antecipação, na proatividade, e num espírito aberto de cooperação, colaboração e coordenação”, reiterou que conta “com o apoio de todas as mulheres e homens” da PSP, GNR, Proteção Civil e Bombeiros, sem se esquecer das Forças Armadas, “enquanto agentes da Proteção Civil”.Sobre o que o motivou a aceitar uma das pastas mais problemáticas de qualquer Governo, e não menos nos liderados por Montenegro, Neves descreveu-se com “um servidor público”, que sempre deu a sua disponibilidade “ao Estado, ao país e às pessoas”, sendo o que “pretende fazer neste momento de grande exigência”. .Administração Interna. Dois secretários de Estado já vão no quarto ministro .Sem se referir aos desafios que se colocam ao Ministério da Administração Interna, disse que, sempre que liderou “gente fantástica”, em mais de três décadas na PJ, “disse para não serem taticistas, para ousarem pensar e ousarem agir em prol do interesse público e, sobretudo, das pessoas”. Quanto a si, realçou que estava a um ano de acabar a carreira, e que, como “elemento ativo, com força e com vontade”, decidiu “abraçar” o desafio proposto pelo primeiro-ministro. Reservando “uma palavra para os autarcas”, com o conhecimento do Interior próprio de um “homem da Beira Baixa” com “uma costela alentejana”, disse que, face aos “anseios e as dificuldades das pessoas”, contará com o poder local para “levar adiante a missão”..Ausência e presenças.No que deverá ter sido a última cerimónia de tomada de posse de membros do Governo com Marcelo Rebelo de Sousa na Presidência houve uma ausência de peso, embora esperada. A antiga ministra da Administração Interna Maria Lúcia Amaral não foi ao Palácio de Belém, mas Luís Neves teve direito ao cumprimento da juíza conselheira jubilada Francisca Van Dunem, que o nomeou diretor nacional da PJ em 2018, quando era ministra da Justiça de António Costa. Com o Governo representado com Miranda Sarmento, António Leitão Amaro, Castro Almeida, Gonçalo Saraiva Matias, Carlos Abreu Amorim, Nuno Melo, Miguel Pinto Luz, Rita Júdice, Ana Paula Martins e Margarida Balseiro Lopes, também as instituições tuteladas pelo MAI não faltaram, como o diretor nacional da PSP, Luís Carrilho, o comandante-geral da GNR, Rui Veloso, e o diretor do SIS, Neiva da Cruz. E, além de diversos colaboradores próximos do novo ministro na PJ, o presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas..Luís Neves torna-se ministro da Administração Interna com desafios difíceis e perfil elogiado, mas não unânime