Donald Trump foi alcunhado de “rei louco” durante o debate quinzenal com o primeiro-ministro, mas Luís Montenegro inspirou-se noutro presidente dos Estados Unidos, galardoado com o Nobel da Paz ambicionado pelo atual ocupante da Casa Branca, para defender as alterações que o Governo pretende na legislação laboral. “Já esgotámos o nosso potencial de crescimento? Somos ou não capazes de aumentar o salário mínimo e o salário médio? De pôr o salário médio mais longe do mínimo? Respondo: sim, somos capazes. Portugal é capaz, os trabalhadores portugueses são capazes, as empresas portuguesas são capazes”, garantiu, sob aplausos dos deputados do PSD e do CDS.A apropriação do “yes, we can” de Barack Obama ocorreu no encerramento do debate, quando Montenegro se referiu à legislação laboral, cuja aprovação será impossível caso as habitualmente inconciliáveis bancadas do Chega e do PS convergirem no voto contrário, enquanto “pedra angular da nossa competitividade”.Embora o primeiro-ministro tenha anunciado medidas para enfrentar, “com sentido de equilíbrio, responsabilidade e prudência”, ao longo dos próximos três meses, os efeitos dos ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irão, aumentando a comparticipação na botija de gás solidária (de 15 para 25 euros) e aplicando um desconto adicional de 10 cêntimos por litro de gasóleo, até 15 mil litros por veículo, para empresas de transportes de mercadorias e passageiros, o seu foco esteve na apresentação de “propostas reformistas e transformadoras” que pretendem “avançar contra o imobilismo” por si diagnosticado nos partidos da oposição.E se André Ventura centrou a “oportunidade histórica para fazer mudanças”, possibilitada pela “maioria sociológica e política de direita”, na questão dos órgãos externos da Assembleia da República, antes de o líder do Chega ser o primeiro de muitos interlocutores a pressionar (sem sucesso imediato) o Governo a adotar o IVA Zero no cabaz alimentar e a suspender a taxa de carbono, José Luís Carneiro referiu-se diretamente às negociações que foram retomadas nesta semana com os parceiros sociais. O secretário-geral do PS mencionou “matérias especialmente sensíveis” naquilo que o Governo pretende alterar na legislação laboral, incluindo a precariedade dos trabalhadores mais jovens e a conciliação da vida pessoal e profissional. E considerou “muito negativo “ que a delegação da CGTP, excluída das negociações que tiveram lugar na segunda-feira, tenha sido apenas recebida pelo chefe de gabinete da ministra do Trabalho, levando o primeiro-ministro a comentar que aguardará por novas intervenções sobre legislação laboral “para entender melhor a aproximação do PS à CGTP”.Após ouvir a líder da Iniciativa Liberal, Mariana Leitão, apontar a reforma laboral como a única reforma estrutural apresentada pela AD em dois anos, antes de lhe perguntar se a levará à Assembleia da República se não obtiver acordo na concertação social, Montenegro discorreu sobre a existência de três blocos no hemiciclo, mas com uma nuance. Na sua visão, o bloco central é composto pelo PSD, CDS e Iniciativa Liberal, à esquerda estão o PS e restantes partidos, e à direita fica o Chega. “É porque existem estes três blocos que se conseguem gerar maiorias diferentes”, disse, acrescentando que não lhe “passa pela cabeça” que direita e esquerda se juntem contra a legislação laboral, apesar de PS e Chega terem convergido em votações como a do fim das portagens nas antigas Scut.As restantes intervenções oscilaram entre os efeitos do conflito no Médio Oriente no custo de vida - “o PS chegou tarde à inflação de Putin, mas o PSD não deve chegar tarde à inflação de Trump”, disse Rui Tavares, do Livre - e as negociações sobre legislação laboral, com o secretário-geral do PCP, Paulo Raimundo, a acusar o primeiro-ministro de “ser forte com os fracos e fraco com os poderosos”, antecipando que o pacote laboral “será rejeitado”. Com o bloquista Fabian Figueiredo a comparar Donald Trump a D. Afonso VI em termos de insanidade, Inês de Sousa Real (PAN) a requerer medidas para limitar a subida dos juros no crédito à habitação e Filipe Sousa (Juntos pelo Povo) a pedir “resultados e coragem” ao Governo, o líder parlamentar do CDS, Paulo Núncio, elogiou a anunciada aprovação em Conselho de Ministros da Lei do Retorno dos imigrantes ilegais e o homólogo social-democrata , Hugo Soares, atacou o PS, considerando Carneiro e Raimundo “cada vez mais parecidos”.Também se falou da centralização das urgências hospitalares, com Ventura a acusar a AD de “fazer igual ao PS”. Montenegro respondeu, no final do debate, com o “testemunho pessoal” de quem teve de reconhecer que o encerramento das urgências em Espinho resultou “num atendimento muito melhor” em Vila Nova de Gaia, a 15 quilómetros de distância..Montenegro defende legislação laboral num debate quinzenal com guerra, imigração e Tribunal Constitucional