Fernando Medina e Pedro Nuno Santos em 2022, enquanto colegas do Governo liderado por António Costa
Fernando Medina e Pedro Nuno Santos em 2022, enquanto colegas do Governo liderado por António CostaLusa

Medina e Centeno entre os “taticistas” criticados por Pedro Nuno Santos

Antigo ministro das Finanças do PS chegou a ponderar ser candidato à liderança e isso não foi esquecido pelo ex-secretário-geral. Reservas de Centeno para entrar no partido e futuro de Ana Catarina Mendes também não passam à margem
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Duarte Cordeiro está longe de ser o único - ou até o principal, sabe o DN - destinatário das críticas de Pedro Nuno Santos, o ex-secretário-geral do PS que voltou ao Parlamento na quarta-feira passada, retomando o mandato de deputado que suspendera em outubro, e não tardou a causar impacto. As críticas de Pedro Nuno àqueles que apelidou como “taticistas” tinham como alvo principal o ex-ministro das Finanças e antigo presidente da CM Lisboa Fernando Medina, um delfim de António Costa, mas apontavam ainda a nomes como Mário Centeno ou Ana Catarina Mendes.

 Pedro Nuno Santos, recorde-se, atirou a quem usa o “burburinho” para criticar José Luís Carneiro sem se assumir como alternativa ou apresentar candidatura a secretário-geral. “Tenho muito mais respeito pelo José Luís Carneiro do que pelos taticistas que estão à espera que venham tempos mais fáceis para o PS para avançarem. Nem o país, nem o PS precisam de taticistas, o que nós precisamos é de gente com coragem”, expressou aos jornalistas o anterior secretário-geral do PS. 

Segundo várias fontes do Partido Socialista ouvidas pelo DN, os destinatários destas mesmas afirmações são perfeitamente identificáveis. E acima de todos estará Fernando Medina. Há a convicção generalizada de que o ex-presidente da Câmara Municipal de Lisboa esteve perto de avançar para uma candidatura à liderança do PS, mas que sentiu falta de apoios internos após a ida de António Costa para o Conselho Europeu.

 O político portuense, face aos anos a liderar a autarquia da capital, poderia ter lastro para se perfilar, mas, apontam fontes internas, pertence a uma ala mais liberal do PS e não reúne grande base entre as federações. Mesmo tendo liderado Lisboa, Medina teria alguma oposição de Duarte Cordeiro, que é figura muito bem cotada no círculo eleitoral lisboeta e entre as gerações mais novas. Ao contrário de Medina, que aceitou fazer parte da Comissão Política Nacional de José Luís Carneiro, Duarte Cordeiro quis manter-se equidistante, tendo justificado ao DN que, “ao ficar de fora” fica “menos comprometido com as decisões” de Carneiro. 

Ora, como lembram fontes do partido, Pedro Nuno e Cordeiro partilham alguns posicionamentos, mais na ala esquerda do PS, pelo que as críticas do ex-secretário-geral não estariam centralizadas no antigo ministro do Ambiente. 

Medina, por sua vez, considera que tem o mesmo “grau de liberdade” de Cordeiro, apesar de ter aceitado integrar a Comissão Política Nacional do PS. E na sexta-feira, no espaço de comentário no canal Now, criticou Pedro Nuno Santos. “É um mau regresso. Um ex-líder que tem uma voz na sociedade poderia ter regressado para falar da política que interessa aos portugueses, do pacote laboral, do custo de vida, do que refletiu sobre os seus próprios erros e limitações na liderança do partido, mas não”, apontou. 

Já Mário Centeno, homem forte da política financeira dos Governos de Costa, não é militante, mas de há um ano para cá intensificou-se a convicção de que o ex-governador do Banco de Portugal pode ter uma carreira política no partido. Chegou mesmo a aventar-se a possibilidade de substituir Costa na liderança do Executivo, aquando da demissão do ex-primeiro-ministro, ou de ser candidato à Presidência da República. E José Luís Carneiro já o convidou para marcar presença em Conselhos Estratégicos, promovendo uma aproximação ao antigo ministro das Finanças.

 O PS considera que Centeno é figura importante, nem que seja em redor do líder, e o secretário-geral não teve problema em valorizá-lo publicamente. “Se puder dar o contributo ao PS, certamente é bem-vindo. Foi-lhe transmitido que se quiser dar esse passo, também temos todo gosto em acolhê-lo", disse Carneiro à Lusa, quando questionado sobre se gostaria de entregar a Centeno o cartão de militante do PS.  A contribuição para os programas eleitorais pode vir a ser a aproximação de um nome que muitos consideram ter credibilidade e aprovação nacional para liderar os destinos do PS.

 “Tenho o futuro em aberto. A liberdade é o mais importante. E vou assumi-la em pleno”, afirmou Centeno ao DN a 17 de março. Valorizado internamente, o homem que chegou a ganhar a alcunha de “Ronaldo das Finanças” é tido como um possível trunfo em cenário eleitoral. Mas, para Pedro Nuno Santos, a névoa à volta da entrada ou não de Centeno no PS não é benéfica, pelo que o antigo governador do Banco de Portugal era também um dos alvos dos comentários críticos do ex-líder socialista. 

Por fim, duas das mulheres mais relevantes no PS. Ana Catarina Mendes, que passa do Secretariado Nacional para a Comissão Política de Carneiro, era, para muitos apoiantes quer de António Costa quer de Pedro Nuno Santos, um nome forte caso decidisse candidatar-se. A antiga ministra dos Assuntos Parlamentares, ex-líder parlamentar de 2019 a 2022, é eurodeputada e, apesar de ter participado ativamente no último Congresso, não tem feito declarações públicas sobre o PS. Chegou a ser equacionada para uma candidatura a secretária-geral antes das Europeias.

Mariana Vieira da Silva, antiga ministra da Presidência, partilha muitas convicções com Pedro Nuno Santos, também por isso era vista, pelos seus apoiantes, como possível candidata à liderança. Mas demarcou-se sempre disso, apesar de alguns apoios. Na Renascença, no espaço habitual de comentário, disse na semana passada que “certamente que não” se sente visada pela crítica do ex-líder, mas deixou conselhos a Pedro Nuno Santos. “Talvez tivesse sido boa ideia não regressar logo no primeiro dia e encontrar uma forma de se distinguir de todos e mais alguns do PS”.

As próximas semanas serão determinantes para avaliar como se comportará Pedro Nuno Santos no Parlamento. O seu regresso foi valorizado, internamente, por José Luís Carneiro, mas até no círculo próximo as declarações do natural de São João da Madeira tiveram impacto. No regresso ao Parlamento, deixou claro onde se posiciona. “Há muita coisa que me distancia do José Luís Carneiro. Eu sou um social-democrata de esquerda que defende um Estado forte como instrumento do desenvolvimento nacional e como instrumento para travar a apropriação da riqueza gerada por todos por meia dúzia e, portanto, nunca serei adepto de nenhuma estratégia centrista”, disse. 

Carneiro está legitimado, tem as bases consigo e tem prezado uma união e a auscultação de vários contributos que demovem qualquer movimento interno de surgir nos próximos tempos. Mas quando o comboio eleitoral de 2029 surgir mais próximo no horizonte muitos dos "taticistas" que Pedro Nuno agora visou podem sentir-se, por fim, motivados a aparecer.

Fernando Medina e Pedro Nuno Santos em 2022, enquanto colegas do Governo liderado por António Costa
Pedro Nuno Santos afirma ter mais respeito por Carneiro do que por taticistas que esperam para liderar PS
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