Na política é necessário “mostrar preparação” e quem está nela deve “mostrar ao que vai”. O desafio é de Mário Centeno e surge num momento em que o próprio insiste que o seu “futuro está em aberto”. Entre a análise ao estado do debate público e a recusa em fechar portas quanto ao seu percurso, o ex-governador do Banco de Portugal, deliberadamente alheio ao debate instalado sobre a reforma antecipada, traça um retrato exigente do país e deixa em suspenso o seu próprio papel nele.A nova fase que agora inicia, após a aposentação, não é apresentada como um afastamento, mas como continuidade. “A aposentação é uma questão administrativa. Vou continuar a pensar e a trabalhar exatamente como fazia antes. Não há nenhuma alteração. Aliás, a melhor demonstração disso é exatamente estar aqui, nos Estados Unidos, na universidade. Portanto, assim vai continuar”, afirma, de Miami, ao DN. Quanto ao futuro, a resposta é aberta. E fixa a ideia: “A resposta mais genuína e mais certa, neste momento, é a de que o futuro está em aberto. Verdadeiramente, o futuro está em aberto.”Essa abertura está também ligada à forma como encara a própria aposentação. "Longe de representar um ganho financeiro", diz, foi uma "decisão consciente de liberdade". Recorda, aliás, que fez uma escolha semelhante quando entrou no Governo de António Costa, para assumir o cargo das Finanças.É essa liberdade que agora pretende usar plenamente. “Para tudo. Porque, para mim, a liberdade é o mais importante. E vou assumi-la em pleno”, afirma, acrescentando que quer “tentar contribuir para mim, para os meus e para aquilo que for relevante”.No plano político, Centeno, figura destacada da área socialista, evita partidarizar a discussão - prefere recentrá-la no país. “Antes de tudo o mais, o que acho mesmo é que o país precisa de pensar”, afirma. Na sua leitura, esse exercício está ausente: “Neste momento, ninguém pensa genuinamente. Reagimos a estímulos.”Como contraponto, aponta o dossier que entregou a António Costa em 2015, que descreve como “um documento onde se apresentava, com um detalhe nunca visto e nunca mais visto, infelizmente, em Portugal, um conjunto de propostas e de visão para a economia portuguesa, que felizmente se concretizou linha a linha”. E isso, acrescenta, "é o que me deixa mais feliz”.A partir daí, sublinha a ausência de exigência e de substância. “O país precisa de que, quem quiser ser líder, mostre serviço e preparação. E isso quase nunca acontece.” Centeno defende maior responsabilização: “Nós todos devíamos estar a exigir que apresentem ideias sustentadas.” Caso contrário, alerta, cresce o desgaste: “O que as pessoas estão verdadeiramente cansadas é de não haver essa preparação, de não verem a demonstração de que aquilo que se diz tem substância.”Questionado sobre um eventual papel seu nesse processo, como um regresso a um protagonismo político mais ativo, mantém a mesma prudência. “O que precisamos agora é de voltar: aos livros, ao papel, ao pensamento. E isso não está a acontecer”, afirma.No plano económico, a avaliação é direta. “O país ganhou capacidade de atuação muito significativa nos últimos 10, 15 anos. E isso é bom. Não tinha”, afirma, alertando, contudo, que essa evolução “não chega, porque isso esgota-se”. Ainda assim, considera que Portugal tem conseguido responder, muitas vezes em articulação europeia, “que, aliás, é o que faz sentido”. E sublinha o papel dos cidadãos nesse equilíbrio: “O país é as pessoas, e as pessoas sabem exatamente o que querem.”Quanto aos riscos económicos, mantém uma visão prudente. “São os mesmos que se colocavam há muitos anos: a possibilidade de uma crise financeira.” Portugal, acrescenta, “nunca” está livre de ser “levado, arrastado, por uma crise financeira”. “Pode acontecer.” Nomeadamente tendo em conta a instabilidade no Médio Oriente. "O grande perigo desse contexto é mesmo esse.”