Marques Mendes diz que direção executiva do SNS está “desaparecida em combate”. Seguro e Cotrim exigem resultados
MIGUEL A. LOPES/LUSA

Marques Mendes diz que direção executiva do SNS está “desaparecida em combate”. Seguro e Cotrim exigem resultados

Candidato presidencial apoiado pelo PSD defende que a ministra da Saúde deveria dar explicações sobre mortes na sequência de atrasos no socorro. "Alguém tem que pôr cobre a isto", defende o candidato apoiado pelo PS.
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O candidato presidencial Marques Mendes defendeu esta quinta-feira, 8 de janeiro, que devem ser dadas explicações sobre mortes alegadamente devido a atrasos no socorro, em primeiro lugar pela direção executiva do SNS, que acusou de “estar desaparecida em combate”.

Sem comentar os pedidos de demissão da ministra da Saúde por parte da oposição, o candidato apoiado por PSD e CDS-PP admitiu que também Ana Paula Martins, “se entender”, poderá dar “uma palavra de explicação” sobre estas mortes, que considerou “chocantes”.

Durante uma visita à Santa Casa da Misericórdia de Ferreira do Alentejo, no distrito de Beja, Mendes foi questionado se não são “casos a mais”, depois de ser conhecida esta quinta-feira uma nova morte, na Quinta do Conde, alegadamente devido a atrasos no socorro, que se junta a outra noticiada na quarta-feira, no Seixal.

“São, é tudo de facto bastante chocante (…) Eu espero e desejo que alguém de responsabilidade venha no mínimo explicar esta situação”, afirmou, apontando diretamente à direção Executiva do Serviço Nacional de Saúde (SNS).

“Anda desaparecida em combate. Eu nunca fui favorável à criação da direção executiva do SNS, expliquei que não era propriamente uma grande ideia, há uns anos atrás. Mas ela foi constituída, e foi constituída para ter atividade, iniciativa, ação, mas ninguém a vê a abrir a boca, a dar uma explicação, a fornecer um esclarecimento”, disse.

Questionado se a ministra da Saúde não deveria também dar explicações, o candidato admitiu que sim.

“Acho que sim. Acho que se entender, sim. Acho que, em primeiro lugar, a direção executiva do SNS, porque no momento em que foi criado o SNS, passou a ter a responsabilidade desta situação”, afirmou.

Sobre Ana Paula Martins, o candidato apoiado por PSD e CDS-PP começou por dizer que “um Presidente da República não existe nem para avaliar ministros, nem para pedir a demissão em público de ministros”.

“A minha coerência disse sempre isso. Eu não vou andar a mudar de opinião. Agora, há responsabilidades, mas a primeira responsabilidade é dar uma explicação, é fornecer um esclarecimento. E eu insisto nisto, onde é que está a Comissão Executiva do SNS? Onde está?”, criticou.

"Agora é todos os dias?", pergunta Seguro

O candidato presidencial António José Seguro manifestou-se revoltado e indignado com os casos na saúde "todos os dias", exigindo resultados mas sem se intrometer na questão da governação, que deixa para os partidos.

"Com indignação e revolta. Quer dizer, agora é todos os dias? Em Portugal as pessoas sabem que um dia, mais cedo ou mais tarde, vai haver uma doença, mas precisam ter cuidados de saúde a tempo e horas. Agora começa a haver o medo de se adoecer, porque significa muitas dúvidas se pode haver socorro, se pode haver uma emergência", disse Seguro quando questionado sobre mais um caso de uma morte por alegada falta de assistência médica.

Para Seguro, a situação na saúde é "inaceitável" e "alguém tem que pôr cobre a isto", reiterando que, como Presidente da República será "exigente" e esta será a sua causa, acrescentando que, "como candidato a Presidente da República", exige "resultados".

"Isso é um assunto dos partidos. Enquanto Presidente da República, tratarei diretamente desse assunto com o Primeiro-Ministro", respondeu o candidato quando questionado se a atual ministra da Saúde, Ana Paula Martins, tem condições para resolver a situação.

Cotrim quer respostas

O candidato presidencial João Cotrim Figueiredo também defendeu que são precisas “respostas e esclarecimentos rápidos” por parte do Governo.

“Acho que este é o género de situação que exige respostas e esclarecimentos rápidos e só há duas explicações possíveis para uma demora tão grande ou ainda há o apuramento de factos ou circunstâncias que possam justificar isto, que parece difícil de justificar, ou há um embaraço tão grande que estão a encontrar a melhor forma de politicamente gerar esta situação”, considerou o candidato apoiado pela Iniciativa Liberal.

Nenhuma das duas hipóteses é uma boa explicação, acrescentou o eurodeputado.

“Acho que não só as pessoas que dependem do serviço do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), como sobretudo estas famílias que ficaram enlutadas por causa destas tragédias, mereciam uma resposta um pouco mais rápida”, opinou.

O antigo líder da IL entendeu que caso se confirme que o Governo não reativou o reforço de ambulâncias para este inverno, apesar dos avisos técnicos e operacionais, a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, não tem condições para continuar no cargo.

“Eu não gosto de pedir a cabeça de ninguém, já ontem o referi, e, neste caso, só acho que há uma falta de condições políticas se se confirmar que esta não renovação do contrato foi precedida de um aviso das entidades no terreno que isso poderia conduzir à falta de veículos de emergência”, vincou.

Gouveia e Melo considera estranhos investimentos em cima de acontecimentos trágicos na saúde

O candidato presidencial Henrique Gouveia e Melo considerou esta quinta-feira estranhos investimentos anunciados em cima de acontecimentos trágicos e remeteu para o chefe do Governo a avaliação sobre as condições políticas para a ministra da Saúde continuar em funções.

Gouveia e Melo falava antes de visitar o Hospital Misericórdia de Valpaços, no distrito de Vila Real, depois de confrontado pelos jornalistas com os investimentos anunciados pelo primeiro-ministro, Luís Montenegro, no parlamento, para o setor da saúde.

No parlamento, logo no início do debate quinzenal, Luís Montenegro lamentou as mortes de pessoas que não obtiveram socorro atempado e revelou que o Governo aprovou na quarta-feira a aquisição de 275 novas viaturas para o INEM, num investimento de 16,8 milhões de euros.

Interrogado sobre o conjunto de investimentos anunciado pelo executivo PSD/CDS-PP, o ex-chefe do Estado-Maior da Armada reagiu: “Anúncios destes, feitos em cima de acontecimentos que são trágicos - e mais uma vez quero dar os meus pêsames às pessoas e às famílias que sofreram a perda de entes queridos – são sempre estranhos”.

“Até podem ser feitos com a melhor das intenções e sendo a melhor das propostas, mas parece sempre uma medida que tem a ver com a parte comunicacional, ou com a gestão comunicacional de crises, e não uma verdadeira resolução de um problema. Um problema que nos afeta há muito tempo”, respondeu o almirante.

Interrogado sobre as condições políticas para a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, manter as suas funções, Gouveia e Melo remeteu essa resposta para o chefe do executivo.

“A única pessoa que pode avaliar o desempenho dos seus ministros, até porque é a pessoa mais afetada pelo desempenho dos seus ministros, é o senhor primeiro-ministro. E isso está na consciência dele e na liberdade política que tem enquanto ator político, enquanto primeiro-ministro”, sustentou.

Ventura quer usar Belém para “obrigar” Governo a plano na saúde

O candidato presidencial e líder do Chega, por seu lado, afirmou que, enquanto Presidente da República, “obrigaria o Governo” a ter “um plano concreto para a saúde” segundo objetivos. No entanto, os poderes constitucionais do chefe de Estado não o permitem.

“O Presidente tem de começar a dizer ao Governo que aquilo que tem de fazer na saúde tem de ter resultados concretos. Porque nenhum plano que o Governo apresenta na saúde tem resultados concretos”, criticou André Ventura, no início de uma ação de campanha no Mercado Municipal de Ourém, distrito de Santarém.

O também líder do Chega afirmou que, caso chegue ao Palácio de Belém, pretende forçar o executivo a uma “gestão segundo resultados”.

Montenegro é “principal responsável” por problemas no SNS

A candidata presidencial Catarina Martins afirmou esta quinta-feira que Ana Paula Martins “nunca devia ter sido ministra”, mas apontou o primeiro-ministro, Luís Montenegro, como “principal responsável” dos problemas no SNS.

“Estamos numa situação de calamidade na Saúde em que já não podemos dizer que foi um erro da ministra, uma coisa que correu mal. É mesmo um problema global do Governo, do qual o primeiro-ministro é o principal responsável”, afirmou Catarina Martins.

Em declarações aos jornalistas no início de uma vista aos Bombeiros Voluntários da Moita, a candidata às eleições presidenciais de 18 de janeiro sublinhou a necessidade de travar o executivo, após terem sido esta quinta-feira noticiadas mais duas mortes depois de terem ligado para o INEM a pedir socorro e os meios não terem chegado a tempo.

Questionada se a ministra da Saúde tem condições para manter-se no cargo, Catarina Martins afirmou que Ana Paula Martins nunca deveria ter sido reconduzida, mas sublinhou que a responsabilização já não se limita à tutela.

“É das coisas mais graves a que já assistimos no nosso país. Não é uma questão de a ministra ter condições - que seguramente não tem -, é uma questão da estratégia do Governo, que tem de ser travada”, apontou.

Na quarta-feira, a candidata a Belém já tinha acusado o executivo de degradar, deliberadamente, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e esta quinta-feira voltou a afirmar que não acredita que “tantos azares possam ser incompetência” e que os decisores políticos “sabem o que estão a fazer e o que decidiram fazer é gravíssimo”.

“Há duas hipóteses: ou o Governo é absolutamente incompetente, e é assustador ter um Governo assim tão incompetente, ou o Governo quer mesmo destruir o SNS para entregar tudo ao negócio privado da doença, o que também é assustador. Mas como eu não insulto os meus adversários, não vou achar que são todos incompetentes. Seguramente alguém tem uma estratégia”, argumentou.

Em relação a outros candidatos presidenciais, Catarina Martins questionou se Luís Marques Mendes – “do partido do Governo” – ou se João Cotrim Figueiredo – “que vem dizer que vai ser o aliado mais fiável do Governo” – serão indicados para a Presidência da República.

“Precisamos de uma Presidente da República que convoque toda a gente para salvar o acesso das pessoas à saúde em Portugal”, defendeu, prometendo que, enquanto chefe de Estado, tudo fará para “travar esta destruição deliberada do SNS”.

Para isso, admite vetar diplomas que se traduzam em cortes na Saúde e diz que chamaria a Belém profissionais de saúde e bombeiros, que considera não estarem a ser ouvidos pelo executivo.

“E o Presidente da República teria de estar a chamar agora o primeiro-ministro”, acrescentou, criticando igualmente o silêncio de Marcelo Rebelo de Sousa.

De visita aos Bombeiros Voluntários da Moita, que no ano passado realizaram 15 partos e na quarta-feira realizaram o primeiro parto este ano, Catarina Martins aproveitou também para sublinhar o contributo daqueles voluntários que “estão a fazer uma tarefa que não é sua”.

“E ainda bem que correu tudo bem até agora, mas se há alguma coisa a correr mal, não é culpa dos bombeiros, seguramente”, afirmou, acrescentando, no entanto, que “o risco existe, e o risco é provocado por um Governo que é de uma irresponsabilidade brutal e que tem de ser travado”.

André Pestana responsabiliza PS e PSD 

O candidato presidencial André Pestana defendeu que as recentes mortes de utentes à espera de socorro são resultado de uma degradação dos serviços públicos, levada a cabo pelos governos do PS e PSD, incluindo a chamada geringonça.

“Eu sei que agora apontam só a esta ministra [da Saúde como a responsável]. Claro que esta ministra faz parte do problema, não da solução. Agora, em abono da verdade, esta degradação de serviços públicos tem acontecido nas últimas décadas, por isso, a responsabilidade são dos últimos governos, desde o PSD e o PS, incluindo já com a Geringonça”, afirmou André Pestana em Coimbra.

Os últimos governos, no seu entender, “deixaram acontecer” e “não alteraram qualitativamente” a situação de degradação.

Na ocasião, teceu ainda críticas ao Chega, um partido que se diz “líder da oposição”, mas que também “não confronta esses interesses, bem pelo contrário, tenta sempre, com um discurso de ódio, desviar os verdadeiros responsáveis”.

Apontando para sexta-feira uma iniciativa sobre a questão da saúde, “que é muito grave”, o candidato presidencial referiu tratar-se de “mais um exemplo de como os interesses dos negócios de lucro estão a prejudicar as populações”.

“No caso da saúde, metade já do orçamento da saúde em Portugal vai para os privados, ou seja: laboratórios, clínicas, hospitais privados estão a receber metade, digamos, do nosso orçamento de Estado”, pontuou.

Para o sindicalista e um dos fundadores do Sindicato de Todos os Profissionais da Educação (S.T.O.P.), neste cenário, o dever de um Presidente da República “é pressionar”.

“Deve pressionar para que, claramente, por exemplo, se nós precisamos há décadas de fazer análises aos laboratórios, o Estado tem condições de ter esses laboratórios públicos, em que o preço obviamente vai ser muito mais barato. Poupa-se muito dinheiro e não se dá muito lucro para quem tem ganhado muito à custa disso”, defendeu.

Na ótica do sindicalista, o dinheiro poupado nesta e em outras situações deve ser aplicado na valorização das carreiras “de todos que trabalham no Serviço Nacional de Saúde”, incluindo médicos, enfermeiros, assistentes operacionais ou paramédicos.

"Só assim é que será possível atrair as pessoas e assim, obviamente, vai ser muito mais difícil ver a situação que nós estamos a ver, que é urgências fechadas, grávidas a darem à luz em sítios inadequados ou então pessoas a morrerem à espera do INEM”, disse.

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