Um homem de 78 anos morreu na terça-feira, dia 6, no Seixal, após ter caído e esperado quase três horas pelo socorro do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM). De acordo com a linha do tempo verificada pelo próprio INEM, o alerta para o 112 foi feito às 11h20 pela primeira vez. O algoritmo da triagem classificou a situação de prioridade 3, o que significa que o acionamento de meios pode ser feito num prazo de 60 minutos, mas a viatura só foi enviada às 14h09, quando uma equipa de Almada ficou disponível. Neste entretanto, existiram mais duas chamadas a dar conta do agravamento do caso deste homem - às 13h29, dando conta que se encontrava “prostrado”, “sonolento” e “confuso” e às 14h05, para dar indicação de que se encontrava em “paragem cardiorrespiratória”. O presidente do INEM, Luís Mendes Cabral, disse ontem aos jornalistas que a espera se deveu à falta de ambulâncias, mas o Sindicato dos Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar (STEPH) e a Liga dos Bombeiros alertam para as mudanças introduzidas no sistema de triagem em vigor desde 2 de janeiro. O presidente do STEPH, Rui Lázaro, é perentório ao afirmar ao DN: “Ou há situações emergentes ou não emergentes. Se é emergente uma equipa tem de ir ao local, era assim anteriormente”. Agora, com as alterações feitas ao algoritmo da triagem é possível classificar as situações em cinco níveis de prioridade para acionar os meios, até 15 minutos ou 30, 45, 60 ou 120. Algo que Rui Lázaro considera que pode “levar à repetição de situações” como a ocorrida no Seixal. O presidente da Liga dos Bombeiros, António Nunes, é ainda mais crítico em relação à introdução de novas regras na triagem. Em primeiro lugar, porque “o INEM avançou com mudanças à tipologia na triagem unilateralmente, sem dar conhecimento ao seu principal parceiro. E, mais grave ainda, sem as ter acordado com o parceiro que faz 90% dos transportes das situações de socorro. Só esta quinta-feira, dia 8, às 11h00, vamos reunir com o presidente do INEM para conhecer as regras".António Nunes diz mesmo: “Enquanto instituição, o INEM pode mudar o que entender internamente, mas quando se trata de mudanças nas regras, ou seja, na tipologia da triagem, o seu principal parceiro não pode ser informado depois de estas terem entrado em vigor, porque estas regras não podem ser transmitidas numa conversa, têm de ser acordadas e firmadas por escrito num protocolo de colaboração com os bombeiros”, porque “quando as regras falharem é preciso saber de quem é a responsabilidade. E se não estiverem definidas e firmadas isso não acontecerá”, sublinha..Atraso no socorro termina em morte no Seixal. "Não havia ambulâncias disponíveis", diz presidente do INEM. No caso do Seixal, a Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS) já instaurou um processo de inquérito para “apurar a qualidade e prontidão do socorro disponibilizado ao utente, nomeadamente dado pelo INEM”. O próprio instituto avançou também com uma auditoria à chamada feita a pedir socorro. Mas, a verdade, é que um homem de 78 anos acabou por morrer. A ministra não comenta o assunto, mas o PS já pediu a sua audição no Parlamento e o resto da oposição não lhe poupou críticas, tal como os candidatos presidenciais.. Novas regras podem servir “em caso de catástrofes, mas no dia a dia não”.Para António Nunes, o INEM ter “determinado a alteração de um processo sem os principais parceiros, como os bombeiros, em primeiro lugar, e a Cruz Vermelha, em segundo, terem sido ouvidos e acordado o seu funcionamento é grave e, naturalmente, pode criar constrangimentos”, como o caso do Seixal. E, destaca ainda, "posso dizer-lhe mais: o INEM não pode impor regras que possam colocar em causa a relação dos bombeiros com a sua população. Não vamos aceitar isso". Segundo o presidente da Liga, embora não conheça a regras formalmente, estas podem colocar em causa “o relacionamento dos corpos de bombeiros com as suas populações”, precisamente, porque a introdução de “uma priorização na triagem pode tornar difícil fazer entender à população que existem meios disponíveis, mas que estes não são acionados porque a sua situação foi classificada com uma prioridade que pode esperar até meia hora, 60 minutos ou 120 minutos”. E avisa: “Não estamos contra mudanças, mas é preciso entender o seguinte: há vários sistemas na Europa que funcionam em termos de distribuição de ambulâncias de acordo com o grau de prioridade que é atribuído a cada caso, mas não podemos fazer uma importação direta para Portugal de qualquer um destes sistema, por várias razões. Desde logo, pela falta de coesão territorial que existe no nosso país e pela especificidade das grandes cidades”. .IGAS abre inquérito para averiguar morte de idoso que esperou três horas por socorro do INEM. António Nunes explica que "não é a mesma coisa quando se está a fazer triagem e gestão de ambulâncias nas áreas metropolitanas de Lisboa, Porto, Margem Sul, Leiria, Coimbra ou em Castelo Branco, Guarda, Bragança, Portalegre, Évora ou Beja, onde o número de ocorrências é de tal forma espaçado que permite uma gestão completamente diferente”. Portanto, repete: “Não sabemos se o novo sistema é bom ou mau, nem temos meios para dizer se é ou não porque não o conhecemos ao detalhe. O que sabemos é que antes, quando havia uma ocorrência, o CODU ligava para o Corpo de Bombeiros e pedia o acionamento de uma ambulância; agora é o CODU que determina em que momento é que faz o acionamento dessa ambulância, o que para nós é uma situação complicada para algumas situações e em alguns momentos”. E insiste, mais uma vez, nas dúvidas que isso pode gerar: “Como se explica à população de uma pequena localidade que uma ambulância que está no quartel não é acionada porque o CODU é que determina a prioridade?”. Na sua opinião, “esta priorização pode funcionar em situações de catástrofe - isto é, quando há excesso de procura face à oferta. Aí, talvez tenha consistência. Num momento em que temos todos os meios para poder atuar, a pergunta que fazemos é: ‘Por que temos de estar à espera durante algum tempo para acionar esse meio, estando o utente também à espera?’.”O presidente do STEPH, Rui Lázaro, reafirma ao DN que há muito pedem a revisão do sistema de triagem e de resposta, mas para as situações “não-urgentes”, porque quando a situação é emergente “uma equipa tem de ir para o local”.