Antigo Presidente da República, Cavaco Silva
Antigo Presidente da República, Cavaco SilvaFoto: Paulo Spranger

"Europa não deve acobardar-se perante as exigências" de Trump, defende Cavaco Silva

Antigo chefe de Estado defende uma força europeia de Defesa, separada da NATO, mas em cooperação com a Aliança Atlântica. A Europa tem de "reduzir a dependência dos EUA", considera.
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O antigo chefe de Estado, Cavaco Silva, considerou esta quinta-feira, 14 de maio, que "a Europa não deve acobardar-se perante as exigências" do presidente norte-americano. Os EUA têm um presidente "não confiável para a Europa", afirmou, criticando o comportamento "super errático" de Donald Trump.

"Nunca imaginei que pudéssemos viver num mundo com um presidente norte-americano, a grande potência económica e militar, com o perfil do presidente Trump. Ele diz hoje uma coisa, e não sabemos o que dirá amanhã. Faz hoje uma coisa, e não sabemos o que fará amanhã", disse Cavaco Silva em entrevista à Rádio Renascença, na qual considerou que a Europa deve investir mais na Defesa e "reduzir substancialmente a dependência dos EUA".

Foi neste contexto que defendeu uma força europeia de Defesa, separada da NATO, mas em articulação com a Aliança Atlântica.

"Não é apenas fazer dentro da União Europeia um pilar da NATO, mas uma força, uma identidade europeia de defesa separada mesmo da NATO, mas em cooperação com a NATO, para poder intervir em situações em que os Estados Unidos não têm interesse", argumentou.

Antigo Presidente da República, Cavaco Silva
Parlamento Europeu. Cavaco Silva é um dos condecorados com a Ordem Europeia do Mérito

Questionado sobre a atuação dos líderes europeus perante os novos desafios de um mundo marcado por uma realidade geopolítica e económica complexa, como a guerra na Europa, Cavaco Silva teceu elogios à presidente da Comissão Europeia. "Ursula von der Leyen tem realizado um trabalho excelente num tempo muito difícil, num tempo de guerra na Ucrânia".

Para o antigo primeiro-ministro, a líder do executivo comunitário "tem enfrentado com muita força e determinação aqueles que tentaram restringir o apoio europeu à Ucrânia, confrontada com uma guerra montada por um ditador, o Sr. Putin". "E o mesmo está a acontecer agora com a Guerra no Médio Oriente", acrescentou.

Cavaco Silva diz mesmo que confia "muito mais na Comissão Europeia do que no Conselho Europeu", liderado por António Costa, e explica a razão. "Porque no Conselho Europeu vêm, com grande frequência, ao de cima, os interesses particulares de cada país. Eu acho que em primeiro lugar devem estar os interesses comunitários. Mas há países, e ultimamente tem acontecido um pouco isso com aqueles que, tendo vivido sob um regime comunista, foram acolhidos com grandes apoios na UE", destacou, referindo-se, por exemplo, à Hungria, República Checa e Eslovénia.

Para o antigo chefe de Estado, "há reformas importantes que têm de ser levadas a cabo, desde logo no mercado interno", como "eliminar toda a burocracia que ainda existe", que "torna mais difíceis as transações entre os diferentes países da União Europeia, transações de bens, de serviços, de capitais e até de circulação de pessoas". No fundo, "criar um verdadeiro mercado de capitais", disse.

"Se nós tivéssemos um mercado de capitais verdadeiramente europeu, seria possível aos Estados e às empresas fazer grandes emissões de dívida a nível europeu, podendo competir com as grandes emissões de dívida norte-americana. Esse é um passo muito importante. É também essencial – e aí a Sra. Von der Leyen e a Comissão Europeia têm dado passos importantes – reforçar as relações externas e aumentar o número de acordos comerciais com outros países", defendeu.

À Rádio Renascença, Cavaco Silva destacou o Relatório Draghi, do ex-presidente do Banco Central Europeu, que chama a atenção dos países ao indicar "que é a altura de tentar corrigir os atrasos acumulados ao longo do tempo em matéria de produtividade e em matéria tecnológica". "Mas também diz que é preciso apostar muito na inovação e aponta um número assustador do investimento adicional que é necessário fazer na Europa: 800 mil milhões de euros, anualmente. Isso só pode ser conseguido através da emissão de dívida europeia", referiu.

Afirmou, no entanto, que "tem sido muito difícil convencer os Estados-membros a aceitar a emissão de dívida europeia". "Foi conseguido com a covid-19 e foi muito importante. Eu penso que tem de acontecer o mesmo para apoiar os países no reforço das despesas em defesa e segurança.", argumentou.

"Eu acho que há, neste momento, uma consciência muito mais forte dentro da União Europeia de que é a altura de avançar nas reformas que são essenciais para garantir mais crescimento económico e mais desenvolvimento tecnológico…é que, sabe, mais produtividade significa mais poder", enfatizou.

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