Durão Barroso apela a que a Europa deixe de ser "o adolescente geopolítico que tem sido"
No encerramento do primeiro dia das jornadas parlamentares da AD, em Cascais, o antigo presidente da Comissão Europeia e antigo primeiro-ministro, José Manuel Durão Barroso, fez um diagnóstico sobre o estado da ordem internacional e o papel da Europa, falando para uma audiência composta por caras do PSD e do CDS.
Antes de começar uma intervenção que assumiu a forma de aula, Durão Barroso recebeu das mãos dos líderes parlamentares do PSD e do CDS, respetivamente Hugo Soares e Paulo Núncio, uma t-shirt da seleção nacional com o seu nome escrito – "Durão Barroso" – como se de um jogador se tratasse. Momentos antes, os líderes parlamentares dos partidos da AD tinham feito o mesmo com o jornalista Miguel Sousa Tavares.
"Sabendo eu que o doutor Durão Barboso é como eu, como nós, eu queria dizer mesmo, é como todas e todos os portugueses, um grande admirador da nossa Seção Nacional", justificou Hugo Soares ao entregar a t-shirt ao antigo primeiro-ministro social-democrata.
Durão Barroso afirmou que o velho continente enfrenta “uma situação internacional marcada por grande volatilidade, grande incerteza e imprevisibilidade”, agravada pelas relações entre os Estados Unidos, China e Rússia, a revolução tecnológica, a crise energética, as alterações climáticas e o “inverno demográfico” europeu, tudo isto num cenário mundial marcado por duas guerras – na Ucrânia e no Médio Oriente. Por isso, receitou o também antigo líder social-democrata, a Europa precisa de deixar de ser o "adolescente geopolítico que tem sido".
Durão Barroso centoru-se em grande parte da sua intervenção na transformação, na Europa e no mundo, provocada pela guerra na Ucrânia.
Partindo deste conflito, descreveu o mundo como estando impactado por uma “maior agressividade da Rússia”, uma “maior assertividade da China” e por uns “Estados Unidos mais imprevisíveis”, criando um ambiente que exige uma resposta mais robusta da União Europeia.
“Seria a altura da Europa acordar. Deixar de ser o adolescente geopolítico que tem sido”,diagnosticou, afirmando que o continente tem de assumir plenamente a suaresponsabilidade, reforçar a capacidade de defesa e abandonar a postura “mais reativa do que proativa” que, considerou, caracteriza o continente.
“O progresso na Europa parece sempre too little, too late”, afirmou, defendendo que a UE precisa de agir antes de ser empurrada para o limite das crises.
O antigo presidente da Comissão Europeia recordou que, apesar das dificuldades, a Europa já demonstrou capacidade de reação em momentos críticos, como na crise das dívidas soberanas ou na pandemia. No entanto, Durão Barroso insistiu que essa capacidade só vem à tona “quando a Europa olha o abismo”, falando numa tendência para a "proscrastinação".
“Só quando o custo do adiamento é superior ao custo da decisão é que se toma a decisão”,acusou.
Durão Barroso defendeu também que Portugal deve reforçar a sua “vocação euroatlântica”, lembrando que o país é “naturalmente europeu e naturalmente atlântico”, e que não deve ceder a tentações de afastamento estratégico.
Sublinhou ainda a importância de manter uma relação de proximidade com o chamado Sul Global, num mundo marcado pela polarização entre Norte e Sul.
O antigo primeiro-ministro concluiu com um apelo à afirmação europeia: “A Europa precisa da sua dimensão, da sua escala, de ser capaz de defender os seus valores e os seus interesses.”
E deixou uma última reflexão sobre a relevância geopolítica do continente: “Na Europa, todos os países são pequenos. Como é que alguns ainda não se deram conta disso?", questionou de forma retórica para argumentar a sua tese central na intervenção.

