Jogam-se os últimos trunfos na campanha presidencial para chegar à segunda volta e os discursos afinam-se, maioritariamente, para o eleitorado que os candidatos mais querem segurar, como se acumulam figuras que posicionam ideologicamente os candidatos. António José Seguro, que fez uma corrida de trás para a frente, tinha consigo Ana Gomes, Manuel Alegre, Francisco Assis, e agora recebeu apoios de ex-ministros como Duarte Cordeiro, Santos Silva e Pedro Nuno Santos, este último secretário-geral após António Costa. Ou de figuras apontadas a um futuro no partido como é o caso de Miguel Prata Roque.O apoio que começou muito mais na base do PS, nas federações, fora dos centros urbanos, gera mais consenso dentro do partido. Angariar antigos e convictos apoiantes de Costa, que o foram quando o agora presidente do Conselho Europeu bateu Seguro em eleições no partido alargadas à sociedade, é nota de destaque. “O PS estava muito reticente, ainda se falou em António Vitorino poder ser candidato. Mas Seguro teve sempre uma linha de fundo, posicionando-se no centro-esquerda, repetiu a mensagem de outros candidatos anteriores, de cumprir a Constituição, apesar de ir dizendo que fiscalizará o Governo. Não foi preciso mudar muito, mas com a mobilização ganhou pessoas do partido”, analisa António Costa Pinto, investigador coordenador no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. O também professor catedrático convidado no ISCTE vinca que o aparecimento de figuras fortes “é benéfica porque não altera nada da marca de Seguro, que já está implantada. Se o PCP abdicasse da corrida, isso não iria mudar em nada a forma como se olha para Seguro.”Paula Espírito Santo, doutorada e agregada pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, concorda. “Deviam ter chegado mais cedo, mas são fatores de dinamização da campanha. São trunfos. Pedro Nuno Santos é, claramente, um trunfo. Está a ser mais fácil encontrar consensos do que dissonâncias e no PS houve maior aglomeração do que se esperava”, diz ao DN a especialista em Ciência Política, que acredita que “a mensagem de Seguro já ficou” e que se conseguiu “colocar à margem de outros candidatos e acima de partidos.”Os altos representantes do Partido Socialista, sabe o DN, tiveram reuniões com Seguro nas últimas semanas e do voto útil mais à esquerda passou-se, fundamentalmente, a apontar aos eleitores que podem ir do centro-esquerda ao centro-direita. Em causa, os valores curtos que Jorge Pinto, António Filipe e Catarina Martins parecem poder ter, de acordo com as sondagens do último mês. .A alguns dos nomes já mencionados, juntam-se os apoios de Lídia Jorge, escritora e aventada possibilidade de ser apoiada pelo Livre para uma candidatura conjunta à esquerda, e Inês de Sousa Real, deputada e porta-voz do PAN, partido que se colocou à margem da corrida presidencial até ontem.Se Seguro passou a conseguir capitalizar o eleitorado mais previsível, Marques Mendes sente essa dificuldade. “Tem um contexto desfavorável por não se poder descolar do Governo. É maior o número de dissidentes na AD para outras candidaturas do que no PS. Na AD, há uma segmentação para todo os gostos”, advoga Paula Espírito Santo. “Tem a base do PSD consigo, mas é claro que as sondagens devem ter feito soar os alarmes, porque está o Governo em peso na campanha”, explana Costa Pinto, que, por isso mesmo, constata que “houve uma tentativa de apropriação de símbolos do PSD [Passos Coelho, Sá Carneiro] por outros candidatos porque permaneceu uma certa ausência de notáveis do partido, enquanto no PS isso se dissipou.”Gouveia e Melo, que tem Fernando Negrão, Rui Rio e Isaltino Morais, por exemplo, como apoiantes vindos do PSD, anunciou um manifesto de apoio de 100 personalidades associadas à AD há três dias. Logo, pisca o olho ao eleitorado de centro-direita nos últimos cartuchos. “O núcleo de candidaturas da direita é muito mobilizador em Portugal nesta fase e Gouveia e Melo só pode crescer nesse eleitorado. É completamente estratégico”, valoriza António Costa Pinto. O politólogo considera que a candidatura do almirante “é decisiva na leitura da campanha, porque fez os partidos terem de reagir a um candidato independente”, vincando que o militar na reserva “não alterou o posicionamento e quer ultrapassar as barreiras de esquerda e direita”, reforçando, “nos últimos dois meses, a crítica aos candidatos de partido”. “Tem o eleitorado mais volátil entre esquerda e direita, mas terá de pensar que, à medida que coleciona apoios políticos, estes trazem consigo uma história política, como tal pode ser uma faca de dois gumes”, lê Paula Espírito Santo, concordando que “é na AD que recolhe mais eleitores.”Os dois politólogos não veem grandes alterações nos discursos de Catarina Martins, António Filipe e Jorge Pinto no trajeto. Para a segunda volta, retiram-nos da equação e salientam que pequenos erros são determinantes..Pedro Nuno Santos e Santos Silva, ministros de António Costa, associaram-se a Seguro. Fora do partido, a porta-voz do PAN, Inês Sousa Real, e a candidata desejada pelo Livre, Lídia Jorge, também o apoiam. Rio, Isaltino, Negrão e Santana não estão com Marques Mendes.PS mais unido do que PSD.Cotrim de Figueiredo falou em Ventura na segunda-feira, mencionando até uma “maior moderação”, dizendo que teria de “refletir” em quem apoiaria para a segunda volta. “Praticamente, assume a derrota e estamos numa fase de campanha em que se exigia tática. Assim, acaba por ficar subalternizado. Mesmo com a clarificação, dá ideia de titubear”, comenta Paula Espírito Santo. “Há quase a assunção de uma autoderrota. Quando as diferenças entre candidatos são grandes o impacto pode ser escasso, quando as gaffes acontecem e as margens de erro são curtas, aí fica mais complicado”, identifica Costa Pinto, que situa o erro “não tanto pelo elogio a Ventura, mas pelo reconhecimento de que pode não ir à segunda volta”. Os dois especialistas concordam que a acusação de assédio de uma ex-assessora da Iniciativa Liberal pode até ter menos impacto do que as declarações quanto a Ventura. “Marques Mendes teve de explicar negócios, Gouveia e Melo viu contratos antigos serem trazidos para a ribalta, este caso é de 2023, uma acusação que não derivou em processo, e as pessoas podem perceber que é plantado”, atenta Costa Pinto. “Foi um desabafo de pessoas profissionais na área da política. Não é inócuo, é algo datado. Pode trazer perplexidade e dúvida, mas também gerar leituras de manipulação”, conclui Paula Espírito Santo..“Gouveia e Melo quer ultrapassar barreiras da esquerda e da direita”, diz Costa Pinto. “Uso de figuras da AD traz a história política dessas”, acautela Espírito Santo. Os politólogos acham que Cotrim assumiu derrota e que Ventura não está mais moderado.Análise ao DN de Paula Espírito Santo e António Costa Pinto.A ideia de moderação que Cotrim atribuiu agora a Ventura é criticada. “Não vejo diferenças. No dia seguinte, voltou ao símbolo salazarista, é a estratégia da direita radical política. Mantém o tema nos imigrantes e, de resto, será sempre ziguezagueante”, atira Costa Pinto. “É uma questão de expectativa. A regra geral do discurso de Ventura é insultar, logo quando não insulta parece moderado. Verifica-se, na mesma, a falta de substância. Não fala de Defesa porque não dá votos”, termina Paula Espírito Santo..Presidenciais. Cotrim distancia-se de Ventura na Defesa e puxa combatentes para agenda política .Presidenciais. António José Seguro acaba ao bailarico sem ajustar o seu chapéu às cedências.Defesa. Ameaças de Trump fazem candidatos presidenciais pedir autonomia europeia