Ainda que já haja acordo para haver listas unitárias para eleger os órgãos do partido, entre o atual secretário-geral do PS, Pedro Nuno Santos, e o candidato derrotado nas eleições diretas para a liderança, José Luís Carneiro, no que diz respeito ao programa eleitoral as coisas estão mergulhadas em silêncio. “Não vamos contribuir para a discussão na praça pública, muito honestamente”, revelou ao DN fonte da moção de Carneiro, depois de questionada sobre se Pedro Nuno está disponível para absorver propostas do seu ex-concorrente..A notícia de que Pedro Nuno Santos e José Luís Carneiro se tinham entendido no sentido de fazer listas únicas para eleger os membros da Comissão Nacional e da Comissão Política, no congresso do partido, que decorre no próximo fim de semana, foi avançada ontem pelo jornal Público. O diário também adiantou que, “no acordo estabelecido” entre os dois, ficou “decidido que o programa eleitoral do PS vai incluir conteúdos que integravam a moção de estratégia global de José Luís Carneiro”. No entanto, este último ponto parece não estar totalmente esclarecido entre as fileiras socialistas, dando lugar a um silêncio turvo. “As coisas estão a correr bem e será tudo, como se costuma dizer, resolvido internamente até sexta, que é quando começa o congresso”, sustenta a fonte socialista..Um dos temas quentes que pode condicionar estes entendimentos é o chamado “fundo Medina”, que o Público lembrou no texto como sendo uma medida prevista no Orçamento do Estado para 2024 que seria financiada “pelos excedentes orçamentais , de forma a garantir as verbas para o investimento público necessário a partir do fim de 2026, ano em que irá acabar o Plano de Recuperação e Resiliência”. Pedro Nuno Santos não prevê esta medida na sua moção de estratégia global, mas José Luís Carneiro não abdica dela, o que pode configurar antagonismos..Para já, sobre este tema em concreto, o silêncio ficou mais estridente para a fonte socialista. “José Luís Carneiro deu indicação aos seus apoiantes que quer o partido unido - a palavra é mesmo esta - e pujante à volta de Pedro Nuno Santos e do programa que vai ser apresentado para o país”, insistiu. Apesar de também não querer revelar antes do congresso que nomes serão escolhidos, entre os 35% que são da responsabilidade de José Luís Carneiro, no âmbito do acordo estabelecido, os socialistas preferem desviar as atenções para os conteúdos. “Neste momento, mais importante que discutir os lugares é discutir as ideias”, sustenta a fonte do PS, para quem, por outro lado, os conteúdos ainda não estão fechados, mas “até agora tem sido respeitada a diversidade das ideias”. Nada disto, porém, garante que as ideias da moção de José Luís Carneiro serão absorvidas pelo programa eleitoral final. “As coisas têm chegado todas a bom porto”, mantém a fonte, argumentando que “as conversas têm corrido bem”, apesar de haver “uma ou outra discussãozinha. Isso haverá sempre. Qualquer pessoa que diga o contrário está a enganar, mas está tudo a chegar sempre a bom porto”, adianta. No fundo, “são coisas mínimas que são ultrapassáveis. Afinal estamos a falar de duas listas que foram votadas”, conclui..Do lado de Pedro Nuno Santos, parece que os entendimentos a nível programático ainda estão menos nítidos. Questionada pelo DN sobre se confirma que não haverá um programa eleitoral do PS que inclua conteúdos que integravam a moção de José Luís Carneiro, Alexandra Leitão, que coordenou a moção de Pedro Nuno Santos, manteve-se em silêncio. .De acordo com o Público, o secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, André Moz Caldas, que coordenou a estratégia de José Luís Carneiro, irá juntar-se a Alexandra Leitão para cumprir o propósito de tecer um programa que integre as ideias do candidato derrotado na corrida à liderança do PS. A concretizar-se, para já, os caminhos que conduzem a esse fim estão sinuosos..O que já se sabe é que a afinação entre as duas listas concretiza-se com um acordo que, pelo menos, permite a José Luís Carneiro escolher 35% dos nomes que vão integrar as listas dos proponentes apontados para os órgãos socialistas, nomeadamente a Comissão Nacional, a Comissão Nacional de Jurisdição e a Comissão Nacional de Fiscalização Económica e Financeira. .Nada disto surpreende, na medida em que a unidade foi um argumento utilizado logo na noite em que Pedro Nuno Santos foi eleito secretário-geral do PS. A16 dezembro, tanto o novo líder, como o candidato derrotado, fizeram discursos com notas de abertura que projetavam uma coesão..Pedro Nuno Santos afirmou que contava com José Luís Carneiro, assim como com a participação do ex-secretário-geral, António Costa, na campanha para as eleições legislativas. Por sua vez, José Luís Carneiro, no discurso em que assumiu a derrota nas eleições internas do PS, acentuou que “estava disponível para a unidade, com respeito pela pluralidade interna”..“Cabe à nova liderança construir essa unidade”, acrescentou nesse discurso que proferiu na noite de 16 de dezembro. Ainda no que respeita ao calendário para a eleição dos futuros órgãos nacionais do PS, ao contrário do que tem sido habitual, desta vez, Pedro Nuno Santos considera vantajoso que a Comissão Política Nacional, o órgão de direção alargada, seja eleita já no próximo domingo, no encerramento do congresso, imediatamente após a eleição e constituição da Comissão Nacional..Assim, para a primeira reunião da Comissão Nacional do PS após o congresso deste fim de semana, ficarão as eleições dos órgãos de direção restrita: O Secretariado Nacional e a Comissão Permanente. Em relação a estes órgãos, desconhece-se se Pedro Nuno Santos optará por convidar elementos que apoiaram José Luís Carneiro..No passado dia 16, nas eleições diretas para a liderança deste partido, Pedro Nuno Santos foi eleito secretário-geral do PS, com 24.080 votos, correspondentes a 62%. José Luís Carneiro foi o segundo mais votado, com 14.868 votos, correspondentes a 36%, e Daniel Adrião ficou em terceiro lugar, com 382 votos, 1%. A candidatura de Pedro Nuno Santos elegeu também a maioria dos delegados ao Congresso do PS, 909, seguindo-se a de José Luís Carneiro, que elegeu 407, enquanto a de Daniel Adrião elegeu cinco delegados, de acordo com o presidente da COC, que referiu que estes são resultados provisórios..Nas negociações entre Pedro Nuno Santos e José Luís Carneiro, a equipa do atual líder, num momento inicial, apenas pretendeu atribuir à linha do ministro da Administração Interna cerca de 31% do total de membros nas comissões Nacional e Política do PS, partindo da ideia de que será este o peso que os delegados afetos a Carneiro irão ter no congresso deste fim de semana na Feira Internacional de Lisboa (FIL)..A candidatura de José Luís Carneiro, pelo contrário, contrapôs que a votação no atual ministro chegou quase aos 37% e que, habitualmente, nos congressos, as listas das minorias conseguem subir em relação ao seu peso em termos de delegados nas votações para a Comissão Nacional. O acordo entre Pedro Nuno Santos e José Luís Carneiro acabou por fechar nos 35%. Com Lusa vitor.cordeiro@dn.pt